Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: individualidade

Limites

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Diante da experiência de

- Você ultrapassou todos os limites! Parece estar me testando, testando meus limites!

o que fazer, o que pensar, como reagir?

Talvez não esteja claro que limites são coisas que criamos - para nos proteger ou para proteger as relações (isto é, para que fique claro, a imagem cristalizada que temos de uma relação em particular).
Limites aparecem evidenciados em momentos de fragilidade, de "aislamento", de ruptura.
O outro nos impõe um limite quando nossa conexão está sendo perdida.
Ou, eu me imponho limites quando estou perdendo minha conexão interna comigo mesmo: quando me pego em contradição (com o que penso e sinto), quando quero crescer (para além do que sou), quando preciso expandir meu ponto de vista (para dar conta do mundo novo que se alargou).
Assim, como criações temporárias, os limites, no melhor sentido da ideia, estão aí porque devem ser superados. Não para que deixem de existir, mas para que se reajustem, pois são "limitados".

Ou, como ensina a velha sabedoria do mar:

Caranguejo que não troca de casca também não cresce.

E é nesse mesmo rumo que a filosofia também se manifesta.
(E, se não está afim de devaneios filosóficos agora, pode saltar alguns parágrafos, sem prejuízo).

Lembro-me de algumas ideias do filósofo francês Gilles Deleuze, em que aparece um alerta para que sejam saltadas as “cercas”, para que sejam ultrapassados os limites e para que sejam reintegradas as partes, antes distribuídas ou dispersadas - para ele, esse é o modo de agir dos bebês (sim! dos bebês!).
Cercas, para ele, são impedimentos que se impõem a nós, ou seja, que “vêm de fora”.
Limites, assim, são determinações ou fronteiras que impomos a nós mesmos, ou que assumimos para nós mesmos, às vezes por medo, outras vezes por ignorar que não são necessárias ou, sequer, existentes.
Estes limites assumem tantas e tão diversas formas que vale enunciar algumas delas:
i) podem apresentar-se como diferenças que criam meras “individualidades sem singularidades”, na expressão de Muniz Sodré. Ou seja, se quero impor um limite para manter-me como indivíduo, mesmo quando não há nada de singular nesse limite - dele não me aproprio, já que é mera repetição. Singular, por exemplo, é o sorriso ou o choro de um bebê, que são claros limites, embora não façam, per si, de um bebê um indivíduo, único, separado dos outros bebês. Pelo contrário. Assim, este sorriso é a expressão de uma "singularidade pré-individual", como indica Deleuze. Limites não individuam, porque só têm sentido na relação, no "ser-com"; e os limites singularizam precisamente no momento em que se tornam "próprios", como autêntica expressão desse "ser-com" (e uso aqui expressões de Heidegger).
ii) podem aparecer como mero “narcisismo das pequenas diferenças”, na clássica expressão cunhada por Freud, que é “a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”;
iii) e podem, ainda, aparecer sob a necessidade de universalização ou sob imperativos morais.

Não seria estranho se nos lembrássemos então do velho Freud, quando ele diz (no cap. V de "O Mal-Estar na Civilização") que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização.

Para Deleuze, os julgamentos que fazemos funcionam como testes destes limites, precisam dos limites para ocorrerem: julgo o que acontece com base nos meus limites ou na estreiteza dos limites do outro. Acredito, nesse sentido, que só posso julgar o que consigo perceber, dentro dos meus limites. Me atenho - não ao poder de perceber, compreender ou julgar - mas ao próprios limites que condicionam meu juízo.

Nesse sentido estrito, contrariamente ao que indica a corrente de pensamento da complexidade, a "soma das partes" ainda seria sempre menor do que "o todo".
De nada adianta distribuir partes, separar, se não se nota que em cada divisão geram-se novos e menores limites. E, com a imposição de novos limites, diminui-se a potência do todo e dificulta-se a capacidade de compreensão.

Mas se tudo isso ainda parece muito abstrato, seria bom se compreendêssemos os limites mais ou menos como pontes - estreitas, balançando sobre o abismo ou sobre um rio, pendulares, feitas de cordas finas e puídas; uma ponte pênsil.

Bertolt Brecht apresentava o paradoxo pela mesma imagem:

Fala-se da violência das águas do rio, que tudo arrasta. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Quando o rio se alarga pela violência de suas águas, ajustamos a ponte - alargamos os limites.
E, quando o rio se estreita, os pontos a serem interligados, as "ilhas", ficam mais próximas, ainda que não seja necessário mudar os limites-pontes.
Porque daí os limites deixam de ser barreiras (intransponíveis).

Limites poderiam ser entendidos como etimologicamente conectados à palavra Lei, do latim Lex, que significava para os romanos "uma relação formal entre as pessoas".
Assim, os limites passam a ser uma conexão entre pontos de vista particulares. (E lembre-se do que diz Leonardo Boff sobre pontos de vista: é sempre e somente a vista de um ponto).

A pergunta sobre os limites, então, pode ser expressa como a evidenciação do ponto de vista. Mas não se trata de saber o que é o ponto de vista de cada um - o meu e o do outro - para que se clarifiquem os limites.
Trata-se, antes, de saber "qual é" a vista desse ponto, "como é" que se vê o mundo com este limite.
Não basta ver os dois lados do rio. Há que se atravessar a ponte para se chegar do outro lado e olhar de volta.
Ou, como indica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

Não se trata de perguntar qual é o ponto de vista dos [outros] sobre o mundo, porque essa pergunta já contém sua própria resposta. Ela supõe que o ponto de vista é uma coisa, o mundo uma outra, exterior ao ponto de vista.

Para voltar ao problema inicial, ainda falta entender o que tem de comum entre limites e testes.
Bem, talvez os limites - a mera declaração deles ou mesmo quando se ultrapassa o limite do outro - sejam encarados como testes.
Os limites criam a sensação de testes quando poderiam ser percebidos como meros "estímulos-respostas" diante da experiência partilhada.

Um limite pode ser criado - e vivenciado - como um teste de esforço: testa-se o limite do outro para saber até que ponto a outra pessoa suporta. Isto é, até que ponto ela realmente está disposta a manter tal ou qual limite.

No entanto, se nos comunicássemos mais abertamente sobre os limites - e, ainda, se estivéssemos mais dispostos a saltar as "cercas" e a cruzar as pontes - então poderíamos simplesmente perguntar: este limite é ainda necessário?
(Como indica a Comunicação Não-Violenta, um limite pode ser a expressão de uma necessidade, que ambos partilhamos e que precisa ser compreendida e satisfeita).

Experimentar, ao contrário do "teste", é um exercício de vida e de autonomia.
O teste objetifica, a experimentação liberta.
O teste cria um vínculo de tipo "eu-objeto", em que sou manipulador e, por isso, único responsável pelo que acontece ao outro.
A experimentação pode fortalecer a relação ao basear-se na fragilidade mesma da relação, ao considerar que ambos são responsáveis pela forma da vida que experimentam, ainda que não saibam ou que não queiram assumir.
Se eu testo, é para saber "do outro" e observar suas reações.
Se eu experimento, é para saber que "eu" estou vivo, e compreender como escolho viver com o outro.

Experimento o limite porque tenho medo da monotonia mais do que da morte.
Salto as "cercas" porque tenho medo do cotidiano, que aprisiona na repetição.
Integro as partes porque tenho medo da rotina, que subdivide a vida em territórios apertados.
E não faço isso porque sou contrário à tranquilidade que a rotina dá em troca, mas pelo custo de sua manutenção.

Como lembra volta-e-meia o tranquilo e contraditório Roberto Crema:

Se me contradigo [e ultrapasso os limites de sua compreensão, neste caso] é porque sou vasto; só os estreitos não se contradizem.

Assim, só posso pedir desculpas por ter ultrapassado seu limite.
Agora que o compreendo e que o aceito como possível, já posso perguntar: este limite ainda é necessário?
E então a-guardo para poder atravessar a ponte que nos liga e que me leva de volta até você.

Encontros

Youme
Encontros são um modo próprio de relações entre forças e fluxos de intensidades.

Encontros significativos acontecem quando estas relações criam sentidos e significados, alteram realidades, transformam visões de mundo e modificam internamente ideias e sentimentos.

Encontros podem ser como a mistura de duas nuvens, uma composição suave e bela. Uma nuvem envolve a outra, numa dança vaporosa e calma. Uma nuvem se transforma na outra, e cresce como uma terceira nuvem grande e mais cheia, chovendo às vezes, deixando cair as lágrimas de encantamento ou de angústia por uma mudança tão profunda e intensa em sua própria quantidade de nuvem. Uma nuvem é mais nuvem depois de um encontro - mas é preciso chover ao final. E assim aprende-se a admirar a fragilidade e a sutileza.

Encontros podem ser como o choque entre duas cabeças, uma dança forte e dolorosa. Um touro desafia o outro, e lança-se completamente nesse confronto. Todo o peso do corpo, toda a força do mundo estão condensados nesse ponto de toque, e o estrondo pode ser ouvido à distância e segue reverberando com o passar do tempo. Um touro é mais touro depois do choque - mas é preciso recuar ao final. E assim aprende-se a balancear a impulsividade e a paciência.

Encontros podem ser como o abraço de dois corações alojados nos peitos que os cercam e limitam. Os braços se afastam e se lançam ao redor, abrindo espaço para que o ponto de toque inicial se converta em uma linha de sensações, desde os pés que se cruzam às cabeças que se deitam sobre os ombros, passando pelos umbigos que se tocam e pelas costas que se aproximam. Um corpo encosta no outro e sente-se envolvido e acolhido. Um abraço é mais abraço quando há braços depois do toque - mas é preciso soltar ao final. E assim aprende-se a experimentar o desapego e o desprendimento.

Um encontro pode ser como um choque, como um confronto, como uma mistura, como um envolvimento, como um abraço, como um toque, como uma dança... sem juízos moralizantes, podemos aproveitar sempre de suas intensidades.

Mesmo porque é impossível manter-se indiferente em um encontro significativo. Encontros são a força modificadora da natureza e a potência destruidora do individualismo.

Do mesmo modo, o amor é um encontro entre duas almas e seus sentimentos, a paixão é um encontro entre desejos e medos, a política é um encontro entre aspirações, vocações e modos de vida, a vida é o encontro entre os seres e os devires, a liberdade é um encontro consigo, e a morte é o encontro com um limite.

Um encontro pode gerar o medo do desconhecido. E a solidariedade também pode ser efeito do medo e do sofrimento. E todo medo sucumbe diante da revelação do bem proporcionado por um encontro.

Um encontro pode gerar a alegria e o desejo pelo aberto. E o tipo de solidariedade que é gerado pelo amor promove a aproximação da liberdade - quando se é mais livre pela libertação vivida no encontro, quando as fantasias que impedem o encontro significativo são liberadas ou substituídas.

Um encontro acontece quando se partilham medos e fragilidades. Isso, que todos os humanos possuem, é também uma força agregadora; fortalece e humaniza a individualidade em um coletivo.

E da mesma forma ocorrem encontros quando se partilham sonhos e esperanças, bens recebidos ou surpresas inesperadas. Experimente promover um encontro a partir da revelação: o que o outro lhe fez, sem saber, que lhe causou um bem?

Afinal, toda vida e qualquer situação, quando narrada como uma história, se converte em uma vida possível, em um fluxo que retorna e ensina, em um espelho que reflete o passado para que vivamos melhor o futuro.

No entanto, não se pode buscar um encontro. Um encontro só pode ser "encontrado" - às vezes depois de muita espera, outras vezes quando menos se espera.

Um encontro é sempre um particípio, uma cristalização de um verbo, de uma expressão. É uma experiência passada, um acontecimento vivido; é um ponto de inflexão no contínuo da vida. E o risco de converter-se em nostalgia só pode ser evitado por novos encontros, ou pela afirmação da novidade irrepetível de todo encontro.

Depois de encontrar-se (consigo mesmo e com o outro) em um encontro significativo, fica mais clara a ideia do poeta:

Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos. (Goethe, em Viagem à Itália)

Para Louise e aos amigos encontrados no Encontro Nacional de Jovens Líderes 2011, em gratidão.

Individualismo

O individualismo é uma doença.
E, se não for uma doença, é só uma ideologia ou uma religião. Degenerativo, pois dogmático, igualmente.

E quem diz isso é o próprio sufixo -ismo, apoiado pelos gramáticos e filólogos.

Todo individualismo é machista (e todo machismo é individualista): vive à sombra do patriarcado e naturaliza-se neste sistema.

Como lidar, então, com abordagens que enfocam o "poder do indivíduo" sem considerarem uma necessária reconciliação com o coletivo?

A constante afirmação do poder do indivíduo - e, em particular, de seu poder de alterar o mundo na mudança de si mesmo - tangencia pensamentos que vão desde Gandhi - "Seja a mudança que quer ver no mundo" - até os de um psicanalista junguiano como Hollis, que acredita que "a mudança suprema ocorra por meio do indivíduo" e que "a ação do grupo  não pode ser mais eficaz do que a soma das consciências individuais que chegam até ele".

Afinal, num mundo ainda tão masculinista, a grande "sombra de Saturno"(ou Cronos) - que é a mancha presente do patriarcado - mantém-se como um fardo que se deve carregar conscientemente, como indica Hollis.
E, ao que tudo indica, o valor de que se deve carrega-lo enquanto indivíduo parece ser absoluto, resoluto e inquestionável, mesmo que estejamos em grupo, mesmo que convivamos sempre com um coletivo, mesmo que sejamos, fundamentalmente, sociais e interdependentes.

O que muda, então?
Alteramos os sintomas visíveis, mas a doença ainda está instalada.

Um adendo: a individualidade, diferentemente do individualismo, é uma propriedade ou uma potência do indivíduo de, justamente, individuar-se ("tornar-se quem se é", como disse Clarice). E, sendo assim, é uma experiência e uma aprendizagem cuja finalidade é o seu próprio exercício, sempre intrinsecamente relacional (pois vive-se a individualidade "com" e experimenta-se "entre" outros). Mas isso é tema pra outro post...

*curiosidade: O tema de Saturno está relacionado, segundo Freud, com a melancolia e com a destruição, temas que já abordei aqui (por puro acaso?).

**serviço: O livro de James Hollis se chama "Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens" e pode ser encontrado aqui (en) e aqui (pt-br). Os trechos citados estão nas pp. 35-36 da edição em pt-br.