Politicando
O que "política" se tornou hoje?
Quiçá pudera ter-se tornado um verbo, politicar, mais do que um substantivo, a política.
Assim, falaria mais da "expressão" de um acontecimento cujo sentido é partilhado entre muitos, do que de uma "substância" que existe, em algum lugar, e que é nomeada pelos poucos que a tocam.
E, se o verbo estivesse no gerúndio, traço de algo que ainda acontece no tempo, vindo do passado e cortando o presente, rumo a sua manutenção no futuro - embora tenha-se tentado abolir os excessos de seu (mal) uso - então falaríamos de um acontecimento que, em efeito, acontece. Porque o que é político segue "acontecendo".
Bem, então aqui eu quero tratar é do "politicando" mesmo...com as devidas licenças poéticas!
Vejo que, anteriormente, quando um(a) jovem queria se envolver na política, ele ou ela se filiava a um partido e pronto.
Estava ali a oportunidade para ver o mundo de uma outra perspectiva, que não era mais solipsista e nem somente contemplativa ou introspectiva.
Hoje, ao contrário, vejo que há pessoas querendo se envolver com a política e que, nessa aproximação, apresentam uma declaração do TSE provando a não-vinculação partidária - como se fosse um certificado de "idoneidade" ou de "antecedentes criminais". Um egresso das fileiras partidárias não é mais visto como outrora.
Será essa a tal de #novapolítica? Espero não ter de sustentar minha dúvida por muito mais tempo...
De todo modo, num misto de prazer individual com dever cívico, numa mistura de alegria esperançosa com algum precavido ceticismo, num necessário olhar-e-ajustar as velas quando chega o vento que parece querer mudar a rota, resolvi fazer o que há muito tempo venho querendo exercitar: a escrita coletiva.
Partilhar o pensamento é até fácil (é?), mas difícil mesmo é traduzir em palavras aquilo que surge "entre" o pensamento e a expressão.
E, como disse muitas vezes Hannah Arent, é justamente desse intervalo entre eu-e-o-outro que surge a política - e é efetivamente nesse espaço que ela pode ser vista e praticada, no gerúndio e em coletivo.
Havia tido breve conversas com pessoas amigas - próximas o suficiente para partilharmos ideias sem medo, e distantes no tanto necessário para que as opiniões não fossem inadvertidamente as mesmas e, portanto, insuficientes - sobre as eleições para o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília.
A partir disso, montei um breve esquema, bem ao modo kantiano, que me desse condições de possibilidade para pensar sobre o que estava ocorrendo por aqui e, com isso, praticar o tipo de reflexão crítica que é uma síntese entre teoria e prática; que seja a própria práxis política do observador.
Convidei a Graziella, companheira de mestrado, para escrevermos um texto a quatro mãos e para pensarmos a partir de, pelo menos, dois espíritos.
Mas o que isso quer dizer?
Sem pretensões exageradas, vi isso ser muito bem feito por Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Mas, como fazer? Como repetir a experiência?
Só me pareceu que havia uma resposta possível: experimentando, no gerúndio e em coletivo.
A partir do esquema, escrevi um texto, pseudo-completo (ou seja, deveria ter começo-meio-fim), e logo pedi que a Graziella escrevesse o seu. Então, poderíamos fazer uma colagem.
E as decisões sobre o que entra e o que sai, sobre o que muda e para o quê muda, todas elas deveriam ser tomadas por consenso (e há vários tipos; veja um aqui).
Explico-me (ou então veja um vídeo e uma oficina pra uma outra explicação): partilhando dos mesmos princípios (o esquema) e querendo alcançar o mesmo objetivo (o texto), o modo como alcançaríamos o resultado não se preocupou com os detalhes de conteúdo (o "lado" de cada um), mas com o "processo" de alfabetização democrática.
Isto é, a menos que um de nós dois tivesse motivos suficientes (e, veja bem, isso não significa necessariamente motivos "razoáveis") para "bloquear" a proposta do outro, então tudo seria efetivamente aproveitado e colado.
No fundo, partilhamos da crença de que a política democrática não é uma questão de lado, mas de modo. E, para isso, a votação como "processo" nem sempre é a forma mais democrática de escolha.
Ao fim e ao cabo, não quero saber o que "política" se tornou hoje. Não quero dar uma resposta "filosófica" a esta questão.
Assim, como ensinou Deleuze, quero "sair da filosofia, mas quero sair como um filósofo", isto é, pela experiência (política) da reflexão crítica sobre o que acontece quando as pessoas fazem política.
Bem, o resultado da primeira parte (de 5 exercícios previstos) está no blog que a Graziella mantém aqui no posterous: http://politicando.posterous.com/
Boas leituras!