Tema criado por Cory Watilo

Tem a ver com: Cronologia

Nostalgia

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A nostalgia é um sofrimento frágil e suave, essencialmente diverso, mais íntimo, mais humano do que as outras dores que havíamos suportado até então: frio, golpes, fome, terror, doença, privação. É uma dor límpida e clara, mas urgente: invade todos os minutos do dia, não concede outros pensamentos, e nos incita às evasões.

Assim Primo Levi descreve a nostalgia em A Trégua, belo livro em que ele fala dos tempos em que ficou preso em Auschwitz e, com o fim da guerra, perambulou "livre" pela Europa Central, sem destino certo, até poder voltar para Turim, na Itália, sua terra natal.

Tenho notado que 2011 parece ser, para diversas pessoas, um ano nostalgico; de balanços, revisitas, rememórias, recomeços. É, para bem dizer, o encerramento de uma década. E, falam as más e as boas línguas, está sendo a passagem para o fatídico ano de 2012, que tanto presume o fim do mundo quanto a entrada em uma nova Era.

Eu, que não sou dado às nostalgias, tenho me defrontado com algumas atividades que me fizeram revisitar tempos passados, seja para fechar ciclos, seja para me reconciliar com eles. Pude olhar recentemente para esta década e acompanhar partes da minha trajetória, como esforço para preparar uma cronologia de 10 anos da Rede Nacional de Jovens Líderes, que ajudei a começar no ano de 2001. E, para minha surpresa, foi sem nostalgia que pude perceber o difícil e o prazeroso que foi este tempo de boas e grandes realizações.

A nostalgia não parece ser uma saudade. E como poderia ser, se nos orgulhamos de haver "inventado" a palavra "saudade", para a qual insistimos que não há correlatos exatos em outras línguas?

A nostalgia não parece ser o desejo de retorno ao que passou, porque não raro vem acompanhada de sofrimento, mesmo que seja um humano e doce sofrimento, como diz Primo Levi. É um deslocamento, e sempre "para fora de casa".

A nostalgia não parece prestar-se à reconciliação com o que se passou, com o estranhamento que a mudança constante do mundo e dos outros indubitavelmente causa. Como disse Hannah Arendt,

toda pessoa necessita reconciliar-se com um mundo em que nasceu como estranho e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. (em A dignidade da política, 1993. p. 39)

Mas a nostalgia não se presta a essa reconciliação, pois não permite que os homens se sintam, no tempo presente, "em casa no mundo" (como menciona Arendt em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 52). E, se não vale por isso, tampouco poderia valer para ajudar-nos com atualização da compreensão do mundo, que

não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós [...]. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 21)

Alegoricamente, como menciona Walter Benjamin em sua Tese 9, o passado é aquilo que, ao contrário do que sustenta o senso comum, está diante de nós porque por nós pode ser visto e lembrado, quase sempre como ruínas.
O futuro, por sua vez, seria aquilo que viria de trás, como uma tempestade que está sempre às nossas costas; impossível de prever, mas forte e instigante o suficiente para nos levar adiante.
Então, a nostalgia poderia ser descrita como um "tapa-olho" (aquela espécie de viseira que permite que se enxergue somente para frente); não impede o progresso, mas dificulta que se observe o caminho e impede que se veja os que tombaram a nosso lado.

A nostalgia surge do interesse humano em partilhar empaticamente de sua história que, no entanto, é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores: e quem não quer ser um vencedor em sua própria história? Mas, como alertou Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

De quê serve então este sentimento tão avassalador quanto inútil e evasivo, tão frágil quanto dominador, tão suave quanto pungente; que vem não se sabe de onde e ao qual não se pode humanamente resistir?