Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Rituais

Aniversário

1234549109991_f_pq
Aniversário é quando se celebra a passagem de um ano - um ano pessoal e intransferível (que foi marcado pelo relógio do médico que fez seu parto, não se iluda...).
Aniversário é quando se co-memoram os acontecimentos dos últimos tempos, com as pessoas dos últimos tempos, geralmente nos últimos tempos do dia (sim, porque só sua mãe vai lhe mandar uma mensagem na hora em que você realmente nasceu, lhe dando os parabéns!).
Aniversário é um rito moderno, alavancado pela moderna exacerbação do papel do indivíduo e de sua trajetória pessoal, em que se marca o fim e o começo de um momento quase sempre privado. No entanto, é um rito coletivo, e não um retiro interior.
Como tal, lança o indivíduo diante da tarefa de lidar com o bom e o mau da vida compartida, do tempo social, do rito civilizatório.

Há algum tempo tenho deixado este rito de lado, abandonado a sua própria sorte.
A cada ano que se passava, eu viajava mais, recebia menos ligações, celebrava menos (este dia, em particular) e achava bom me retirar, por um dia pelo menos, do tempo social.

Este ano resolvi experimentar algo novo - na verdade, relembrar como era antigamente.
A experiência passa por superar antigas dificuldades em aceitar e receber: presentes, companhias, surpresas, novidades, homenagens; ausências, desconfortos, planejamentos, convites.
A experiência passa também por lidar com o problema do merecimento: merecer presentes, companhias, surpresas, um novo ano, um calendário próprio, um ritmo social, a partilha de regras coletivas.
Não é que eu não goste do reconhecimento - pelo contrário. Mas com o reconhecimento vem a exposição e, convenhamos, para um capricorniano acostumado com sua concha e seguro em sua caverna, a luz do reconhecimento pode ofuscar e dar medo. O reconhecimento não é como as palmas impessoais em um auditório, mas como um aperto de mão com olhos-nos-olhos, como um abraço apertado sem motivo aparente, como uma voz próxima lhe parabenizando por sabe-se-lá-o-quê.

De todo modo, a experiência está proposta. O desafio está lançado. E o aniversário vai chegar de qualquer modo...Quem sabe celebrando Saturno resolva me dar uma folga!

Para os "avisados", e para meu próprio registro, aí está o roteiro da experiência e o convite para a partilha dos eventos no dia 15/01, domingo:

A partir das 8h30 - Água Mineral
Pretendo iniciar o dia, ainda solitariamente (calma! é a transição!), com os pés na água corrente do Parque Nacional de Brasília. Se tudo convergir para a minha felicidade, o Sol finalmente vai dar as caras. Se não, será uma manhã fria e recolhida, mas igualmente com os pés na água - numa versão pagã do ritual de lava-pés.
Info:
Parque Nacional de Brasília – Água Mineral (preferencialmente na piscina "velha")
Rodovia BR - 040 - SMU - Via EPIA
(61) 3234-3680
Website no Guia Oficial de Brasília

A partir das 12h30 (até às 16h30) - Almoço familiar
Pra começar o dia com a benção dos santos e dos orixás, há que se fazer as devidas oferenda com cachaça e boa comida, né?
Assim, estarei confortavelmente sentado numa mesa lateral do agrabilíssimo restaurante-cachaçaria-bar-café chamado Fulô do Sertão para um almoço familiar: para resgatar laços familiares, nutrir, digerir; sem longas conversas, sem profundos pensamentos; um almoço em família, sem mais.
Amigos (que não se acanhem em partilhar do almoço "em família") são bem-vindos, ligações serão atendidas e até mesmo presentes serão bem-recebidos.
Infos:
Fulô do Sertão - Restaurante Cozinha Nordestina
SCLN 404 Bloco B. (esquina dos fundos)
(61) 3201-0129
www.fulodosertao.com.br

A partir das 17h30 (até às 21h30) - Café vegano
Porque, afinal de contas, a experiência de co-memoração também pode servir para reafirmar, no tempo presente, valores do passado.
Agora sim é a hora dos amigos, amigos dos amigos, conhecidos (e pelo menos 1 desconhecido, como no vertiginoso conto de Grégoire Bouillier, que me fez rever as comemorações de aniversário) chegarem junto.
Para celebrar os 30 verões, espero reencontrar 30 pessoas (e mais 1!) durante as boas horas em que devo ficar no Café Corbucci, tomando um cafezinho, curtindo um fim-de-tarde com seu lusco-fusco (cinza, nesses dias!) que só Brasília oferece. E, pra festejar, não precisaremos matar nenhum animal e nem deixar mães tristes sem seus queridos filhotes! Olha só que lindo... ;)
O Café fica na 203 norte e é tocado pela Marina Corbucci. É o único estabelecimento 100% vegano da cidade. Além dos cafés, cappuccinos, cervejas e vinhos, há sanduíches, pães-de-queijo-sem-queijo, tortas de chocolate, quiches e muito mais (dependendo do dia da semana) sem nenhum derivado animal que não seja a ralação de quem toca essse estabelecimento pra frente - como menciona o pessoal do "Distrito Vegetal" numa amistosa resenha aqui.
Infos:
Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53 (esquina dos fundos)
(61) 3201-1316
www.facebook.com/cafecorbucci

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

Chá

Ritualizar os acontecimentos é uma forma de celebrar a vida.

Celebrar a vida é uma forma de manter-se aberto para o que vem, honrando o caminho percorrido e a contingência da caminhada.

Honrar o que passou é uma forma de conexão com o muito que há, firmando o passo nas pegadas de todos os que já passaram por aqui.

E há muitas formas de se fazer isso tudo. E, embora haja atalhos, não há um caminho fácil e curto.

Ou o caminho é fácil - e será longo; e se for longo, será entrecortado de momentos difíceis.

Ou o caminho é curto - e será duro; e se for fácil, restará a sensação de não ter chegado até o fim.

Como ouvi uma vez, no longo caminho duro de um Sesshin:

A dor não é necessária. Mas ensina.

Ontem aprendi muito. Menos do que preciso, o quanto eu consigo, e ainda talvez mais do que eu posso.

E ontem também celebrei muito.

Celebrei os batuques que dão ritmo ao meu corpo e ao meu pensamento. E aprendi que quando a mente está nas nuvens é preciso conseguir manter o ritmo, é preciso ter pés firmes pra pousar, é preciso ter terra firme para me receber e descansar.

Celebrei as cores que não vejo e que podem colorir minhas noites. Porque, ao não vê-las, torno-me mais cinza, mais soturno, menos vivo. Então, ontem aprendi que a noite também é colorida quando celebramos a noite; que o fogo é colorido quando celebramos o fogo; que a vida nem sempre é cinza e soturna, porque é viva.

Celebrei a Lua que sempre me acompanha e me guia. Lembrei-me de que, para os astrólogos, é a Lua o astro que guia o amor em minha vida: tenho um amor lunar; sou feito em fase. E aprendi, mesmo sem entender, que esta é minha parcela feminina que ainda precisa se harmonizar com o mundo feminino da qual ela parece ter sido banida. Se um amor lunar fere ciclicamente por abandono, talvez ele também possa curar reincidentemente. Preciso me lembrar que a Lua, cheia ou nova, sempre está lá no céu, mesmo durante o dia.

Celebrei o medo, e também a força que sempre lhe acompanha. A aprendi que, se não posso controlar - o medo e a força - posso tentar guiá-los nos labirintos do lá-de-dentro. Aprendi que não preciso agir sempre pelo estômago, que expele violência ao menor sinal de medo. Caminhar pode ser um bom exercício para afastar o medo; não correr (dele), mas caminhar (nele).

Celebrei o acolhimento que um lugar quente e protegido pode proporcionar. E fiz de um cobertor minha morada, provisória. E aprendi que, sendo provisória, é ainda mais importante. Quando tive medo, caminhei; quando tive frio, me cobri; quando tive calor, me abri; quando tive sono, sentei e sonhei; quando acordei, celebrei.

Celebrei o vivido, quando o vivido estava ocorrendo. Porque, ao passar, ao deixar de ser uma paisagem do pensamento, percebi que do muito que eu acabara de viver restara quase nada na memória. E celebrei a calma e a prudência com que a memória escolhe os caminhos e as paisagens que permanecem. A memória ensina a impermanência.

Mas o aprendizado de que falo aqui não é cognitivo. É só perceptivo, como uma impressão quase borrada na folha fina da memória imaginativa.
Afinal, tanto quanto um sonho, um chá é só um atalho. E tanto quanto qualquer atalho, o chá é só um expansor de caminhos - resta escolher entre os curtos caminhos duros ou os longos caminhos fáceis.

A vida começa quando a gente acorda e pode olhar para si e para o mundo, para tentar fazer do longo caminho um caminho um pouco mais fácil, e certamente mais vivo.


Deixo duas "dicas", pra quem quiser entrar no clima do chá.

Oxalá, música do grupo português Madredeus.

Cap. 24 do livro "Uma Vida Inventada", da Maitê Proença.

(download)