Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Impulsividade

Encontros

Youme
Encontros são um modo próprio de relações entre forças e fluxos de intensidades.

Encontros significativos acontecem quando estas relações criam sentidos e significados, alteram realidades, transformam visões de mundo e modificam internamente ideias e sentimentos.

Encontros podem ser como a mistura de duas nuvens, uma composição suave e bela. Uma nuvem envolve a outra, numa dança vaporosa e calma. Uma nuvem se transforma na outra, e cresce como uma terceira nuvem grande e mais cheia, chovendo às vezes, deixando cair as lágrimas de encantamento ou de angústia por uma mudança tão profunda e intensa em sua própria quantidade de nuvem. Uma nuvem é mais nuvem depois de um encontro - mas é preciso chover ao final. E assim aprende-se a admirar a fragilidade e a sutileza.

Encontros podem ser como o choque entre duas cabeças, uma dança forte e dolorosa. Um touro desafia o outro, e lança-se completamente nesse confronto. Todo o peso do corpo, toda a força do mundo estão condensados nesse ponto de toque, e o estrondo pode ser ouvido à distância e segue reverberando com o passar do tempo. Um touro é mais touro depois do choque - mas é preciso recuar ao final. E assim aprende-se a balancear a impulsividade e a paciência.

Encontros podem ser como o abraço de dois corações alojados nos peitos que os cercam e limitam. Os braços se afastam e se lançam ao redor, abrindo espaço para que o ponto de toque inicial se converta em uma linha de sensações, desde os pés que se cruzam às cabeças que se deitam sobre os ombros, passando pelos umbigos que se tocam e pelas costas que se aproximam. Um corpo encosta no outro e sente-se envolvido e acolhido. Um abraço é mais abraço quando há braços depois do toque - mas é preciso soltar ao final. E assim aprende-se a experimentar o desapego e o desprendimento.

Um encontro pode ser como um choque, como um confronto, como uma mistura, como um envolvimento, como um abraço, como um toque, como uma dança... sem juízos moralizantes, podemos aproveitar sempre de suas intensidades.

Mesmo porque é impossível manter-se indiferente em um encontro significativo. Encontros são a força modificadora da natureza e a potência destruidora do individualismo.

Do mesmo modo, o amor é um encontro entre duas almas e seus sentimentos, a paixão é um encontro entre desejos e medos, a política é um encontro entre aspirações, vocações e modos de vida, a vida é o encontro entre os seres e os devires, a liberdade é um encontro consigo, e a morte é o encontro com um limite.

Um encontro pode gerar o medo do desconhecido. E a solidariedade também pode ser efeito do medo e do sofrimento. E todo medo sucumbe diante da revelação do bem proporcionado por um encontro.

Um encontro pode gerar a alegria e o desejo pelo aberto. E o tipo de solidariedade que é gerado pelo amor promove a aproximação da liberdade - quando se é mais livre pela libertação vivida no encontro, quando as fantasias que impedem o encontro significativo são liberadas ou substituídas.

Um encontro acontece quando se partilham medos e fragilidades. Isso, que todos os humanos possuem, é também uma força agregadora; fortalece e humaniza a individualidade em um coletivo.

E da mesma forma ocorrem encontros quando se partilham sonhos e esperanças, bens recebidos ou surpresas inesperadas. Experimente promover um encontro a partir da revelação: o que o outro lhe fez, sem saber, que lhe causou um bem?

Afinal, toda vida e qualquer situação, quando narrada como uma história, se converte em uma vida possível, em um fluxo que retorna e ensina, em um espelho que reflete o passado para que vivamos melhor o futuro.

No entanto, não se pode buscar um encontro. Um encontro só pode ser "encontrado" - às vezes depois de muita espera, outras vezes quando menos se espera.

Um encontro é sempre um particípio, uma cristalização de um verbo, de uma expressão. É uma experiência passada, um acontecimento vivido; é um ponto de inflexão no contínuo da vida. E o risco de converter-se em nostalgia só pode ser evitado por novos encontros, ou pela afirmação da novidade irrepetível de todo encontro.

Depois de encontrar-se (consigo mesmo e com o outro) em um encontro significativo, fica mais clara a ideia do poeta:

Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos. (Goethe, em Viagem à Itália)

Para Louise e aos amigos encontrados no Encontro Nacional de Jovens Líderes 2011, em gratidão.

Impulsivo

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Nunca fui fã de Clarice. Bem ao contrário, aliás...

Das noites obrigatoriamente passadas com G.H., das horas tentando desatar os Laços de Família, dos desgastes com A Hora da Estrela... no fim, nunca estive mesmo Perto do Coração Selvagem de Clarice.

Até que me surgiu a oportunidade de revisitar Clarice. E como uma visita despropositada é sempre mais benéfica - ao menos para quem visita, deixei-me levar pelas letras tortas e frases inacabadas de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".

É claro, vão pregar os críticos, que no dizer do título já está a escolha pelo tema. Ou se lê (e se vive) que é um livro sobre a aprendizagem, ou então se percebe uma estória sobre os prazeres. Ou se toma o lugar de Ulisses, ou mais bem se está com Lóri.

E não é que Lóri vai dizer-se "eu"? Será uma intimação (ou seria, antes, uma intimidação)?

Identificado - por motívos óbvios de "lugar de fala" e de "deformacão profissional" - com Ulisses, a leitura foi uma vertigem - no melhor estilo Hitchcock - para dentro do que poderia ser "o ponto de vista do Outro". Oras querendo ser Lóri, oras só dando conta de ser Ulisses, oras sendo, simplesmente sendo, "eu".

E me deparei novamente com Clarice. E entendi (ou nem bem comecei a entender?) que as coisas têm hora. Hora como Kairós. E então me chega esse fragmento intitulado "Temperamento impulsivo" - em parte autobiográfico, em parte um trecho de uma crônica - que me revela como e porquê essa aproximação (só) no tempo do agora se deu:

"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei".

Assim que terminei o tal do livro, comecei logo outro (pra não dar tempo de "lembrar" do anterior?), que se chama "Sob a Sombra de Saturno: a Ferida e a Cura dos Homens". Ganhei quando fazia exatamente 29 anos e 9 meses. Ou seja, a 3 meses dos 30 anos. Simbólico? Bem, é um livro junguiano...me pareceu adequado.

O caso é que essa impulsividade, posivelmente equivalente a um comportamento infantil (ou pouco maduro), é a temática da vez. E de um outro post talvez...

Crédito da imagem: Orlando Pedroso.