Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Melancolia

Individualismo

O individualismo é uma doença.
E, se não for uma doença, é só uma ideologia ou uma religião. Degenerativo, pois dogmático, igualmente.

E quem diz isso é o próprio sufixo -ismo, apoiado pelos gramáticos e filólogos.

Todo individualismo é machista (e todo machismo é individualista): vive à sombra do patriarcado e naturaliza-se neste sistema.

Como lidar, então, com abordagens que enfocam o "poder do indivíduo" sem considerarem uma necessária reconciliação com o coletivo?

A constante afirmação do poder do indivíduo - e, em particular, de seu poder de alterar o mundo na mudança de si mesmo - tangencia pensamentos que vão desde Gandhi - "Seja a mudança que quer ver no mundo" - até os de um psicanalista junguiano como Hollis, que acredita que "a mudança suprema ocorra por meio do indivíduo" e que "a ação do grupo  não pode ser mais eficaz do que a soma das consciências individuais que chegam até ele".

Afinal, num mundo ainda tão masculinista, a grande "sombra de Saturno"(ou Cronos) - que é a mancha presente do patriarcado - mantém-se como um fardo que se deve carregar conscientemente, como indica Hollis.
E, ao que tudo indica, o valor de que se deve carrega-lo enquanto indivíduo parece ser absoluto, resoluto e inquestionável, mesmo que estejamos em grupo, mesmo que convivamos sempre com um coletivo, mesmo que sejamos, fundamentalmente, sociais e interdependentes.

O que muda, então?
Alteramos os sintomas visíveis, mas a doença ainda está instalada.

Um adendo: a individualidade, diferentemente do individualismo, é uma propriedade ou uma potência do indivíduo de, justamente, individuar-se ("tornar-se quem se é", como disse Clarice). E, sendo assim, é uma experiência e uma aprendizagem cuja finalidade é o seu próprio exercício, sempre intrinsecamente relacional (pois vive-se a individualidade "com" e experimenta-se "entre" outros). Mas isso é tema pra outro post...

*curiosidade: O tema de Saturno está relacionado, segundo Freud, com a melancolia e com a destruição, temas que já abordei aqui (por puro acaso?).

**serviço: O livro de James Hollis se chama "Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens" e pode ser encontrado aqui (en) e aqui (pt-br). Os trechos citados estão nas pp. 35-36 da edição em pt-br.

Melancolia

Ontem fui assistir ao filme "Melancholia", de Lars von Trier.

Há algum tempo eu escrevi sobre a melancolia também. Pensava em outra coisa que não no fim do mundo. Mas, de algum modo, me parece agora curioso observar que cada evento melancolicamente relembrado pode ser mesmo um "dead point", um "ponto final". Nestes momentos, isto é, ao final de cada ato, que tipos de rituais iremos escolher para preenchermos nossa realidade?: podemos perdoar o que passou, como se disséssemos que aquilo era mesmo possível, mesmo que fosse antes inimaginável?; ou iremos até a fronteira da compreensão, tentando meramente uma reconciliação com o que sucedeu, mesmo desejando que nunca houvesse acontecido e que nunca torne a acontecer?

Melancolia é um filme sobre o fim do mundo (embora o diretor afirme ser um filme sobre "um estado de espírito"). Exige a paciência de aguardar pelo final esperado, como se esperássemos que, diante de um quadro emoldurado, a paisagem ali pintada pudesse mudar de cor, seus personagens pudessem mover-se um pouco; como se tudo pudesse passar a, simplesmente, acontecer. Exige a força de não ser derrotado. E há várias forças que me arrastavam para a derrota - e para a porta de saída: a indigna declaração do diretor; a esquiza, inquieta e nauseante câmera; a confusa edição (veja abaixo a possibilidade de ser um "sonho").

E isso tudo só fez mesmo sentido quando vi o que o diretor tinha a dizer sobre o filme:

it looks like shit. I’m shaken. [...] But what was it I wanted? With a state of mind as my starting point, I desired to dive headlong into the abyss of German romanticism. Wagner in spades. That much I know. But is that not just another way of expressing defeat?

(Isso está uma porcaria. Estou abalado. [...] Mas o que eu queria? Com um estado de espírito como o meu ponto de partida, quis mergulhar de cabeça no abismo do romantismo alemão. Wagner em espadas. É tudo que sei. Mas esta não é apenas uma outra maneira de expressar a derrota?)

O filme é divido em duas partes: "Justine" e "Claire" (e há quem divida também entre "Inconsciente" e "Consciente", entre "sonho" e "realidade" - o que me pareceu bem possível).
Não seria sem propósito acreditar que a "Justeza" está em "Justine", e aí (ou seja, nela) junta-se tudo: a inadequação, a impulsividade/impetuosidade (e qual é mesmo a diferença?), a hýbris, a certeza-não-científica-meio-místico-esotérica, o titanismo-fáustico (que ainda sim sucumbe momentanemente à depressão), a solidão de saber-se "assim", des-iludida; enfim, a melancolia.
Já em "Claire", para mim, assenta-se a "Clareza", mas daquela clareza que ofusca, que brilha como pirita, que é alva e branca e, por isso mesmo, sem cor e sem matiz; uma clareza-normótico-científica, que será destruída ao longo do filme. E, com a destruição desse tipo de clareza, destrói-se a segurança-insólida, a calma-passiva e também a desmesura (capitalista?); afinal, "a Terra é má".
Em "Claire" há um libelo contra as verdades-científicas, há uma ode à gaia-ciência sustentada por Justine, um apelo ao conhecimento sutil que faz Justine permanecer impavidamente tranquila e segura de si, dentro de sua caverna secreta, quando Melancholia está prestes a se chocar com a Terra.

Qual seria o seu ritual se o mundo fosse acabar amanhã?
Tomar uma taça de vinho no terraço, escutando música e pretendendo-se feliz?
Sentar-se em uma despojada caverna invisível, feita de gravetos, de frente para o perigo, livre no espaço, de mãos dadas e com o semblante melancolicamente tranquilo?

Com quem você estaria quando chegasse o fim?
Com aquela pessoa que você ama agora?
Com aquela pessoa que você sempre amou?
Sozinho, consigo? Com medo ou seguro de si?
(Veja aqui o que já comentaram sobre isso)

Inevitavelmente me surgiram duas lembranças assim que filme terminou. O recém-feito discurso de Slavoj Žižek no Occupy Wall Street, em que ele curiosamente diz:

It is easy for us to imagine the end of the world—see numerous apocalyptic films -, but not end of capitalism.

(É fácil para nós imaginarmos o fim do mundo - veja os vários filmes apocalípticos -, mas não o fim do capitalismo.)

E a velha música do Paulinho Moska (que agora, sei-lá-porque, se chama Moska), intitulada "O Último dia".

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria

Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...

Andariam de mãos dadas von Trier, Moska e Justine?

E enquanto o fim não chega, o que você faz com os "pontos finais"?