Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Ponto de Vista

Recordação

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Recordar parece ser uma atitude análoga ao relembrar.
É preciso, no entanto, que se perceba: seus movimentos podem ser semelhantes, mas seus caminhos são outros.

Relembrar, que é lembrar outra vez, precisa sempre fazer seu apelo ao passado, pois seu caminho retorna às imagens da memória e, portanto, dificilmente sai da cabeça que as guarda.

Recordar, muito a seu modo, trata mais de trazer à tona as sensações e as experiências que a-guardavam em outros lugares do espírito, do corpo, da vida.

Em O Livro dos Abraços, o escritor uruguaio Eduardo Galeano registra:

Recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração".

Recordar, assim, é uma atividade inevitavelmente feita no presente, pois se realiza nas sensações que vêm à baila, e apela mais frequentemente ao futuro, ao que virá, pois que deixa rastros, como guias, para seguirmos adiante.

Diante de uma lembrança que retorna, tem-se geralmente duas opções: compreender ou perdoar.

E faço rápida digressão para repetir as palavras de Hannah Arendt, que mencionei quando escrevi sobre a nostalgia. Para a pensadora alemã, compreender significa:

encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 21).

Quando compreendemos nos reconciliamos com o mundo e com o passado, sem, no entanto, termos de nos submeter à possível repetição dos acontecimentos.
Compreender não significa perdoar, não significa aceitar como possível, no presente, uma situação vivida no passado.
Compreender, pelo contrário, é justamente o que nos permite uma reconcliação que cria outros caminhos, que faz ressugir o mundo e que nos torna responsáveis por ele.
O perdão, por sua vez, é o único instrumento de que dispomos para lidarmos com o fato de que nossas ações são irreversíveis - não se pode voltar atrás e desfazê-las.

Mas é importante frisar: ao se perdoar a pessoa, aceitando suas desculpas, pode-se não perdoar seu ato, isto é, pode-se não querer ver tais acontecimentos retornarem.
Assim, embora seja o único, o perdão deve ser sempre o último instrumento para o qual se pode apelar numa reconciliação com o mundo. (Fim da digressão!)

Diante de uma recordação, no entanto, por ela ser viva, vívida (e, portanto, fugaz), o que nos cabe é aproveitar.

E, vale dizer, a-proveitar é precisamente isso: não tirar proveito, não servir-se do benefício como quem se serve de algo pronto, como quem ganha algo dado para guardar novamente.
Para a-proveitar é preciso ceder à tentação de ganhar e guardar. É preciso, antes, dar-se, entregar-se, generosamente.
Para a-proveitar é preciso a-guardar (pois, dizem, para tirar proveito é preciso guardar o proveitoso benefício, sem generosidade, com apego, protegido).

Uma vida a-proveitada, assim, é uma vida que a-guarda ser re-cordada.

Com os percalços (e também com as alegrias) que toda vida bem vivida apresenta: para curtir a liberdade de andar de bicicleta sem as mãos, corre-se o risco de ver surgir na pele alguns arranhões.
As marcas ficam como lembranças. E dão coragem para seguir.
               
É preciso coragem para recordar.
Como diz a sabedoria popular, "recordar é viver".
Ao que somo o poema (publicado em Grande Sertão Veredas) de João Guimarães Rosa:

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

Para deixar "tornar a passar pelo coração" é preciso a coragem da persistência.

E, quando se persiste, pode-se ter, finalmente, aquilo de que se precisava, aquilo por que se esperou tanto tempo.

Uma necessidade não cessa até ser satisfeita. Aquilo de que se precisava, ainda é aquilo mesmo de que se precisa. Partilhamos, quase sempre, das mesmas necessidades. E, sendo a base da Comunicação Não-Violenta, essa talvez seja nossa humanidade em comum esquecida.

Deixar "tornar a passar pelo coração", portanto, ajuda a conectar duas pessoas.
Recordar é uma atividade profunda e necessariamente compartilhada.

Recordar permite satisfazer, no presente, necessidades não satisfeitas no passado.

E ter coragem, ou seja, agir com o coração, está intimamente ligado à recordação.

Essa coragem de recordar, essa ação do coração de fazer algo passar novamente por ele, pode satisfazer a necessidade de partilhar de um ponto de vista, que é o limite da vista de um ponto.
Afinal, é bom saber que meu ponto de vista não é habitado só por mim.
Além disso, essa mesma coragem de recordar pode fazer você se deslocar até aqui, até o meu ponto de vista (ou, então, me levar até aí, até o seu ponto de vista - nesse momento, isso importa menos).
Agora, a vista desse ponto co-habitado pode ficar mais clara para os dois, porque foi partilhada. E os meus próprios limites se alargam, alcançando, finalmente, o outro.

Recordar pode aumentar o desfrute do gosto gostoso de se perceber uma necessidade sendo atendida.
E, nesse momento, não é só o ego que clama por isso.
Nessa reconexão, facilitada pela recordação, é o "ser-com" de cada um que aproveita, aquele "modo de ser" que ficou partido, pendendo de um lado do caminho, enquanto ainda estávamos desconectados.

Com a recordação, a conexão, que se achava perdida, volta a se fazer.
E é como ver uma corda que estava esgarçada e puída, quase partindo-se, tramar novamente seus fios: é um momento mágico, quase miraculoso.
Quase não se precisa fazer força pra esse momento acontecer - umas poucas palavras, nada mais - mas só quem vê sabe o quanto de esforço foi necessário, antes.

Se deixe aproveitá-lo um pouco mais, na próxima recordação.

Crédito da Imagem: Orlando Pedroso.

Limites

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Diante da experiência de

- Você ultrapassou todos os limites! Parece estar me testando, testando meus limites!

o que fazer, o que pensar, como reagir?

Talvez não esteja claro que limites são coisas que criamos - para nos proteger ou para proteger as relações (isto é, para que fique claro, a imagem cristalizada que temos de uma relação em particular).
Limites aparecem evidenciados em momentos de fragilidade, de "aislamento", de ruptura.
O outro nos impõe um limite quando nossa conexão está sendo perdida.
Ou, eu me imponho limites quando estou perdendo minha conexão interna comigo mesmo: quando me pego em contradição (com o que penso e sinto), quando quero crescer (para além do que sou), quando preciso expandir meu ponto de vista (para dar conta do mundo novo que se alargou).
Assim, como criações temporárias, os limites, no melhor sentido da ideia, estão aí porque devem ser superados. Não para que deixem de existir, mas para que se reajustem, pois são "limitados".

Ou, como ensina a velha sabedoria do mar:

Caranguejo que não troca de casca também não cresce.

E é nesse mesmo rumo que a filosofia também se manifesta.
(E, se não está afim de devaneios filosóficos agora, pode saltar alguns parágrafos, sem prejuízo).

Lembro-me de algumas ideias do filósofo francês Gilles Deleuze, em que aparece um alerta para que sejam saltadas as “cercas”, para que sejam ultrapassados os limites e para que sejam reintegradas as partes, antes distribuídas ou dispersadas - para ele, esse é o modo de agir dos bebês (sim! dos bebês!).
Cercas, para ele, são impedimentos que se impõem a nós, ou seja, que “vêm de fora”.
Limites, assim, são determinações ou fronteiras que impomos a nós mesmos, ou que assumimos para nós mesmos, às vezes por medo, outras vezes por ignorar que não são necessárias ou, sequer, existentes.
Estes limites assumem tantas e tão diversas formas que vale enunciar algumas delas:
i) podem apresentar-se como diferenças que criam meras “individualidades sem singularidades”, na expressão de Muniz Sodré. Ou seja, se quero impor um limite para manter-me como indivíduo, mesmo quando não há nada de singular nesse limite - dele não me aproprio, já que é mera repetição. Singular, por exemplo, é o sorriso ou o choro de um bebê, que são claros limites, embora não façam, per si, de um bebê um indivíduo, único, separado dos outros bebês. Pelo contrário. Assim, este sorriso é a expressão de uma "singularidade pré-individual", como indica Deleuze. Limites não individuam, porque só têm sentido na relação, no "ser-com"; e os limites singularizam precisamente no momento em que se tornam "próprios", como autêntica expressão desse "ser-com" (e uso aqui expressões de Heidegger).
ii) podem aparecer como mero “narcisismo das pequenas diferenças”, na clássica expressão cunhada por Freud, que é “a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”;
iii) e podem, ainda, aparecer sob a necessidade de universalização ou sob imperativos morais.

Não seria estranho se nos lembrássemos então do velho Freud, quando ele diz (no cap. V de "O Mal-Estar na Civilização") que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização.

Para Deleuze, os julgamentos que fazemos funcionam como testes destes limites, precisam dos limites para ocorrerem: julgo o que acontece com base nos meus limites ou na estreiteza dos limites do outro. Acredito, nesse sentido, que só posso julgar o que consigo perceber, dentro dos meus limites. Me atenho - não ao poder de perceber, compreender ou julgar - mas ao próprios limites que condicionam meu juízo.

Nesse sentido estrito, contrariamente ao que indica a corrente de pensamento da complexidade, a "soma das partes" ainda seria sempre menor do que "o todo".
De nada adianta distribuir partes, separar, se não se nota que em cada divisão geram-se novos e menores limites. E, com a imposição de novos limites, diminui-se a potência do todo e dificulta-se a capacidade de compreensão.

Mas se tudo isso ainda parece muito abstrato, seria bom se compreendêssemos os limites mais ou menos como pontes - estreitas, balançando sobre o abismo ou sobre um rio, pendulares, feitas de cordas finas e puídas; uma ponte pênsil.

Bertolt Brecht apresentava o paradoxo pela mesma imagem:

Fala-se da violência das águas do rio, que tudo arrasta. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Quando o rio se alarga pela violência de suas águas, ajustamos a ponte - alargamos os limites.
E, quando o rio se estreita, os pontos a serem interligados, as "ilhas", ficam mais próximas, ainda que não seja necessário mudar os limites-pontes.
Porque daí os limites deixam de ser barreiras (intransponíveis).

Limites poderiam ser entendidos como etimologicamente conectados à palavra Lei, do latim Lex, que significava para os romanos "uma relação formal entre as pessoas".
Assim, os limites passam a ser uma conexão entre pontos de vista particulares. (E lembre-se do que diz Leonardo Boff sobre pontos de vista: é sempre e somente a vista de um ponto).

A pergunta sobre os limites, então, pode ser expressa como a evidenciação do ponto de vista. Mas não se trata de saber o que é o ponto de vista de cada um - o meu e o do outro - para que se clarifiquem os limites.
Trata-se, antes, de saber "qual é" a vista desse ponto, "como é" que se vê o mundo com este limite.
Não basta ver os dois lados do rio. Há que se atravessar a ponte para se chegar do outro lado e olhar de volta.
Ou, como indica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

Não se trata de perguntar qual é o ponto de vista dos [outros] sobre o mundo, porque essa pergunta já contém sua própria resposta. Ela supõe que o ponto de vista é uma coisa, o mundo uma outra, exterior ao ponto de vista.

Para voltar ao problema inicial, ainda falta entender o que tem de comum entre limites e testes.
Bem, talvez os limites - a mera declaração deles ou mesmo quando se ultrapassa o limite do outro - sejam encarados como testes.
Os limites criam a sensação de testes quando poderiam ser percebidos como meros "estímulos-respostas" diante da experiência partilhada.

Um limite pode ser criado - e vivenciado - como um teste de esforço: testa-se o limite do outro para saber até que ponto a outra pessoa suporta. Isto é, até que ponto ela realmente está disposta a manter tal ou qual limite.

No entanto, se nos comunicássemos mais abertamente sobre os limites - e, ainda, se estivéssemos mais dispostos a saltar as "cercas" e a cruzar as pontes - então poderíamos simplesmente perguntar: este limite é ainda necessário?
(Como indica a Comunicação Não-Violenta, um limite pode ser a expressão de uma necessidade, que ambos partilhamos e que precisa ser compreendida e satisfeita).

Experimentar, ao contrário do "teste", é um exercício de vida e de autonomia.
O teste objetifica, a experimentação liberta.
O teste cria um vínculo de tipo "eu-objeto", em que sou manipulador e, por isso, único responsável pelo que acontece ao outro.
A experimentação pode fortalecer a relação ao basear-se na fragilidade mesma da relação, ao considerar que ambos são responsáveis pela forma da vida que experimentam, ainda que não saibam ou que não queiram assumir.
Se eu testo, é para saber "do outro" e observar suas reações.
Se eu experimento, é para saber que "eu" estou vivo, e compreender como escolho viver com o outro.

Experimento o limite porque tenho medo da monotonia mais do que da morte.
Salto as "cercas" porque tenho medo do cotidiano, que aprisiona na repetição.
Integro as partes porque tenho medo da rotina, que subdivide a vida em territórios apertados.
E não faço isso porque sou contrário à tranquilidade que a rotina dá em troca, mas pelo custo de sua manutenção.

Como lembra volta-e-meia o tranquilo e contraditório Roberto Crema:

Se me contradigo [e ultrapasso os limites de sua compreensão, neste caso] é porque sou vasto; só os estreitos não se contradizem.

Assim, só posso pedir desculpas por ter ultrapassado seu limite.
Agora que o compreendo e que o aceito como possível, já posso perguntar: este limite ainda é necessário?
E então a-guardo para poder atravessar a ponte que nos liga e que me leva de volta até você.