Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Eduardo Viveiros de Castro

Tomboy

Como usuário de Ubuntu/Linux, eu bem poderia falar do Tomboy, excelente software para tomar notas (como nos velhos post-it) que já vem instalado...

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Mas o texto é sobre o delicado e poderoso filme de Céline Sciamma, diretora francesa nascida em 1978, chamado "Tomboy", cuja tradução literal seria "moleca". E Tomboy é, literalmente, um filme sobre uma "menina moleque" e também sobre uma "molecagem". Veja aqui o trailer.

(E, se você não viu o filme e pretende vê-lo - o que recomendo entusiasticamente, não continue a ler os comentários, que estão cheios de spoilers. Além disso, vale mesmo a graça de ver o filme sem saber nada mais, sem ler sinopses, sem ver críticas. Teste seu gosto, teste seus limites, exponha-se ao que de mais belo a arte pode fazer por você: servir de outro-lado-do-espelho para você ver a si mesmo e às possibilidades do mundo).

Apesar de ser um filme sobre uma molecagem, no entanto, e ao contrário do que li em uma resenha, não consigo enxergar que seja um filme sobre uma mentira.
Diria que é um filme que trata explicitamente sobre uma verdade, daquelas que não podem ficar trancadas no armário, daquelas que são tão autênticas que se pode notá-la no brilho do olho, na sensibilidade de um sorriso maroto, no gesto mais doce que nos faz ser humanos.

(E, se fosse um filme sobre uma mentira, só poderia imaginá-lo como um filme sobre a "mentira" do binarismo de gênero. Laure é "female" do ponto de vista do sexo, pode ser "gender queer" ou "male" do ponto de vista do gênero, pode ser "bisexual" ou "male" do ponto de vista da orientação sexual, e pode ser tanto "androgynous" como "masculine" do ponto de vista da expressão de gênero. E, mesmo assim, há quem diga é que Laure é, simplesmente, uma menina. Localize-se na figura acima se não tem ideia sobre o que eu estou falando).

Mas, como surge essa "verdade"?
Na primeira vez em que Laure (Zoé Héran) encontra Lisa (Jeanne Disson) tudo é muito sutil - como são os primeiros encontros de crianças de 10 anos de idade.
Lisa vê em Laure um menino - e nosso primeiro olhar é balizado por preconceitos, que nada mais são dos imagens cristalizadas do pedaço do mundo ao qual tivemos acesso.
Lisa revela isso por meio da linguagem: se a linguagem cria o mundo, é Lisa quem cria as condições de possibilidade para a existência de Michaël.
Laure se permite entrar na "brincadeira" (que é sempre um jogo de possibilidades imaginadas e pactuadas) - e quem é que não faz concessões para ser aceito em um novo grupo?
E assim se cria uma "verdade": Laure passa a ser Michaël porque é visto como Michaël e porque se reconhece como Michaël.
Mas esse é só o primeiro passo para que, de uma "verdade" (por reconhecimento), se crie uma identidade e um mundo partilhado.
Laure/Michaël ainda precisa "provar" que é Michaël, precisa viver como Michaël, precisa parecer Michaël.
Laure sabe que precisa parecer um menino, não porque não seja (ela é!), mas porque acredita que pode ser um menino tanto quanto uma menina, e o faz para que os outros reconheçam.
E isso é estranhamente análogo ao que diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em seu inusitado texto ônto-antropológico:

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é.

Nesse momento não é difícil fazer associações com o clássico "Boys Don't Cry", que em 1999 apresentava a história verídica de Brandon Teena, uma adolescente trangênero (transmasculino ou butch dyke, diriam algumas pessoas).
Mas as semelhanças deveriam parar por aí.
Tomboy não é um filme sobre (homos)sexualidade, nem sobre escolhas (ou orientação sexual), nem sobre crimes ou mentiras.

Como descreve Bruno Cursini na Revista Interlúdio:

Em Tomboy, a diretora Céline Sciamma conseguiu, ao menos, dois feitos: escapar da facilidade de encontrar quaisquer razões psicológicas ou sociológicas para tratar (e absolver) a homossexualidade e, ainda mais louvável, não cair na armadilha do choque.

Tomboy é um filme doce (porque crú) sobre crianças, sobre o universo infantil e sobre as imensas possibilidades que o circundam: imaginação, fantasia, amizade, amor, alegria, companheirismo, fraternidade, aceitação, ambiguidade, incerteza.
Apresenta a liberdade infantil como um jogo ambíguo, pois sempre está atrelada às regras impostas pelo mundo (adulto), embora ilimitada pelo tabuleiro configurado como o espaço do possível (infantil) e do (ingenuamente) imaginável.
O possível, nesse universo infantil, é o que se "pode fazer".
E, quase sempre, se pode fazer tudo o que se pode imaginar fazendo.
Se Laure imagina que "pode ser" Michaël, então ela é Michaël: lhe é concedido o direito de jogar futebol, de tirar a camisa, de cuspir, de brincar de luta e, inclusive, de vencê-las.

Lisa (Jeanne Disson) diz que Laure "não é como os outros meninos" (e é exatamente isso o que a encanta), embora saiba que Laure só possa ser Michaël na medida mesma em que é "como os outros".

O pai de Laure (Mathieu Demy) expõe essas ambíguas possibilidades desde o início do filme. Laure pode dirigir, Laure pode tomar cerveja, Laure pode andar de bermudas, embora Laure continue sendo, para ele, sua filha Laure.
Em complemento a essas possibilidades, a mãe de Laure (Sophie Cattani) não esboça nenhum estranhamento ao ver a filha, de bermudas, maquiada.
Tudo é singularmente possível e ambiguamente momentâneo - tanto quanto na cena em que uma massinha de modelar, feita no formato de pênis, é guardada por Laure numa caixinha junto aos dentes-de-leite que ela fora substituindo pelos definitivos.

Mas ninguém entende melhor essas questões do Jeanne (Malonn Lévana), a irmã menor de Laure.
Ela descreve Michaël (para seus pais), com uma beleza lírica e, ao mesmo tempo, extremamente cômica, como um amigo de Laure que a defende, a protege e a leva para passear - exatamente como faz a própria Laure, mas do "outro lado do espelho".

É triste, portanto, ver as palavras que Lisa utiliza quando percebe que beijava Laure, e não Michaël.
Diante da desilusão, ela só consegue concordar com os amigos: "- É nojento!".

O gosto, no entanto, sendo uma sensação imediata (não depende da mediação de outros sentidos nem da razão), só pode ser percebido como "bom gosto" ou como "repulsivo". Assim, pelo menos, era o que propunha Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790).
Lisa, em nenhum momento, sente repulsa por Laure - muito pelo contrário! O que causa "nojo" em Lisa não é o beijo (ou o gosto do beijo), mas a ideia de beijar uma menina (e, mais profundamente ainda, a consciência de que gostou de beijá-la e de que, possivelmente, gostaria de voltar a beijá-la)... Perde-se o beijo, fica-se com a ideia!
Novamente, como se trata de um filme sobre o universo infantil, trata-se de gosto - e não de opção/orientação sexual (sim, sim, eu sei que Freud escreveu sobre a sexualidade infantil. Mas veja lá: ele fala de "gozo" e "desejo", e não de "vontade" e "escolha").

No final, de forma tão dramática quanto singela e brusca, aberta mesmo, como se o jogo inicial tivesse acabado para dar início a um outro, Lisa torna a fazer a Laure a mesma pergunta: "- E como você se chama?".
E, dessa vez, o jogo recomeça a partir de outra possibilidade: "- Me chamo Laure.".

Alguns dirão: as regras limitam, o tabuleiro extrapola.
Outros, ainda: as regras educam, o tabuleiro ensina.
Laure aprendeu que pode ser Laure tanto quanto poder ser Michaël.
Mas Laure foi educada para ser Laure.
E, nesse choque, nem sempre indolor, se faz o mundo infantil, em sua constante e inadvertida passagem ao mundo adulto.

E, se mesmo com tudo isso, ainda lhe parecer que o filme é simples, "bobinho", superficial até...Tudo bem!
Sempre me lembro da força poética e sintética alcançada pela frase de Paul Valéry:

O mais profundo é a pele.

E não será justamente dessa profundidade superficial - no nível do tato e do olhar, no alcance dos gestos visíveis, na brevidade da infância, na rapidez das férias de verão, na pequena distância entre fantasia e realidade, entre razão e desejo - dessa superfície profunda que é a pele em que cada um de nós habita (e por meio da qual co-habita o mundo), de que fala Tomboy?

Quote

Limites

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Diante da experiência de

- Você ultrapassou todos os limites! Parece estar me testando, testando meus limites!

o que fazer, o que pensar, como reagir?

Talvez não esteja claro que limites são coisas que criamos - para nos proteger ou para proteger as relações (isto é, para que fique claro, a imagem cristalizada que temos de uma relação em particular).
Limites aparecem evidenciados em momentos de fragilidade, de "aislamento", de ruptura.
O outro nos impõe um limite quando nossa conexão está sendo perdida.
Ou, eu me imponho limites quando estou perdendo minha conexão interna comigo mesmo: quando me pego em contradição (com o que penso e sinto), quando quero crescer (para além do que sou), quando preciso expandir meu ponto de vista (para dar conta do mundo novo que se alargou).
Assim, como criações temporárias, os limites, no melhor sentido da ideia, estão aí porque devem ser superados. Não para que deixem de existir, mas para que se reajustem, pois são "limitados".

Ou, como ensina a velha sabedoria do mar:

Caranguejo que não troca de casca também não cresce.

E é nesse mesmo rumo que a filosofia também se manifesta.
(E, se não está afim de devaneios filosóficos agora, pode saltar alguns parágrafos, sem prejuízo).

Lembro-me de algumas ideias do filósofo francês Gilles Deleuze, em que aparece um alerta para que sejam saltadas as “cercas”, para que sejam ultrapassados os limites e para que sejam reintegradas as partes, antes distribuídas ou dispersadas - para ele, esse é o modo de agir dos bebês (sim! dos bebês!).
Cercas, para ele, são impedimentos que se impõem a nós, ou seja, que “vêm de fora”.
Limites, assim, são determinações ou fronteiras que impomos a nós mesmos, ou que assumimos para nós mesmos, às vezes por medo, outras vezes por ignorar que não são necessárias ou, sequer, existentes.
Estes limites assumem tantas e tão diversas formas que vale enunciar algumas delas:
i) podem apresentar-se como diferenças que criam meras “individualidades sem singularidades”, na expressão de Muniz Sodré. Ou seja, se quero impor um limite para manter-me como indivíduo, mesmo quando não há nada de singular nesse limite - dele não me aproprio, já que é mera repetição. Singular, por exemplo, é o sorriso ou o choro de um bebê, que são claros limites, embora não façam, per si, de um bebê um indivíduo, único, separado dos outros bebês. Pelo contrário. Assim, este sorriso é a expressão de uma "singularidade pré-individual", como indica Deleuze. Limites não individuam, porque só têm sentido na relação, no "ser-com"; e os limites singularizam precisamente no momento em que se tornam "próprios", como autêntica expressão desse "ser-com" (e uso aqui expressões de Heidegger).
ii) podem aparecer como mero “narcisismo das pequenas diferenças”, na clássica expressão cunhada por Freud, que é “a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”;
iii) e podem, ainda, aparecer sob a necessidade de universalização ou sob imperativos morais.

Não seria estranho se nos lembrássemos então do velho Freud, quando ele diz (no cap. V de "O Mal-Estar na Civilização") que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização.

Para Deleuze, os julgamentos que fazemos funcionam como testes destes limites, precisam dos limites para ocorrerem: julgo o que acontece com base nos meus limites ou na estreiteza dos limites do outro. Acredito, nesse sentido, que só posso julgar o que consigo perceber, dentro dos meus limites. Me atenho - não ao poder de perceber, compreender ou julgar - mas ao próprios limites que condicionam meu juízo.

Nesse sentido estrito, contrariamente ao que indica a corrente de pensamento da complexidade, a "soma das partes" ainda seria sempre menor do que "o todo".
De nada adianta distribuir partes, separar, se não se nota que em cada divisão geram-se novos e menores limites. E, com a imposição de novos limites, diminui-se a potência do todo e dificulta-se a capacidade de compreensão.

Mas se tudo isso ainda parece muito abstrato, seria bom se compreendêssemos os limites mais ou menos como pontes - estreitas, balançando sobre o abismo ou sobre um rio, pendulares, feitas de cordas finas e puídas; uma ponte pênsil.

Bertolt Brecht apresentava o paradoxo pela mesma imagem:

Fala-se da violência das águas do rio, que tudo arrasta. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Quando o rio se alarga pela violência de suas águas, ajustamos a ponte - alargamos os limites.
E, quando o rio se estreita, os pontos a serem interligados, as "ilhas", ficam mais próximas, ainda que não seja necessário mudar os limites-pontes.
Porque daí os limites deixam de ser barreiras (intransponíveis).

Limites poderiam ser entendidos como etimologicamente conectados à palavra Lei, do latim Lex, que significava para os romanos "uma relação formal entre as pessoas".
Assim, os limites passam a ser uma conexão entre pontos de vista particulares. (E lembre-se do que diz Leonardo Boff sobre pontos de vista: é sempre e somente a vista de um ponto).

A pergunta sobre os limites, então, pode ser expressa como a evidenciação do ponto de vista. Mas não se trata de saber o que é o ponto de vista de cada um - o meu e o do outro - para que se clarifiquem os limites.
Trata-se, antes, de saber "qual é" a vista desse ponto, "como é" que se vê o mundo com este limite.
Não basta ver os dois lados do rio. Há que se atravessar a ponte para se chegar do outro lado e olhar de volta.
Ou, como indica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

Não se trata de perguntar qual é o ponto de vista dos [outros] sobre o mundo, porque essa pergunta já contém sua própria resposta. Ela supõe que o ponto de vista é uma coisa, o mundo uma outra, exterior ao ponto de vista.

Para voltar ao problema inicial, ainda falta entender o que tem de comum entre limites e testes.
Bem, talvez os limites - a mera declaração deles ou mesmo quando se ultrapassa o limite do outro - sejam encarados como testes.
Os limites criam a sensação de testes quando poderiam ser percebidos como meros "estímulos-respostas" diante da experiência partilhada.

Um limite pode ser criado - e vivenciado - como um teste de esforço: testa-se o limite do outro para saber até que ponto a outra pessoa suporta. Isto é, até que ponto ela realmente está disposta a manter tal ou qual limite.

No entanto, se nos comunicássemos mais abertamente sobre os limites - e, ainda, se estivéssemos mais dispostos a saltar as "cercas" e a cruzar as pontes - então poderíamos simplesmente perguntar: este limite é ainda necessário?
(Como indica a Comunicação Não-Violenta, um limite pode ser a expressão de uma necessidade, que ambos partilhamos e que precisa ser compreendida e satisfeita).

Experimentar, ao contrário do "teste", é um exercício de vida e de autonomia.
O teste objetifica, a experimentação liberta.
O teste cria um vínculo de tipo "eu-objeto", em que sou manipulador e, por isso, único responsável pelo que acontece ao outro.
A experimentação pode fortalecer a relação ao basear-se na fragilidade mesma da relação, ao considerar que ambos são responsáveis pela forma da vida que experimentam, ainda que não saibam ou que não queiram assumir.
Se eu testo, é para saber "do outro" e observar suas reações.
Se eu experimento, é para saber que "eu" estou vivo, e compreender como escolho viver com o outro.

Experimento o limite porque tenho medo da monotonia mais do que da morte.
Salto as "cercas" porque tenho medo do cotidiano, que aprisiona na repetição.
Integro as partes porque tenho medo da rotina, que subdivide a vida em territórios apertados.
E não faço isso porque sou contrário à tranquilidade que a rotina dá em troca, mas pelo custo de sua manutenção.

Como lembra volta-e-meia o tranquilo e contraditório Roberto Crema:

Se me contradigo [e ultrapasso os limites de sua compreensão, neste caso] é porque sou vasto; só os estreitos não se contradizem.

Assim, só posso pedir desculpas por ter ultrapassado seu limite.
Agora que o compreendo e que o aceito como possível, já posso perguntar: este limite ainda é necessário?
E então a-guardo para poder atravessar a ponte que nos liga e que me leva de volta até você.