Impulsivo
Das noites obrigatoriamente passadas com G.H., das horas tentando desatar os Laços de Família, dos desgastes com A Hora da Estrela... no fim, nunca estive mesmo Perto do Coração Selvagem de Clarice.
Até que me surgiu a oportunidade de revisitar Clarice. E como uma visita despropositada é sempre mais benéfica - ao menos para quem visita, deixei-me levar pelas letras tortas e frases inacabadas de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".
É claro, vão pregar os críticos, que no dizer do título já está a escolha pelo tema. Ou se lê (e se vive) que é um livro sobre a aprendizagem, ou então se percebe uma estória sobre os prazeres. Ou se toma o lugar de Ulisses, ou mais bem se está com Lóri.
E não é que Lóri vai dizer-se "eu"? Será uma intimação (ou seria, antes, uma intimidação)?
Identificado - por motívos óbvios de "lugar de fala" e de "deformacão profissional" - com Ulisses, a leitura foi uma vertigem - no melhor estilo Hitchcock - para dentro do que poderia ser "o ponto de vista do Outro". Oras querendo ser Lóri, oras só dando conta de ser Ulisses, oras sendo, simplesmente sendo, "eu".
E me deparei novamente com Clarice. E entendi (ou nem bem comecei a entender?) que as coisas têm hora. Hora como Kairós. E então me chega esse fragmento intitulado "Temperamento impulsivo" - em parte autobiográfico, em parte um trecho de uma crônica - que me revela como e porquê essa aproximação (só) no tempo do agora se deu:
"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei".
Assim que terminei o tal do livro, comecei logo outro (pra não dar tempo de "lembrar" do anterior?), que se chama "Sob a Sombra de Saturno: a Ferida e a Cura dos Homens". Ganhei quando fazia exatamente 29 anos e 9 meses. Ou seja, a 3 meses dos 30 anos. Simbólico? Bem, é um livro junguiano...me pareceu adequado.
O caso é que essa impulsividade, posivelmente equivalente a um comportamento infantil (ou pouco maduro), é a temática da vez. E de um outro post talvez...
Crédito da imagem: Orlando Pedroso.