Chá
Ritualizar os acontecimentos é uma forma de celebrar a vida.
Celebrar a vida é uma forma de manter-se aberto para o que vem, honrando o caminho percorrido e a contingência da caminhada.
Honrar o que passou é uma forma de conexão com o muito que há, firmando o passo nas pegadas de todos os que já passaram por aqui.
E há muitas formas de se fazer isso tudo. E, embora haja atalhos, não há um caminho fácil e curto.
Ou o caminho é fácil - e será longo; e se for longo, será entrecortado de momentos difíceis.
Ou o caminho é curto - e será duro; e se for fácil, restará a sensação de não ter chegado até o fim.
Como ouvi uma vez, no longo caminho duro de um Sesshin:
A dor não é necessária. Mas ensina.
Ontem aprendi muito. Menos do que preciso, o quanto eu consigo, e ainda talvez mais do que eu posso.
E ontem também celebrei muito.
Celebrei os batuques que dão ritmo ao meu corpo e ao meu pensamento. E aprendi que quando a mente está nas nuvens é preciso conseguir manter o ritmo, é preciso ter pés firmes pra pousar, é preciso ter terra firme para me receber e descansar.
Celebrei as cores que não vejo e que podem colorir minhas noites. Porque, ao não vê-las, torno-me mais cinza, mais soturno, menos vivo. Então, ontem aprendi que a noite também é colorida quando celebramos a noite; que o fogo é colorido quando celebramos o fogo; que a vida nem sempre é cinza e soturna, porque é viva.
Celebrei a Lua que sempre me acompanha e me guia. Lembrei-me de que, para os astrólogos, é a Lua o astro que guia o amor em minha vida: tenho um amor lunar; sou feito em fase. E aprendi, mesmo sem entender, que esta é minha parcela feminina que ainda precisa se harmonizar com o mundo feminino da qual ela parece ter sido banida. Se um amor lunar fere ciclicamente por abandono, talvez ele também possa curar reincidentemente. Preciso me lembrar que a Lua, cheia ou nova, sempre está lá no céu, mesmo durante o dia.
Celebrei o medo, e também a força que sempre lhe acompanha. A aprendi que, se não posso controlar - o medo e a força - posso tentar guiá-los nos labirintos do lá-de-dentro. Aprendi que não preciso agir sempre pelo estômago, que expele violência ao menor sinal de medo. Caminhar pode ser um bom exercício para afastar o medo; não correr (dele), mas caminhar (nele).
Celebrei o acolhimento que um lugar quente e protegido pode proporcionar. E fiz de um cobertor minha morada, provisória. E aprendi que, sendo provisória, é ainda mais importante. Quando tive medo, caminhei; quando tive frio, me cobri; quando tive calor, me abri; quando tive sono, sentei e sonhei; quando acordei, celebrei.
Celebrei o vivido, quando o vivido estava ocorrendo. Porque, ao passar, ao deixar de ser uma paisagem do pensamento, percebi que do muito que eu acabara de viver restara quase nada na memória. E celebrei a calma e a prudência com que a memória escolhe os caminhos e as paisagens que permanecem. A memória ensina a impermanência.
Mas o aprendizado de que falo aqui não é cognitivo. É só perceptivo, como uma impressão quase borrada na folha fina da memória imaginativa.
Afinal, tanto quanto um sonho, um chá é só um atalho. E tanto quanto qualquer atalho, o chá é só um expansor de caminhos - resta escolher entre os curtos caminhos duros ou os longos caminhos fáceis.
A vida começa quando a gente acorda e pode olhar para si e para o mundo, para tentar fazer do longo caminho um caminho um pouco mais fácil, e certamente mais vivo.
Deixo duas "dicas", pra quem quiser entrar no clima do chá.
Oxalá, música do grupo português Madredeus.
Cap. 24 do livro "Uma Vida Inventada", da Maitê Proença.
