Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: indivíduo vs. coletivo

Swaraj

Os últimos posts acabaram envolvendo a questão "indivíduo vs. coletivo" de algum modo. E me parece realmente uma questão intrigante.

E, como exercício de serendipidade, hoje me dei o prazer de transcrever e traduzir um vídeo que me chegou pelo link tuitado pelo Augusto.

O vídeo é a gravação de uma fala de 1 minuto e meio em que Manish Jain - um indiano co-fundador da Shikshantar em Udaipur, a cidade mais rica da Índia - apresenta sua visão sobre a noção de Gandhi para o "Swaraj" (autogoverno ou autonomia), que honra a relação entre individualidade e o coletivo. Bom pra seguir na reflexão...

Segue a transcrição do vídeo:

The idea of Swaraj grows out of the Indian freedom struggle. It's a term Gandhi had coined in his book "Hind Swaraj" (Hindi Swaraj or Indian Home Rule).
Swaraj means "swa" - it's two parts: "swa" and "raj" - so "swa" means "self" and it has a very beautiful acknowledgement of the duality our being. So, a individual, unique, beautiful self. As well as our interconnected self, our collective self. Our self which is embodied in the trees, and in the soil, and in the water, in each other, and in the butterflies, and in all the wonderful beings on the planet.
And "raj" means "rule over", also with connotations of "awareness", "self-awareness", of "self-mastery", and of a kind of a radiance of self, that exist.
When Gandhi talked about Swaraj he also talked about his vision of the dominant system we live in as a dying system, and the need to actually start to - as part of, very much part of the freedom struggle - is to start the movement to create new systems in the world.
And hands are quest for Swaraj.

 

O vídeo:

Manish Jain on Swaraj from Deborah Frieze on Vimeo.

E a tradução:

A idéia de Swaraj surge da luta pela liberdade na Índia. É um termo cunhado por Gandhi em seu livro "Hindi Swaraj" (Hind Swaraj: Autogoverno da Índia).
Swaraj significa "swa" - a palavra é dividida em duas partes: "swa" e "raj" - assim "swa" significa "eu" e dá um reconhecimento muito bonito à dualidade nosso ser: então, é o "self" individual, único e belo, bem como nosso "self" interligado, nosso ser coletivo. Nosso ser que está incorporado nas árvores e no solo e na água, no outro, e nas borboletas, e em todos os seres maravilhosos do planeta.
E "raj" significa "governar", também com conotações de "consciência", "auto-consciência", de "auto-domínio", e de uma espécie de brilho do "self", que existe.
Quando Gandhi falou sobre Swaraj ele também falou sobre sua visão do sistema dominante em que vivemos como um sistema moribundo, e a necessidade de realmente começar a - como parte da, como uma parte muito importante, da luta pela liberdade - iniciar o movimento para criar novos sistemas no mundo.
E as mãos são uma busca por Swaraj (ou "E as mão estão em busca de Swaraj").

E com o que mais isso se parece?
Quem mais fala sobre isso, assim?

Por vários motivos, me lembrou a abordagem de Heidegger sobre o "Dasein" (ser-aí) como um "ser-com" ou um "ser-no-mundo" e também a ideia de Foucault sobre o "cuidado de si". Mas isso é tema pra um outro post, talvez...

Individualismo

O individualismo é uma doença.
E, se não for uma doença, é só uma ideologia ou uma religião. Degenerativo, pois dogmático, igualmente.

E quem diz isso é o próprio sufixo -ismo, apoiado pelos gramáticos e filólogos.

Todo individualismo é machista (e todo machismo é individualista): vive à sombra do patriarcado e naturaliza-se neste sistema.

Como lidar, então, com abordagens que enfocam o "poder do indivíduo" sem considerarem uma necessária reconciliação com o coletivo?

A constante afirmação do poder do indivíduo - e, em particular, de seu poder de alterar o mundo na mudança de si mesmo - tangencia pensamentos que vão desde Gandhi - "Seja a mudança que quer ver no mundo" - até os de um psicanalista junguiano como Hollis, que acredita que "a mudança suprema ocorra por meio do indivíduo" e que "a ação do grupo  não pode ser mais eficaz do que a soma das consciências individuais que chegam até ele".

Afinal, num mundo ainda tão masculinista, a grande "sombra de Saturno"(ou Cronos) - que é a mancha presente do patriarcado - mantém-se como um fardo que se deve carregar conscientemente, como indica Hollis.
E, ao que tudo indica, o valor de que se deve carrega-lo enquanto indivíduo parece ser absoluto, resoluto e inquestionável, mesmo que estejamos em grupo, mesmo que convivamos sempre com um coletivo, mesmo que sejamos, fundamentalmente, sociais e interdependentes.

O que muda, então?
Alteramos os sintomas visíveis, mas a doença ainda está instalada.

Um adendo: a individualidade, diferentemente do individualismo, é uma propriedade ou uma potência do indivíduo de, justamente, individuar-se ("tornar-se quem se é", como disse Clarice). E, sendo assim, é uma experiência e uma aprendizagem cuja finalidade é o seu próprio exercício, sempre intrinsecamente relacional (pois vive-se a individualidade "com" e experimenta-se "entre" outros). Mas isso é tema pra outro post...

*curiosidade: O tema de Saturno está relacionado, segundo Freud, com a melancolia e com a destruição, temas que já abordei aqui (por puro acaso?).

**serviço: O livro de James Hollis se chama "Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens" e pode ser encontrado aqui (en) e aqui (pt-br). Os trechos citados estão nas pp. 35-36 da edição em pt-br.

Privilégio

Privilégio é aquela experiência a que temos acesso quando desmontamos a ordem impessoal que ordena cosmologicamente as coisas do mundo.
Assim, uma situação torna-se pessoal (por meio do "jeitinho", por exemplo) pois que favorece nossa condição particular em um determinado instante de caos (i. e., des-ordem).

Um privilégio é maléfico, socialmente falando, quando deixa de ser temporário e contingente, e pretende instalar-se novamente na ordem do cosmos.
De outro modo, o privilégio é apenas uma possível reorganização temporária do mundo, centrada no homem enquanto particular, e não em leis impessoais e gerais.
Ainda assim, desta forma é sempre um desafio que indivíduo apresenta ao coletivo - o que pode favorecer o reforço dos laços de reciprocidade.

O privilégio, portanto, deve ser vivido como uma sensação relacional ("sinto-me privilegiado") e não como a possessão de capacidades ("tenho privilégios").
Insere-se, então, na lógica da abundância, partihando de propriedades com a dádiva, quando mais se tem quanto mais se dá.