Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Dúvida

Dúvida

Duvidas
Quando surge uma dúvida cruel, a resposta, fruto da ardilosa curiosidade*, nem sempre espanta ou redime a crueldade.

A crueldade pode estar na essência do próprio duvidar...

Para acabar com a crueldade (da dúvida, ou de quem duvida), a potência pode não estar em resistir (à crueldade), mas em desistir (de duvidar).

A desistência (como ativismo) pode ser uma saída.

Pode-se minar essa crueldade saindo-se do ciclo crueldade-resistência-crueldade. A crueldade só tende a crescer com a resistência. É quando resistência é cumplicidade, como re-existência, como o sobrevivencialismo niilista do último dos homens de Nietzsche.

Parêntesis: a desobediência civil seria uma forma de desistência? E como lidar com a denúncia de Žižek (explicada em detalhes aqui)? Ela pode ser resumida assim:

O pensamento de Foucault, Deleuze e Guattari, filósofos de ponta da resistência, que tiveram posições marginais atravessadas pelas redes de poder hegemônicas, acaba representando a ideologia das novas classes dominantes.
(Slavoj Žižek, no capítulo final do livroOrgãos sem corpos: sobre Deleuze e suas consequências”, com sublinhado meu) (Veja aqui outros trechos do livro).

A desistência (como modo de vida) pode ser uma entrada.

Entra-se em um mundo de possibilidades para o desejo, para a criação, para a novidade, efim, para a liberdade de não se ter mais nada a perder, sem dúvidas, sem medos.

Outro parêntesis: quando V encontra-se pela última vez com Evey, ainda na cela (no minuto 80 do filme), eles dialogam. E, em seguida, vem a cena "Deus está na chuva":

- Chegou a hora.
- Estou preparada.
- Escute: eles só querem alguma informação. Passe algo a eles, qualquer coisa.
- Obrigada, mas prefiro morrer atrás do setor químico.
- Então você não tem mais medo de nada. Está completamente livre.

Ao fim e ao cabo, quando já se perdeu o medo de perder, então pode-se finalmente encontrar a felicidade de achar.

E só se pode achar (e doar) aquilo que não se tem medo de perder.


* A curiosidade, para Heidegger, é uma manifestação essencial da existência anônima (isto é, imprópria) cotidiana. A curiosidade (como o falatório) não se apropria do que vê (ou do que fala). Uma vez "satisfeita" a curiosidade, acaba-se a novidade - descarta-a. A curiosidade não leva à produção (como póiesis) ou ao uso, mas ao consumo-descarte-alienação. A curiosidade é

a impermanência junto ao que está mais próximo.
(Martin Heidegger, em Ser e tempo, 3a. ed., 1989. p. 233.).

Veja aqui um textinho bacana sobre o assunto.