Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Walter Benjamin

Forgács

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O CCBB de Brasília está apresentando entre os dias 07 e 19/02/2012 a mostra (gratuita) de filmes de Péter Forgács, intitulada "Arquitetura da Memória".

Não conhecia o cineasta húngaro, e tive gratas surpresas ao ver alguns de seus filmes.

Péter é reconhecido internacionalmente pela criativa utilização de imagens de arquivo, de filmes de família (home movies) e de registros caseiros de meados do século 20. Assim, sua obra é um resgate de imagens - não pelo valor objetivo das imagens, mas pela narrativa que se pode construir a partir delas.

Na vinheta de abertura da mostra, Péter deixa claro a que veio (as frases são de seu filme "Tractatus de Wittgeinstein - 7 parágrafos em vídeo", veja aqui o trailer):

What the picture represents is its sense.
(O que a figuração representa é o seu sentido.)
It cannot be descovered, from the picture alone, wheter it's true or false.
(Não é possível reconhecer a partir da foto fora de seu contexto se ela é verdadeira ou falsa.)
Only a very unhappy man has the right to pity someone else.
(Somente um homem muito infeliz tem o direito de sentir pena de outra pessoa.)
The objetcts is simple.
(O objeto é simples.)

No entanto, se a história é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores, não me parece que Péter esteja sempre ciente do alerta deixado de forma enigmática por Walter Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

Ao utilizar imagens do cotidiano, banais até, Péter parece almejar contar outras versões paralelas à "história oficial".
Mas nem sempre este é o caso, como pode-se notar em "El Perro Negro - Histórias da Guerra Civil Espanhola" (veja aqui o trailer), no épico musical "Hunky Blues - O Sonho Americano" (que, aliás, tem excelente trilha sonora! Veja aqui o trailer) e, em menor medida, no chocante "Enquanto isso em algum lugar…1940-1943" (veja aqui o trailer).

Apesar de se fundamentarem em vídeos amadores e em histórias do dia-a-dia, por vezes simples e cômicas, como uma tentativa de contraste com cenas trágicas e bárbaras do período entre-guerras, as imagens dos dominadores, os relatos dos vencedores e dos bem-sucedidos (ao final) estão sempre lá, à espreita, vigiando e guiando os acontecimentos, alheios inclusive ao próprio cineasta, que parece ter as mãos (e a inventividade) amarradas na tentativa de tecer outra narrativa (im)possível.

Já no filme "Um Leitor de Bibó" (veja aqui o trailer) o espectador é duplamente presenteado: fragmentos de textos primorosos do pensador político húngaro István Bibó são complementados por imagens desoladoras do panorama da Europa Central durante os anos próximos à Revolução Húngara de 1956.

The greatest threat to the rule of law is not people outside it, but those uncertain and distorted situations in whiches the law becomes bad, contradictory, and hypocritical. (István Bibó).

Neste período, Bibó foi Ministro de Estado e também preso e sentenciado à morte. Anistiado, deu continuidade a suas reflexões sociais e históricas, profundamente arraigadas no conceito de "medo":

Being a democrat means, primarily, not to be afraid; not to be afraid of those who have differing opinions, speak different languages, or belong to other races; not to be afraid of revolutions, conpiracies, the unknown malicious intent of enemies, hostile propaganda, being demeaned, or any of those imaginary dangers that become truly dangerous because we are afraid of them. (István Bibó, em The Distress of Eastern European Small States, 1946.).

Por fim, fica a ideia de que a democracia não tem proteções contra si mesma - ou seja, contra o uso anti-democrático de procedimentos democráticos ou contra a demagogia - e nem deve ter.
(E a imagem da bandeira nazi sendo hasteada em frente ao Partenon grego torna isso assustadoramente evidente).

Nostalgia

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A nostalgia é um sofrimento frágil e suave, essencialmente diverso, mais íntimo, mais humano do que as outras dores que havíamos suportado até então: frio, golpes, fome, terror, doença, privação. É uma dor límpida e clara, mas urgente: invade todos os minutos do dia, não concede outros pensamentos, e nos incita às evasões.

Assim Primo Levi descreve a nostalgia em A Trégua, belo livro em que ele fala dos tempos em que ficou preso em Auschwitz e, com o fim da guerra, perambulou "livre" pela Europa Central, sem destino certo, até poder voltar para Turim, na Itália, sua terra natal.

Tenho notado que 2011 parece ser, para diversas pessoas, um ano nostalgico; de balanços, revisitas, rememórias, recomeços. É, para bem dizer, o encerramento de uma década. E, falam as más e as boas línguas, está sendo a passagem para o fatídico ano de 2012, que tanto presume o fim do mundo quanto a entrada em uma nova Era.

Eu, que não sou dado às nostalgias, tenho me defrontado com algumas atividades que me fizeram revisitar tempos passados, seja para fechar ciclos, seja para me reconciliar com eles. Pude olhar recentemente para esta década e acompanhar partes da minha trajetória, como esforço para preparar uma cronologia de 10 anos da Rede Nacional de Jovens Líderes, que ajudei a começar no ano de 2001. E, para minha surpresa, foi sem nostalgia que pude perceber o difícil e o prazeroso que foi este tempo de boas e grandes realizações.

A nostalgia não parece ser uma saudade. E como poderia ser, se nos orgulhamos de haver "inventado" a palavra "saudade", para a qual insistimos que não há correlatos exatos em outras línguas?

A nostalgia não parece ser o desejo de retorno ao que passou, porque não raro vem acompanhada de sofrimento, mesmo que seja um humano e doce sofrimento, como diz Primo Levi. É um deslocamento, e sempre "para fora de casa".

A nostalgia não parece prestar-se à reconciliação com o que se passou, com o estranhamento que a mudança constante do mundo e dos outros indubitavelmente causa. Como disse Hannah Arendt,

toda pessoa necessita reconciliar-se com um mundo em que nasceu como estranho e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. (em A dignidade da política, 1993. p. 39)

Mas a nostalgia não se presta a essa reconciliação, pois não permite que os homens se sintam, no tempo presente, "em casa no mundo" (como menciona Arendt em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 52). E, se não vale por isso, tampouco poderia valer para ajudar-nos com atualização da compreensão do mundo, que

não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós [...]. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 21)

Alegoricamente, como menciona Walter Benjamin em sua Tese 9, o passado é aquilo que, ao contrário do que sustenta o senso comum, está diante de nós porque por nós pode ser visto e lembrado, quase sempre como ruínas.
O futuro, por sua vez, seria aquilo que viria de trás, como uma tempestade que está sempre às nossas costas; impossível de prever, mas forte e instigante o suficiente para nos levar adiante.
Então, a nostalgia poderia ser descrita como um "tapa-olho" (aquela espécie de viseira que permite que se enxergue somente para frente); não impede o progresso, mas dificulta que se observe o caminho e impede que se veja os que tombaram a nosso lado.

A nostalgia surge do interesse humano em partilhar empaticamente de sua história que, no entanto, é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores: e quem não quer ser um vencedor em sua própria história? Mas, como alertou Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

De quê serve então este sentimento tão avassalador quanto inútil e evasivo, tão frágil quanto dominador, tão suave quanto pungente; que vem não se sabe de onde e ao qual não se pode humanamente resistir?