Amor Mundi http://mateusfernandes.posterous.com Fragmentos, pensamentos e declarações de amor à vida. Exercícios de serendipidade para construir um belo blog como suporte de uma bela vida. posterous.com Thu, 10 May 2012 13:03:00 -0700 Razão http://mateusfernandes.posterous.com/razao http://mateusfernandes.posterous.com/razao

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Eram 11h da manhã de uma terça-feira clara e fria quando aquele feitiço se quebrou.

Maria, até aquele momento, logo antes do almoço, quando tinha já longos 4 anos, vivera como se tudo o que importasse fosse "ser": estar-sendo, vir-a-ser, essa era a sua meta.

Sem aviso-prévio, sem mais nem porquê, a meta foi rompida.
(Não...não se pode dizer que ela foi "perdida". É um rompimento mesmo, nem bem uma bifurcação. É um rachadura, um abismo - intransponível? - que se abriu sob seus pés. A meta havia sido rompida, o lacre do sagrado "ser" havido sido violado. Da caixa aberta do "ser" saía, então, o primeiro segredo, um monstruoso segredo...)

Maria viu as cercas reluzentes do "ter", pela primeira vez, bem de perto.

Antes, havia sido somente uma disputa boba por brinquedos, doces e carinhos.
Ela queria "ter" aquilo tudo, é verdade.
Mas, como dádivas, eram coisas inesgotáveis.
Tinha brinquedos (que fazia até com a imaginação), doces (que achava até nos bichos da terra que botava na boca, só pra provar) e carinhos (que, afinal, era o modo de o mundo ser todo dela, por alguns instantes).

Mas daí a cerca do "ter" pareceu mais reluzente naquele instante.
Ela cercava algo raro, algo que nem sempre se poderia "ter": a razão.

Com a razão não poderia fazer muitas coisas, até aquele momento, é claro.
Mas a raridade do artefato, cercado e protegido, porque delicado e impreciso, a instigou.

Nina denunciava:

- Você tem algo que não tenho.

E aquilo soava quase como um "quero ter".

Nesse momento, Maria esquecia-se de sua meta: ser.
(ou, mais-bem, a meta é que se afastava dela, por indisciplina, por ciúmes, por pura vaidade...?)

Então, às 11h daquela manhã de terça-feira, clara e fria, foi que Maria viu sua meta transformada: do "ser" para o "ter".

E, mesmo sem ainda entender bem se queria de fato "ter" razão, ela entrou na cerca reluzente.

E dali, perdida, nunca mais achou a saída...

Inspirado nessa outra estória aqui.

Crédito da Imagem: Orlando Pedroso.

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Fri, 09 Mar 2012 13:36:00 -0800 Recordação http://mateusfernandes.posterous.com/recordacao http://mateusfernandes.posterous.com/recordacao

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Recordar parece ser uma atitude análoga ao relembrar.
É preciso, no entanto, que se perceba: seus movimentos podem ser semelhantes, mas seus caminhos são outros.

Relembrar, que é lembrar outra vez, precisa sempre fazer seu apelo ao passado, pois seu caminho retorna às imagens da memória e, portanto, dificilmente sai da cabeça que as guarda.

Recordar, muito a seu modo, trata mais de trazer à tona as sensações e as experiências que a-guardavam em outros lugares do espírito, do corpo, da vida.

Em O Livro dos Abraços, o escritor uruguaio Eduardo Galeano registra:

Recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração".

Recordar, assim, é uma atividade inevitavelmente feita no presente, pois se realiza nas sensações que vêm à baila, e apela mais frequentemente ao futuro, ao que virá, pois que deixa rastros, como guias, para seguirmos adiante.

Diante de uma lembrança que retorna, tem-se geralmente duas opções: compreender ou perdoar.

E faço rápida digressão para repetir as palavras de Hannah Arendt, que mencionei quando escrevi sobre a nostalgia. Para a pensadora alemã, compreender significa:

encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 21).

Quando compreendemos nos reconciliamos com o mundo e com o passado, sem, no entanto, termos de nos submeter à possível repetição dos acontecimentos.
Compreender não significa perdoar, não significa aceitar como possível, no presente, uma situação vivida no passado.
Compreender, pelo contrário, é justamente o que nos permite uma reconcliação que cria outros caminhos, que faz ressugir o mundo e que nos torna responsáveis por ele.
O perdão, por sua vez, é o único instrumento de que dispomos para lidarmos com o fato de que nossas ações são irreversíveis - não se pode voltar atrás e desfazê-las.

Mas é importante frisar: ao se perdoar a pessoa, aceitando suas desculpas, pode-se não perdoar seu ato, isto é, pode-se não querer ver tais acontecimentos retornarem.
Assim, embora seja o único, o perdão deve ser sempre o último instrumento para o qual se pode apelar numa reconciliação com o mundo. (Fim da digressão!)

Diante de uma recordação, no entanto, por ela ser viva, vívida (e, portanto, fugaz), o que nos cabe é aproveitar.

E, vale dizer, a-proveitar é precisamente isso: não tirar proveito, não servir-se do benefício como quem se serve de algo pronto, como quem ganha algo dado para guardar novamente.
Para a-proveitar é preciso ceder à tentação de ganhar e guardar. É preciso, antes, dar-se, entregar-se, generosamente.
Para a-proveitar é preciso a-guardar (pois, dizem, para tirar proveito é preciso guardar o proveitoso benefício, sem generosidade, com apego, protegido).

Uma vida a-proveitada, assim, é uma vida que a-guarda ser re-cordada.

Com os percalços (e também com as alegrias) que toda vida bem vivida apresenta: para curtir a liberdade de andar de bicicleta sem as mãos, corre-se o risco de ver surgir na pele alguns arranhões.
As marcas ficam como lembranças. E dão coragem para seguir.
               
É preciso coragem para recordar.
Como diz a sabedoria popular, "recordar é viver".
Ao que somo o poema (publicado em Grande Sertão Veredas) de João Guimarães Rosa:

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

Para deixar "tornar a passar pelo coração" é preciso a coragem da persistência.

E, quando se persiste, pode-se ter, finalmente, aquilo de que se precisava, aquilo por que se esperou tanto tempo.

Uma necessidade não cessa até ser satisfeita. Aquilo de que se precisava, ainda é aquilo mesmo de que se precisa. Partilhamos, quase sempre, das mesmas necessidades. E, sendo a base da Comunicação Não-Violenta, essa talvez seja nossa humanidade em comum esquecida.

Deixar "tornar a passar pelo coração", portanto, ajuda a conectar duas pessoas.
Recordar é uma atividade profunda e necessariamente compartilhada.

Recordar permite satisfazer, no presente, necessidades não satisfeitas no passado.

E ter coragem, ou seja, agir com o coração, está intimamente ligado à recordação.

Essa coragem de recordar, essa ação do coração de fazer algo passar novamente por ele, pode satisfazer a necessidade de partilhar de um ponto de vista, que é o limite da vista de um ponto.
Afinal, é bom saber que meu ponto de vista não é habitado só por mim.
Além disso, essa mesma coragem de recordar pode fazer você se deslocar até aqui, até o meu ponto de vista (ou, então, me levar até aí, até o seu ponto de vista - nesse momento, isso importa menos).
Agora, a vista desse ponto co-habitado pode ficar mais clara para os dois, porque foi partilhada. E os meus próprios limites se alargam, alcançando, finalmente, o outro.

Recordar pode aumentar o desfrute do gosto gostoso de se perceber uma necessidade sendo atendida.
E, nesse momento, não é só o ego que clama por isso.
Nessa reconexão, facilitada pela recordação, é o "ser-com" de cada um que aproveita, aquele "modo de ser" que ficou partido, pendendo de um lado do caminho, enquanto ainda estávamos desconectados.

Com a recordação, a conexão, que se achava perdida, volta a se fazer.
E é como ver uma corda que estava esgarçada e puída, quase partindo-se, tramar novamente seus fios: é um momento mágico, quase miraculoso.
Quase não se precisa fazer força pra esse momento acontecer - umas poucas palavras, nada mais - mas só quem vê sabe o quanto de esforço foi necessário, antes.

Se deixe aproveitá-lo um pouco mais, na próxima recordação.

Crédito da Imagem: Orlando Pedroso.

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Thu, 23 Feb 2012 09:04:00 -0800 Tomboy http://mateusfernandes.posterous.com/tomboy http://mateusfernandes.posterous.com/tomboy

Como usuário de Ubuntu/Linux, eu bem poderia falar do Tomboy, excelente software para tomar notas (como nos velhos post-it) que já vem instalado...

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Mas o texto é sobre o delicado e poderoso filme de Céline Sciamma, diretora francesa nascida em 1978, chamado "Tomboy", cuja tradução literal seria "moleca". E Tomboy é, literalmente, um filme sobre uma "menina moleque" e também sobre uma "molecagem". Veja aqui o trailer.

(E, se você não viu o filme e pretende vê-lo - o que recomendo entusiasticamente, não continue a ler os comentários, que estão cheios de spoilers. Além disso, vale mesmo a graça de ver o filme sem saber nada mais, sem ler sinopses, sem ver críticas. Teste seu gosto, teste seus limites, exponha-se ao que de mais belo a arte pode fazer por você: servir de outro-lado-do-espelho para você ver a si mesmo e às possibilidades do mundo).

Apesar de ser um filme sobre uma molecagem, no entanto, e ao contrário do que li em uma resenha, não consigo enxergar que seja um filme sobre uma mentira.
Diria que é um filme que trata explicitamente sobre uma verdade, daquelas que não podem ficar trancadas no armário, daquelas que são tão autênticas que se pode notá-la no brilho do olho, na sensibilidade de um sorriso maroto, no gesto mais doce que nos faz ser humanos.

(E, se fosse um filme sobre uma mentira, só poderia imaginá-lo como um filme sobre a "mentira" do binarismo de gênero. Laure é "female" do ponto de vista do sexo, pode ser "gender queer" ou "male" do ponto de vista do gênero, pode ser "bisexual" ou "male" do ponto de vista da orientação sexual, e pode ser tanto "androgynous" como "masculine" do ponto de vista da expressão de gênero. E, mesmo assim, há quem diga é que Laure é, simplesmente, uma menina. Localize-se na figura acima se não tem ideia sobre o que eu estou falando).

Mas, como surge essa "verdade"?
Na primeira vez em que Laure (Zoé Héran) encontra Lisa (Jeanne Disson) tudo é muito sutil - como são os primeiros encontros de crianças de 10 anos de idade.
Lisa vê em Laure um menino - e nosso primeiro olhar é balizado por preconceitos, que nada mais são dos imagens cristalizadas do pedaço do mundo ao qual tivemos acesso.
Lisa revela isso por meio da linguagem: se a linguagem cria o mundo, é Lisa quem cria as condições de possibilidade para a existência de Michaël.
Laure se permite entrar na "brincadeira" (que é sempre um jogo de possibilidades imaginadas e pactuadas) - e quem é que não faz concessões para ser aceito em um novo grupo?
E assim se cria uma "verdade": Laure passa a ser Michaël porque é visto como Michaël e porque se reconhece como Michaël.
Mas esse é só o primeiro passo para que, de uma "verdade" (por reconhecimento), se crie uma identidade e um mundo partilhado.
Laure/Michaël ainda precisa "provar" que é Michaël, precisa viver como Michaël, precisa parecer Michaël.
Laure sabe que precisa parecer um menino, não porque não seja (ela é!), mas porque acredita que pode ser um menino tanto quanto uma menina, e o faz para que os outros reconheçam.
E isso é estranhamente análogo ao que diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em seu inusitado texto ônto-antropológico:

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é.

Nesse momento não é difícil fazer associações com o clássico "Boys Don't Cry", que em 1999 apresentava a história verídica de Brandon Teena, uma adolescente trangênero (transmasculino ou butch dyke, diriam algumas pessoas).
Mas as semelhanças deveriam parar por aí.
Tomboy não é um filme sobre (homos)sexualidade, nem sobre escolhas (ou orientação sexual), nem sobre crimes ou mentiras.

Como descreve Bruno Cursini na Revista Interlúdio:

Em Tomboy, a diretora Céline Sciamma conseguiu, ao menos, dois feitos: escapar da facilidade de encontrar quaisquer razões psicológicas ou sociológicas para tratar (e absolver) a homossexualidade e, ainda mais louvável, não cair na armadilha do choque.

Tomboy é um filme doce (porque crú) sobre crianças, sobre o universo infantil e sobre as imensas possibilidades que o circundam: imaginação, fantasia, amizade, amor, alegria, companheirismo, fraternidade, aceitação, ambiguidade, incerteza.
Apresenta a liberdade infantil como um jogo ambíguo, pois sempre está atrelada às regras impostas pelo mundo (adulto), embora ilimitada pelo tabuleiro configurado como o espaço do possível (infantil) e do (ingenuamente) imaginável.
O possível, nesse universo infantil, é o que se "pode fazer".
E, quase sempre, se pode fazer tudo o que se pode imaginar fazendo.
Se Laure imagina que "pode ser" Michaël, então ela é Michaël: lhe é concedido o direito de jogar futebol, de tirar a camisa, de cuspir, de brincar de luta e, inclusive, de vencê-las.

Lisa (Jeanne Disson) diz que Laure "não é como os outros meninos" (e é exatamente isso o que a encanta), embora saiba que Laure só possa ser Michaël na medida mesma em que é "como os outros".

O pai de Laure (Mathieu Demy) expõe essas ambíguas possibilidades desde o início do filme. Laure pode dirigir, Laure pode tomar cerveja, Laure pode andar de bermudas, embora Laure continue sendo, para ele, sua filha Laure.
Em complemento a essas possibilidades, a mãe de Laure (Sophie Cattani) não esboça nenhum estranhamento ao ver a filha, de bermudas, maquiada.
Tudo é singularmente possível e ambiguamente momentâneo - tanto quanto na cena em que uma massinha de modelar, feita no formato de pênis, é guardada por Laure numa caixinha junto aos dentes-de-leite que ela fora substituindo pelos definitivos.

Mas ninguém entende melhor essas questões do Jeanne (Malonn Lévana), a irmã menor de Laure.
Ela descreve Michaël (para seus pais), com uma beleza lírica e, ao mesmo tempo, extremamente cômica, como um amigo de Laure que a defende, a protege e a leva para passear - exatamente como faz a própria Laure, mas do "outro lado do espelho".

É triste, portanto, ver as palavras que Lisa utiliza quando percebe que beijava Laure, e não Michaël.
Diante da desilusão, ela só consegue concordar com os amigos: "- É nojento!".

O gosto, no entanto, sendo uma sensação imediata (não depende da mediação de outros sentidos nem da razão), só pode ser percebido como "bom gosto" ou como "repulsivo". Assim, pelo menos, era o que propunha Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790).
Lisa, em nenhum momento, sente repulsa por Laure - muito pelo contrário! O que causa "nojo" em Lisa não é o beijo (ou o gosto do beijo), mas a ideia de beijar uma menina (e, mais profundamente ainda, a consciência de que gostou de beijá-la e de que, possivelmente, gostaria de voltar a beijá-la)... Perde-se o beijo, fica-se com a ideia!
Novamente, como se trata de um filme sobre o universo infantil, trata-se de gosto - e não de opção/orientação sexual (sim, sim, eu sei que Freud escreveu sobre a sexualidade infantil. Mas veja lá: ele fala de "gozo" e "desejo", e não de "vontade" e "escolha").

No final, de forma tão dramática quanto singela e brusca, aberta mesmo, como se o jogo inicial tivesse acabado para dar início a um outro, Lisa torna a fazer a Laure a mesma pergunta: "- E como você se chama?".
E, dessa vez, o jogo recomeça a partir de outra possibilidade: "- Me chamo Laure.".

Alguns dirão: as regras limitam, o tabuleiro extrapola.
Outros, ainda: as regras educam, o tabuleiro ensina.
Laure aprendeu que pode ser Laure tanto quanto poder ser Michaël.
Mas Laure foi educada para ser Laure.
E, nesse choque, nem sempre indolor, se faz o mundo infantil, em sua constante e inadvertida passagem ao mundo adulto.

E, se mesmo com tudo isso, ainda lhe parecer que o filme é simples, "bobinho", superficial até...Tudo bem!
Sempre me lembro da força poética e sintética alcançada pela frase de Paul Valéry:

O mais profundo é a pele.

E não será justamente dessa profundidade superficial - no nível do tato e do olhar, no alcance dos gestos visíveis, na brevidade da infância, na rapidez das férias de verão, na pequena distância entre fantasia e realidade, entre razão e desejo - dessa superfície profunda que é a pele em que cada um de nós habita (e por meio da qual co-habita o mundo), de que fala Tomboy?

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Thu, 16 Feb 2012 12:38:00 -0800 Forgács http://mateusfernandes.posterous.com/forgacs http://mateusfernandes.posterous.com/forgacs

Greece_germany
O CCBB de Brasília está apresentando entre os dias 07 e 19/02/2012 a mostra (gratuita) de filmes de Péter Forgács, intitulada "Arquitetura da Memória".

Não conhecia o cineasta húngaro, e tive gratas surpresas ao ver alguns de seus filmes.

Péter é reconhecido internacionalmente pela criativa utilização de imagens de arquivo, de filmes de família (home movies) e de registros caseiros de meados do século 20. Assim, sua obra é um resgate de imagens - não pelo valor objetivo das imagens, mas pela narrativa que se pode construir a partir delas.

Na vinheta de abertura da mostra, Péter deixa claro a que veio (as frases são de seu filme "Tractatus de Wittgeinstein - 7 parágrafos em vídeo", veja aqui o trailer):

What the picture represents is its sense.
(O que a figuração representa é o seu sentido.)
It cannot be descovered, from the picture alone, wheter it's true or false.
(Não é possível reconhecer a partir da foto fora de seu contexto se ela é verdadeira ou falsa.)
Only a very unhappy man has the right to pity someone else.
(Somente um homem muito infeliz tem o direito de sentir pena de outra pessoa.)
The objetcts is simple.
(O objeto é simples.)

No entanto, se a história é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores, não me parece que Péter esteja sempre ciente do alerta deixado de forma enigmática por Walter Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

Ao utilizar imagens do cotidiano, banais até, Péter parece almejar contar outras versões paralelas à "história oficial".
Mas nem sempre este é o caso, como pode-se notar em "El Perro Negro - Histórias da Guerra Civil Espanhola" (veja aqui o trailer), no épico musical "Hunky Blues - O Sonho Americano" (que, aliás, tem excelente trilha sonora! Veja aqui o trailer) e, em menor medida, no chocante "Enquanto isso em algum lugar…1940-1943" (veja aqui o trailer).

Apesar de se fundamentarem em vídeos amadores e em histórias do dia-a-dia, por vezes simples e cômicas, como uma tentativa de contraste com cenas trágicas e bárbaras do período entre-guerras, as imagens dos dominadores, os relatos dos vencedores e dos bem-sucedidos (ao final) estão sempre lá, à espreita, vigiando e guiando os acontecimentos, alheios inclusive ao próprio cineasta, que parece ter as mãos (e a inventividade) amarradas na tentativa de tecer outra narrativa (im)possível.

Já no filme "Um Leitor de Bibó" (veja aqui o trailer) o espectador é duplamente presenteado: fragmentos de textos primorosos do pensador político húngaro István Bibó são complementados por imagens desoladoras do panorama da Europa Central durante os anos próximos à Revolução Húngara de 1956.

The greatest threat to the rule of law is not people outside it, but those uncertain and distorted situations in whiches the law becomes bad, contradictory, and hypocritical. (István Bibó).

Neste período, Bibó foi Ministro de Estado e também preso e sentenciado à morte. Anistiado, deu continuidade a suas reflexões sociais e históricas, profundamente arraigadas no conceito de "medo":

Being a democrat means, primarily, not to be afraid; not to be afraid of those who have differing opinions, speak different languages, or belong to other races; not to be afraid of revolutions, conpiracies, the unknown malicious intent of enemies, hostile propaganda, being demeaned, or any of those imaginary dangers that become truly dangerous because we are afraid of them. (István Bibó, em The Distress of Eastern European Small States, 1946.).

Por fim, fica a ideia de que a democracia não tem proteções contra si mesma - ou seja, contra o uso anti-democrático de procedimentos democráticos ou contra a demagogia - e nem deve ter.
(E a imagem da bandeira nazi sendo hasteada em frente ao Partenon grego torna isso assustadoramente evidente).

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Tue, 14 Feb 2012 15:26:42 -0800 Limites http://mateusfernandes.posterous.com/limites http://mateusfernandes.posterous.com/limites

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Diante da experiência de

- Você ultrapassou todos os limites! Parece estar me testando, testando meus limites!

o que fazer, o que pensar, como reagir?

Talvez não esteja claro que limites são coisas que criamos - para nos proteger ou para proteger as relações (isto é, para que fique claro, a imagem cristalizada que temos de uma relação em particular).
Limites aparecem evidenciados em momentos de fragilidade, de "aislamento", de ruptura.
O outro nos impõe um limite quando nossa conexão está sendo perdida.
Ou, eu me imponho limites quando estou perdendo minha conexão interna comigo mesmo: quando me pego em contradição (com o que penso e sinto), quando quero crescer (para além do que sou), quando preciso expandir meu ponto de vista (para dar conta do mundo novo que se alargou).
Assim, como criações temporárias, os limites, no melhor sentido da ideia, estão aí porque devem ser superados. Não para que deixem de existir, mas para que se reajustem, pois são "limitados".

Ou, como ensina a velha sabedoria do mar:

Caranguejo que não troca de casca também não cresce.

E é nesse mesmo rumo que a filosofia também se manifesta.
(E, se não está afim de devaneios filosóficos agora, pode saltar alguns parágrafos, sem prejuízo).

Lembro-me de algumas ideias do filósofo francês Gilles Deleuze, em que aparece um alerta para que sejam saltadas as “cercas”, para que sejam ultrapassados os limites e para que sejam reintegradas as partes, antes distribuídas ou dispersadas - para ele, esse é o modo de agir dos bebês (sim! dos bebês!).
Cercas, para ele, são impedimentos que se impõem a nós, ou seja, que “vêm de fora”.
Limites, assim, são determinações ou fronteiras que impomos a nós mesmos, ou que assumimos para nós mesmos, às vezes por medo, outras vezes por ignorar que não são necessárias ou, sequer, existentes.
Estes limites assumem tantas e tão diversas formas que vale enunciar algumas delas:
i) podem apresentar-se como diferenças que criam meras “individualidades sem singularidades”, na expressão de Muniz Sodré. Ou seja, se quero impor um limite para manter-me como indivíduo, mesmo quando não há nada de singular nesse limite - dele não me aproprio, já que é mera repetição. Singular, por exemplo, é o sorriso ou o choro de um bebê, que são claros limites, embora não façam, per si, de um bebê um indivíduo, único, separado dos outros bebês. Pelo contrário. Assim, este sorriso é a expressão de uma "singularidade pré-individual", como indica Deleuze. Limites não individuam, porque só têm sentido na relação, no "ser-com"; e os limites singularizam precisamente no momento em que se tornam "próprios", como autêntica expressão desse "ser-com" (e uso aqui expressões de Heidegger).
ii) podem aparecer como mero “narcisismo das pequenas diferenças”, na clássica expressão cunhada por Freud, que é “a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”;
iii) e podem, ainda, aparecer sob a necessidade de universalização ou sob imperativos morais.

Não seria estranho se nos lembrássemos então do velho Freud, quando ele diz (no cap. V de "O Mal-Estar na Civilização") que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização.

Para Deleuze, os julgamentos que fazemos funcionam como testes destes limites, precisam dos limites para ocorrerem: julgo o que acontece com base nos meus limites ou na estreiteza dos limites do outro. Acredito, nesse sentido, que só posso julgar o que consigo perceber, dentro dos meus limites. Me atenho - não ao poder de perceber, compreender ou julgar - mas ao próprios limites que condicionam meu juízo.

Nesse sentido estrito, contrariamente ao que indica a corrente de pensamento da complexidade, a "soma das partes" ainda seria sempre menor do que "o todo".
De nada adianta distribuir partes, separar, se não se nota que em cada divisão geram-se novos e menores limites. E, com a imposição de novos limites, diminui-se a potência do todo e dificulta-se a capacidade de compreensão.

Mas se tudo isso ainda parece muito abstrato, seria bom se compreendêssemos os limites mais ou menos como pontes - estreitas, balançando sobre o abismo ou sobre um rio, pendulares, feitas de cordas finas e puídas; uma ponte pênsil.

Bertolt Brecht apresentava o paradoxo pela mesma imagem:

Fala-se da violência das águas do rio, que tudo arrasta. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Quando o rio se alarga pela violência de suas águas, ajustamos a ponte - alargamos os limites.
E, quando o rio se estreita, os pontos a serem interligados, as "ilhas", ficam mais próximas, ainda que não seja necessário mudar os limites-pontes.
Porque daí os limites deixam de ser barreiras (intransponíveis).

Limites poderiam ser entendidos como etimologicamente conectados à palavra Lei, do latim Lex, que significava para os romanos "uma relação formal entre as pessoas".
Assim, os limites passam a ser uma conexão entre pontos de vista particulares. (E lembre-se do que diz Leonardo Boff sobre pontos de vista: é sempre e somente a vista de um ponto).

A pergunta sobre os limites, então, pode ser expressa como a evidenciação do ponto de vista. Mas não se trata de saber o que é o ponto de vista de cada um - o meu e o do outro - para que se clarifiquem os limites.
Trata-se, antes, de saber "qual é" a vista desse ponto, "como é" que se vê o mundo com este limite.
Não basta ver os dois lados do rio. Há que se atravessar a ponte para se chegar do outro lado e olhar de volta.
Ou, como indica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

Não se trata de perguntar qual é o ponto de vista dos [outros] sobre o mundo, porque essa pergunta já contém sua própria resposta. Ela supõe que o ponto de vista é uma coisa, o mundo uma outra, exterior ao ponto de vista.

Para voltar ao problema inicial, ainda falta entender o que tem de comum entre limites e testes.
Bem, talvez os limites - a mera declaração deles ou mesmo quando se ultrapassa o limite do outro - sejam encarados como testes.
Os limites criam a sensação de testes quando poderiam ser percebidos como meros "estímulos-respostas" diante da experiência partilhada.

Um limite pode ser criado - e vivenciado - como um teste de esforço: testa-se o limite do outro para saber até que ponto a outra pessoa suporta. Isto é, até que ponto ela realmente está disposta a manter tal ou qual limite.

No entanto, se nos comunicássemos mais abertamente sobre os limites - e, ainda, se estivéssemos mais dispostos a saltar as "cercas" e a cruzar as pontes - então poderíamos simplesmente perguntar: este limite é ainda necessário?
(Como indica a Comunicação Não-Violenta, um limite pode ser a expressão de uma necessidade, que ambos partilhamos e que precisa ser compreendida e satisfeita).

Experimentar, ao contrário do "teste", é um exercício de vida e de autonomia.
O teste objetifica, a experimentação liberta.
O teste cria um vínculo de tipo "eu-objeto", em que sou manipulador e, por isso, único responsável pelo que acontece ao outro.
A experimentação pode fortalecer a relação ao basear-se na fragilidade mesma da relação, ao considerar que ambos são responsáveis pela forma da vida que experimentam, ainda que não saibam ou que não queiram assumir.
Se eu testo, é para saber "do outro" e observar suas reações.
Se eu experimento, é para saber que "eu" estou vivo, e compreender como escolho viver com o outro.

Experimento o limite porque tenho medo da monotonia mais do que da morte.
Salto as "cercas" porque tenho medo do cotidiano, que aprisiona na repetição.
Integro as partes porque tenho medo da rotina, que subdivide a vida em territórios apertados.
E não faço isso porque sou contrário à tranquilidade que a rotina dá em troca, mas pelo custo de sua manutenção.

Como lembra volta-e-meia o tranquilo e contraditório Roberto Crema:

Se me contradigo [e ultrapasso os limites de sua compreensão, neste caso] é porque sou vasto; só os estreitos não se contradizem.

Assim, só posso pedir desculpas por ter ultrapassado seu limite.
Agora que o compreendo e que o aceito como possível, já posso perguntar: este limite ainda é necessário?
E então a-guardo para poder atravessar a ponte que nos liga e que me leva de volta até você.

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http://files.posterous.com/user_profile_pics/454116/Mateus_WebCam.gif http://posterous.com/users/5eh0bZEN2ZCV Mateus Fernandes mateus Mateus Fernandes
Thu, 09 Feb 2012 08:41:00 -0800 Troca http://mateusfernandes.posterous.com/troca http://mateusfernandes.posterous.com/troca

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Volta e meia o tema aparece.
Um leit-motif da minha vida, talvez: trocas, intercâmbios, escambos, empréstimos, dádivas, presentes, mimos, entregas, perdas, perdões, doações...

Tudo muito semelhante.
Mas, se existe uma palavra para cada ato, é possível que sejam sempre coisas semelhantemente diferentes, né?

(Quando a semelhança está na referência, e a diferença no sentido, sabe?)

Daí que recebi um livro emprestado.
E lá estava o texto, fruto da necessidade de explicar ao leitor o título da coleção: Mimo

Um mimo é um dom. Uma dádiva. Um agrado. Uma graça. Um mimo não é nada. Mas pode ser muito. Não tem cálculo. Nem intento. Não é pensado. E, contudo: escolhido a dedo. Um mimo é generoso, gentil, delicado. Uma jóia rara. (Mas não cara). Pra alguém que faz anos. Ou sofreu desenganos. Mas também a pretexto de nada. Simplesmente porque você gostou. E lembrou de alguém que gostaria. Porque você botou o olho e pensou: é isso! Um mimo não é um objeto de desejo. Porque não é pra si. É pra outrem. E não é pra ostentar. É pra dar. Discretamente. Na cumplicidade de uma amizade. Ou na clandestinidade de um amor. Não é pra guardar como um tesouro. Porque não é pra dentro, mas pra fora. E não é da ordem da usura, mas da generosidade. É gratuito. Não espera nada em troca. Mas sem que você saiba, acaba depositado. No fundo perdido do dom universal. Até que um dia, do nada, quando menos esperava, você recebe um. E o circuito se completa, mas também recomeça. E a lei do mimo se cumpriu. Quem mima mimado será.

Por Tomaz Tadeu

E minha boca esboçou um sorriso maroto: será que estava o mundo tentando me mimar, me ensinar sobre a troca, me fazer receber o agrado?

Mas outro evento me consternou.
Conexões íntimas - quase promíscuas - fazem saltar aos olhos aquilo que sempre esteve lá (como um acontecimento), mas que só agora aparece, desvelado, quase nu.
Não é como se o Rei estivesse, de repente, despido, louco. É como se tivessem aberto a porta da casa de swing...

Num restaurante homônimo em São Paulo me sento e vejo no despretensioso papel-toalha que cobre a mesa - e que será rasgado em seguida, para guardar a recordação daquele encontro, daquela troca, daquele Escambo:

Que não seja apenas transferência mútua, barganha ou permuta
Que seja vivência, experiência,
Brilho no olhar, risada solta, aconchego, cheiro de chuva, lembrança muda
Conversa e aperto de mão, suspiro e diversão
Que seja escambo, que ultrapasse a troca
Que seja intercâmbio que não pare de girar
Que voe com o vento aonde tiver de chegar.

por Bruno Corrêa

E destaco o texto, porque foi o decalque que apareceu pra mim. Não um recalque, diga-se!

Assim, se a vida é texto, resolvo passar um marcador nos acontecimentos importantes: pra não me esquecer (Quem sabe não leio depois?); pra usar como referência (De onde tiramos nossas palavras-repetidas?); pra enviar para outras pessoas (Na vida-texto as palavras são conexões?).

Crédito da imagem: Orlando Pedroso

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Tue, 31 Jan 2012 19:56:00 -0800 Aguardar http://mateusfernandes.posterous.com/aguardar http://mateusfernandes.posterous.com/aguardar

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Os etimólogos e filólogos que me perdoem, mas aguardar é, literalmente, "não-guardar".

A-guardar, portanto, não é guardar. Pelo contrário!

A-guardar é entregar - do verbo "entregar-se".
Quem aguarda entrega-se ao que vem, e não ao que está guardado.
(Sabemos bem: o que está guardado não está solto, não está disponível, não pode ir-e-vir. Se não me acredita, pergunte ao guarda que guarda o que está guardado!)

Só se guarda o que se tem - e o que não se quer dar.
(Da guarda surge o roubo. Do guarda, o ladrão.)
Só se rouba o que não se tem - e o que não se pode receber.

A-guardar é uma entrega esperançosa que impede que se prenda no peito, que se tranque na memória - para o esquecimento ou para o ressentimento - algo prometido, algo desejado.

A-guardar pode exigir a espera, mas aquela do verbo "esperançar" - isto é, aquela que se difere da mera espera, pois não senta e descansa, não vigia, não protege.

A-guardar é lançar-se em marcha, para alcançar o esperançado, atentando-se para o que fez dar o primeiro passo, para o motivo do movimento, para a intenção da busca.

A-guardar é, então, um exercício de lembrança, que pratica-se numa entrega persistente, com a esperança de quem não desistiu, com a paciência de quem não precisa insistir.

Guarda-se segredo; guarda-se dinheiro.
Deveríamos guardar também o rancor.

A-guarda-se um beijo; a-guarda-se um amor.
Não se deve guardá-los (alguém pode roubá-los)
Não se deve emoldurá-los (eles não irão mais crescer).
Não se deve colocá-los em um pedestal.
Uma hora vem alguém e esbarra; eles caem, se quebram...

Crédito da imagem: Orlando Pedroso

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Fri, 13 Jan 2012 10:07:00 -0800 Aniversário http://mateusfernandes.posterous.com/aniversario http://mateusfernandes.posterous.com/aniversario

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Aniversário é quando se celebra a passagem de um ano - um ano pessoal e intransferível (que foi marcado pelo relógio do médico que fez seu parto, não se iluda...).
Aniversário é quando se co-memoram os acontecimentos dos últimos tempos, com as pessoas dos últimos tempos, geralmente nos últimos tempos do dia (sim, porque só sua mãe vai lhe mandar uma mensagem na hora em que você realmente nasceu, lhe dando os parabéns!).
Aniversário é um rito moderno, alavancado pela moderna exacerbação do papel do indivíduo e de sua trajetória pessoal, em que se marca o fim e o começo de um momento quase sempre privado. No entanto, é um rito coletivo, e não um retiro interior.
Como tal, lança o indivíduo diante da tarefa de lidar com o bom e o mau da vida compartida, do tempo social, do rito civilizatório.

Há algum tempo tenho deixado este rito de lado, abandonado a sua própria sorte.
A cada ano que se passava, eu viajava mais, recebia menos ligações, celebrava menos (este dia, em particular) e achava bom me retirar, por um dia pelo menos, do tempo social.

Este ano resolvi experimentar algo novo - na verdade, relembrar como era antigamente.
A experiência passa por superar antigas dificuldades em aceitar e receber: presentes, companhias, surpresas, novidades, homenagens; ausências, desconfortos, planejamentos, convites.
A experiência passa também por lidar com o problema do merecimento: merecer presentes, companhias, surpresas, um novo ano, um calendário próprio, um ritmo social, a partilha de regras coletivas.
Não é que eu não goste do reconhecimento - pelo contrário. Mas com o reconhecimento vem a exposição e, convenhamos, para um capricorniano acostumado com sua concha e seguro em sua caverna, a luz do reconhecimento pode ofuscar e dar medo. O reconhecimento não é como as palmas impessoais em um auditório, mas como um aperto de mão com olhos-nos-olhos, como um abraço apertado sem motivo aparente, como uma voz próxima lhe parabenizando por sabe-se-lá-o-quê.

De todo modo, a experiência está proposta. O desafio está lançado. E o aniversário vai chegar de qualquer modo...Quem sabe celebrando Saturno resolva me dar uma folga!

Para os "avisados", e para meu próprio registro, aí está o roteiro da experiência e o convite para a partilha dos eventos no dia 15/01, domingo:

A partir das 8h30 - Água Mineral
Pretendo iniciar o dia, ainda solitariamente (calma! é a transição!), com os pés na água corrente do Parque Nacional de Brasília. Se tudo convergir para a minha felicidade, o Sol finalmente vai dar as caras. Se não, será uma manhã fria e recolhida, mas igualmente com os pés na água - numa versão pagã do ritual de lava-pés.
Info:
Parque Nacional de Brasília – Água Mineral (preferencialmente na piscina "velha")
Rodovia BR - 040 - SMU - Via EPIA
(61) 3234-3680
Website no Guia Oficial de Brasília

A partir das 12h30 (até às 16h30) - Almoço familiar
Pra começar o dia com a benção dos santos e dos orixás, há que se fazer as devidas oferenda com cachaça e boa comida, né?
Assim, estarei confortavelmente sentado numa mesa lateral do agrabilíssimo restaurante-cachaçaria-bar-café chamado Fulô do Sertão para um almoço familiar: para resgatar laços familiares, nutrir, digerir; sem longas conversas, sem profundos pensamentos; um almoço em família, sem mais.
Amigos (que não se acanhem em partilhar do almoço "em família") são bem-vindos, ligações serão atendidas e até mesmo presentes serão bem-recebidos.
Infos:
Fulô do Sertão - Restaurante Cozinha Nordestina
SCLN 404 Bloco B. (esquina dos fundos)
(61) 3201-0129
www.fulodosertao.com.br

A partir das 17h30 (até às 21h30) - Café vegano
Porque, afinal de contas, a experiência de co-memoração também pode servir para reafirmar, no tempo presente, valores do passado.
Agora sim é a hora dos amigos, amigos dos amigos, conhecidos (e pelo menos 1 desconhecido, como no vertiginoso conto de Grégoire Bouillier, que me fez rever as comemorações de aniversário) chegarem junto.
Para celebrar os 30 verões, espero reencontrar 30 pessoas (e mais 1!) durante as boas horas em que devo ficar no Café Corbucci, tomando um cafezinho, curtindo um fim-de-tarde com seu lusco-fusco (cinza, nesses dias!) que só Brasília oferece. E, pra festejar, não precisaremos matar nenhum animal e nem deixar mães tristes sem seus queridos filhotes! Olha só que lindo... ;)
O Café fica na 203 norte e é tocado pela Marina Corbucci. É o único estabelecimento 100% vegano da cidade. Além dos cafés, cappuccinos, cervejas e vinhos, há sanduíches, pães-de-queijo-sem-queijo, tortas de chocolate, quiches e muito mais (dependendo do dia da semana) sem nenhum derivado animal que não seja a ralação de quem toca essse estabelecimento pra frente - como menciona o pessoal do "Distrito Vegetal" numa amistosa resenha aqui.
Infos:
Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53 (esquina dos fundos)
(61) 3201-1316
www.facebook.com/cafecorbucci

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

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Wed, 11 Jan 2012 11:07:00 -0800 Desculpas http://mateusfernandes.posterous.com/desculpas http://mateusfernandes.posterous.com/desculpas

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As desculpas são um dos mais poderosos instrumentos linguísticos e comportamentais que criamos para apaziguar o rumo e o ritmo irreversível da história humana.

Cosmogonicamente, fomos culpados pelo mundo que criamos, tal como o vemos. Não somos meramente criadores, mas também subversores do mundo natural. Assumida a culpa, resta saber o que fazer com ela: manter-se no conhecido padrão "punição-recompensa" ou experimentar (isto é, lembrar) do ancestral experimento da catársis e expiação, do abandono, da reconciliação possível (ou seja, da compreensão).

Desculpar-se é, antes de mais nada, desenraizar a culpa - tirá-la de seu território cômodo e profundo, lança-la à luz do ambiente superficial e vivenciar seus efeitos imediatos.
A desculpa, analogamente à palavra despedida, acontece quando se desfaz a culpa (por catarse, já que o curso da ação é irreversível mas também imprevisível).
Com a desculpa, tal como com a despedida, deixa-se de pedir (ou de culpar) o que se havia pedido (ou culpado). Não é porque nos esquecemos da culpa, mas simplesmente porque aquele acontecimento, ao qual atribuímos culpa, torna-se supérfluo, desnecessária, indesejado - como, aliás, antes o foi.
Uma despedida, como uma desculpa, no entanto, nos faz observar o acontecimento novamente. E assim, para que ocorra o perdão, precisa da lembrança.

Não se pode, infelizmente, fazer muito com a desculpa - embora o ato mesmo de desculpar-se seja poderoso.
Só se pode, quando muito, aceitar e acolher as desculpas. No limite, pode-se lembrar de agradecer pelo esforço necessário para que se ofereçam estas desculpas.

Sendo um gesto criador e, ao mesmo tempo, subversivo, as desculpas agem sempre "em mão dupla" (isto é, "com" e "contra"): só posso lançar para fora - desculpando-me "com" o outro - aquilo que já tenho dentro de mim - desculpando-me "contra" meu gesto.
Acredito que o maior e mais válido esforço deva ser concentrado em se pedir desculpas para si mesmo - porque a subversão exige um esforço adicional e complementar ao da criação.
Um pedido autêntico de desculpas - do tipo que tem uma energia interna que "aparece" para fora simplesmente porque existe - emerge como um esforço em oferecê-las. E, convenhamos, é mais fácil notar esforço do que intenção.

Para poder receber todo o benefício de um pedido de desculpas geralmente é necessário que as desculpas venham acompanhadas com "algo mais" do que simplesmente "desculpe-me".
(Lembre-se de que o esforço subversivo é complementar ao da criação; isto é, ele também cria e, portanto, deve poder apresentar essa sua "criação").
Em termos concretos, o que se espera é poder saber exatamente pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas.
Eu posso imaginar muitos motivos, mas não sei exatamente qual é o "seu" motivo.
Sem a explicitação da motivação interna, é difícil apreciar a criação - nota-se apenas a subversão. Nota-se o que foi alterado, o que é abandonado, o que é indesejado. Mas nem sempre revela-se a criação, o novo rumo e o outro ritmo que se está tentando co-criar.

Assim, sem indicar pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas, infelizmente, não se pode aproveitar completamente delas.

Mesmo assim, ainda é possível aceitá-las e acolhe-las, quando, talvez, um simples pedido e uma precária oferta de "desculpas" seja a única coisa viável no momento - em uma das vias dessa "mão dupla".
Além do mais, também é bem possível que, na outra via da "mão dupla", não se tenha forças e nem vontade de pedir e receber algo mais - que é quando a clarificação obscurece.

Falar em desculpas é falar do possível, ainda que subversivo; é falar do imprevisível, ainda que criador.

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

psiu. Resolvi fazer uma "atualização" no post, porque hoje, 10/02, estava escutando "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman, e somente agora percebi que a canção parece condensar bem o sentimento por detrás da necessidade de que as "desculpas" venham recheadas com "algo mais", para que a via de mão-dupla se torne concreta e perceptível. Nem sempre, no entanto, um pedido de "desculpas" precisa expressar-se por meio de palavras. Como Marshal Rosemberg diz, boa parte da Comunicação Não-Violenta pode ser feita sem palavras. Escute e sinta...

05_Baby_Can_I_Hold_You.mp3 Listen on Posterous

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Fri, 06 Jan 2012 21:00:00 -0800 Arna http://mateusfernandes.posterous.com/arna http://mateusfernandes.posterous.com/arna

 

Arna Mer, mulher de família judia estabelecida em Israel na década de 1950, casa-se com o palestino árabe Saliba Khamis e muda-se para a Cisjordânia. Em Jenin abre uma escola infantil de teatro, cujo cotidiano é marcado pela ocupação israelense.

Assim é a sinopse do filme "As crianças de Arna" (Arna’s Children, 2004 – Ficção – Palestina, Israel – 85 min – Direção: Juliano Mer Khamis e Danniel Danniel – Idiomas: Árabe e Hebraico), que vi hoje no Cine Brasília, como parte da mostra audiovisual do 1º Festival Internacional de Artes de Brasília.

Assim é a descrição de Arna, uma das personagens do filme que seu filho, o diretor Juliano, fez. Além dela, ele filmou as crianças que participaram do teatro durante o período de 1989 a 1996. Alguns anos depois, ele volta para ver o que aconteceu com elas. Não é nenhuma surpresa (ou seja, isso não deveria ser considerado um spoiler) constatar que várias delas morreram na Segunda Intifada.

Alguns anos depois também (mais precisamente, em abril de 2011), Juliano (1958-2011) é assassinado na porta do teatro (chamado The Freedom Theatre) que co-fundara com sua mãe, Arna (1930-1995).

Sobre esse acontecimento - e como uma homenagem póstuma - o diretor brasileiro Sílvio Tendler fez um curto documentário (Matzeiva. Uma lápide para Juliano Mer-Khamis, 2011 – Documentário – Palestina – 5 min), que foi exibido (a meu ver, inapropriadamente) antes do filme de Arna.

Os filmes, em conjunto, formam um claustrofico ambiente que tira qualquer um com o mínimo de paixão pela humanidade da zona de uma confortável ignorância. Não chegou a me doer, mas causou desconforto, pelas pancadas repetidas - tal como apregoava o velho Marley ao cantar "Hit me with music".

É daquelas coisas que você nunca sabe que acontecem, embora possa (e realmente não queira, por motivos até razoáveis) imaginar que elas devam existir. Afinal, escolas de teatro, conflitos armados, pessoas com projetos para crianças - tudo isso são "coisas" que existem por todas as partes, indiscutivelmente. O "detalhe" é juntar tudo isso num mesmo ambiente: alquimia claustrofóbica, pra mim. E, no caso, paradoxalmente libertadora...

Como mencionou a Graziella, que me acompanhou na sessão, ao final tenta-se desesperadamente buscar o ar fresco de um pouco de possível, para não sufocar-se. Com a respiração acelerada, falta respiro no final. Falta o suspiro do "possível" diante de tantas impossibilidades juntas.

Parece impossível enxergar crianças no lugar que está temporariamente ocupado por militantes-mirins, hinos de guerra cantados como canções de ninar, ódios mútuos despertados por antigos traumas e geradores de novos traumas - enfim, nada que lembre a imagem que tenho de uma "infância possível".

Parece impossível atuar com o lúdico teatro quando a realidade bate à porta de forma tão violenta e massacrante, a golpes de fuzil. Assim, é de um "outro" teatro que estamos falando, embora não menos lúdico: um teatro do possível, um teatro do oprimido (na acepção mais simples e original do termo, e não só o TO de Boal), um teatro catárdico e chocante. É um teatro de resistência (pacífica? ou seria de desobediência?) que tem na violência seu molde, seu limite, sua cerca - e é por ver a cerca que ele pode saltá-la.

E, diante disso, leio numa entrevista de Juliano à Maryam Monalisa Gharavi, em The Electronic Intifada (Tradução do Coletivo Vila Vudu, publicada aqui):

MMG: Como você responderia aos pró-sionistas que assistem ao seu filme e dizem que, apesar de sua mãe ter “reabilitado a mente árabe”, alguns dos meninos atores que se veem no filme converteram-se em “terroristas” (o que o filme também mostra)?

JMK: Essa questão é doentia. Não a sua pergunta, mas a atitude dos sionistas que supõem que o problema é a violência que as crianças praticam, não a violência da ocupação. É como inverter a pirâmide. O que me interessa é desinverter a pirâmide, com propaganda, é claro.

Nós não trabalhamos para “curar” a violência das crianças em Jenin. As crianças em Jenin não estão doentes. Tentamos encontrar meios mais produtivos, para ajudá-las, E meios mais produtivos não implicam não resistir à violência.

O que o nosso teatro tenta fazer não é se por como substituto ou alternativa à resistência palestina que luta pela libertação. É exatamente o contrário. É importante que isso fique bem claro.

Sei que essa posição não nos ajuda a conseguir financiamento, mas não somos “bons judeus” querendo ajudar “árabes”. Tampouco somos palestinos caridosos, que trazem sopa para os pobres. Nós somos da resistência. Estamos alinhados, absoluta e completamente alinhados com a resistência, com o movimento de libertação dos palestinos. A luta pela libertação dos palestinos é a nossa luta de libertação. Todos os que têm qualquer ligação com o nosso projeto sentem-se pessoalmente sob ocupação, sentem que sua vida está sob ocupação pelo movimento sionista, pelo regime militar de Israel, pelas políticas de Israel. Não importa se moramos em Jenin, em Haifa ou Tel Aviv. Ninguém que trabalha conosco trabalha para “curar” alguém. Não somos “curadores”. Não somos bons judeus, nem somos bons árabes, nem somos bons cristãos. Nós somos combatentes da liberdade da Palestina.

E, mais adiante, Juliano conclui:

Por outro lado, a arte tem uma força terapêutica, e dizer “força terapêutica” não implica dizer “poder curativo”. Essa diferença é crucial – não vemos a violência que a ocupação “ensina” aos mais jovens como uma doença. A arte não ensina ninguém a ser bom, bom cidadão, bom judeu, bom cristão. A arte aponta um caminho pelo qual esses jovens têm uma chance de aprender a usar as próprias potências a favor deles. Não contra eles mesmos.

Sem mais palavras...só o suspiro...

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Mon, 28 Nov 2011 19:23:00 -0800 Dúvida http://mateusfernandes.posterous.com/duvida http://mateusfernandes.posterous.com/duvida

Duvidas
Quando surge uma dúvida cruel, a resposta, fruto da ardilosa curiosidade*, nem sempre espanta ou redime a crueldade.

A crueldade pode estar na essência do próprio duvidar...

Para acabar com a crueldade (da dúvida, ou de quem duvida), a potência pode não estar em resistir (à crueldade), mas em desistir (de duvidar).

A desistência (como ativismo) pode ser uma saída.

Pode-se minar essa crueldade saindo-se do ciclo crueldade-resistência-crueldade. A crueldade só tende a crescer com a resistência. É quando resistência é cumplicidade, como re-existência, como o sobrevivencialismo niilista do último dos homens de Nietzsche.

Parêntesis: a desobediência civil seria uma forma de desistência? E como lidar com a denúncia de Žižek (explicada em detalhes aqui)? Ela pode ser resumida assim:

O pensamento de Foucault, Deleuze e Guattari, filósofos de ponta da resistência, que tiveram posições marginais atravessadas pelas redes de poder hegemônicas, acaba representando a ideologia das novas classes dominantes.
(Slavoj Žižek, no capítulo final do livroOrgãos sem corpos: sobre Deleuze e suas consequências”, com sublinhado meu) (Veja aqui outros trechos do livro).

A desistência (como modo de vida) pode ser uma entrada.

Entra-se em um mundo de possibilidades para o desejo, para a criação, para a novidade, efim, para a liberdade de não se ter mais nada a perder, sem dúvidas, sem medos.

Outro parêntesis: quando V encontra-se pela última vez com Evey, ainda na cela (no minuto 80 do filme), eles dialogam. E, em seguida, vem a cena "Deus está na chuva":

- Chegou a hora.
- Estou preparada.
- Escute: eles só querem alguma informação. Passe algo a eles, qualquer coisa.
- Obrigada, mas prefiro morrer atrás do setor químico.
- Então você não tem mais medo de nada. Está completamente livre.

Ao fim e ao cabo, quando já se perdeu o medo de perder, então pode-se finalmente encontrar a felicidade de achar.

E só se pode achar (e doar) aquilo que não se tem medo de perder.


* A curiosidade, para Heidegger, é uma manifestação essencial da existência anônima (isto é, imprópria) cotidiana. A curiosidade (como o falatório) não se apropria do que vê (ou do que fala). Uma vez "satisfeita" a curiosidade, acaba-se a novidade - descarta-a. A curiosidade não leva à produção (como póiesis) ou ao uso, mas ao consumo-descarte-alienação. A curiosidade é

a impermanência junto ao que está mais próximo.
(Martin Heidegger, em Ser e tempo, 3a. ed., 1989. p. 233.).

Veja aqui um textinho bacana sobre o assunto.

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Sun, 20 Nov 2011 07:32:00 -0800 Chá http://mateusfernandes.posterous.com/cha http://mateusfernandes.posterous.com/cha

Ritualizar os acontecimentos é uma forma de celebrar a vida.

Celebrar a vida é uma forma de manter-se aberto para o que vem, honrando o caminho percorrido e a contingência da caminhada.

Honrar o que passou é uma forma de conexão com o muito que há, firmando o passo nas pegadas de todos os que já passaram por aqui.

E há muitas formas de se fazer isso tudo. E, embora haja atalhos, não há um caminho fácil e curto.

Ou o caminho é fácil - e será longo; e se for longo, será entrecortado de momentos difíceis.

Ou o caminho é curto - e será duro; e se for fácil, restará a sensação de não ter chegado até o fim.

Como ouvi uma vez, no longo caminho duro de um Sesshin:

A dor não é necessária. Mas ensina.

Ontem aprendi muito. Menos do que preciso, o quanto eu consigo, e ainda talvez mais do que eu posso.

E ontem também celebrei muito.

Celebrei os batuques que dão ritmo ao meu corpo e ao meu pensamento. E aprendi que quando a mente está nas nuvens é preciso conseguir manter o ritmo, é preciso ter pés firmes pra pousar, é preciso ter terra firme para me receber e descansar.

Celebrei as cores que não vejo e que podem colorir minhas noites. Porque, ao não vê-las, torno-me mais cinza, mais soturno, menos vivo. Então, ontem aprendi que a noite também é colorida quando celebramos a noite; que o fogo é colorido quando celebramos o fogo; que a vida nem sempre é cinza e soturna, porque é viva.

Celebrei a Lua que sempre me acompanha e me guia. Lembrei-me de que, para os astrólogos, é a Lua o astro que guia o amor em minha vida: tenho um amor lunar; sou feito em fase. E aprendi, mesmo sem entender, que esta é minha parcela feminina que ainda precisa se harmonizar com o mundo feminino da qual ela parece ter sido banida. Se um amor lunar fere ciclicamente por abandono, talvez ele também possa curar reincidentemente. Preciso me lembrar que a Lua, cheia ou nova, sempre está lá no céu, mesmo durante o dia.

Celebrei o medo, e também a força que sempre lhe acompanha. A aprendi que, se não posso controlar - o medo e a força - posso tentar guiá-los nos labirintos do lá-de-dentro. Aprendi que não preciso agir sempre pelo estômago, que expele violência ao menor sinal de medo. Caminhar pode ser um bom exercício para afastar o medo; não correr (dele), mas caminhar (nele).

Celebrei o acolhimento que um lugar quente e protegido pode proporcionar. E fiz de um cobertor minha morada, provisória. E aprendi que, sendo provisória, é ainda mais importante. Quando tive medo, caminhei; quando tive frio, me cobri; quando tive calor, me abri; quando tive sono, sentei e sonhei; quando acordei, celebrei.

Celebrei o vivido, quando o vivido estava ocorrendo. Porque, ao passar, ao deixar de ser uma paisagem do pensamento, percebi que do muito que eu acabara de viver restara quase nada na memória. E celebrei a calma e a prudência com que a memória escolhe os caminhos e as paisagens que permanecem. A memória ensina a impermanência.

Mas o aprendizado de que falo aqui não é cognitivo. É só perceptivo, como uma impressão quase borrada na folha fina da memória imaginativa.
Afinal, tanto quanto um sonho, um chá é só um atalho. E tanto quanto qualquer atalho, o chá é só um expansor de caminhos - resta escolher entre os curtos caminhos duros ou os longos caminhos fáceis.

A vida começa quando a gente acorda e pode olhar para si e para o mundo, para tentar fazer do longo caminho um caminho um pouco mais fácil, e certamente mais vivo.


Deixo duas "dicas", pra quem quiser entrar no clima do chá.

Oxalá, música do grupo português Madredeus.

Cap. 24 do livro "Uma Vida Inventada", da Maitê Proença.

24_-_Uma_Vida_Inventada.mp3 Listen on Posterous

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Wed, 16 Nov 2011 11:03:00 -0800 Encontros http://mateusfernandes.posterous.com/encontros http://mateusfernandes.posterous.com/encontros

Youme
Encontros são um modo próprio de relações entre forças e fluxos de intensidades.

Encontros significativos acontecem quando estas relações criam sentidos e significados, alteram realidades, transformam visões de mundo e modificam internamente ideias e sentimentos.

Encontros podem ser como a mistura de duas nuvens, uma composição suave e bela. Uma nuvem envolve a outra, numa dança vaporosa e calma. Uma nuvem se transforma na outra, e cresce como uma terceira nuvem grande e mais cheia, chovendo às vezes, deixando cair as lágrimas de encantamento ou de angústia por uma mudança tão profunda e intensa em sua própria quantidade de nuvem. Uma nuvem é mais nuvem depois de um encontro - mas é preciso chover ao final. E assim aprende-se a admirar a fragilidade e a sutileza.

Encontros podem ser como o choque entre duas cabeças, uma dança forte e dolorosa. Um touro desafia o outro, e lança-se completamente nesse confronto. Todo o peso do corpo, toda a força do mundo estão condensados nesse ponto de toque, e o estrondo pode ser ouvido à distância e segue reverberando com o passar do tempo. Um touro é mais touro depois do choque - mas é preciso recuar ao final. E assim aprende-se a balancear a impulsividade e a paciência.

Encontros podem ser como o abraço de dois corações alojados nos peitos que os cercam e limitam. Os braços se afastam e se lançam ao redor, abrindo espaço para que o ponto de toque inicial se converta em uma linha de sensações, desde os pés que se cruzam às cabeças que se deitam sobre os ombros, passando pelos umbigos que se tocam e pelas costas que se aproximam. Um corpo encosta no outro e sente-se envolvido e acolhido. Um abraço é mais abraço quando há braços depois do toque - mas é preciso soltar ao final. E assim aprende-se a experimentar o desapego e o desprendimento.

Um encontro pode ser como um choque, como um confronto, como uma mistura, como um envolvimento, como um abraço, como um toque, como uma dança... sem juízos moralizantes, podemos aproveitar sempre de suas intensidades.

Mesmo porque é impossível manter-se indiferente em um encontro significativo. Encontros são a força modificadora da natureza e a potência destruidora do individualismo.

Do mesmo modo, o amor é um encontro entre duas almas e seus sentimentos, a paixão é um encontro entre desejos e medos, a política é um encontro entre aspirações, vocações e modos de vida, a vida é o encontro entre os seres e os devires, a liberdade é um encontro consigo, e a morte é o encontro com um limite.

Um encontro pode gerar o medo do desconhecido. E a solidariedade também pode ser efeito do medo e do sofrimento. E todo medo sucumbe diante da revelação do bem proporcionado por um encontro.

Um encontro pode gerar a alegria e o desejo pelo aberto. E o tipo de solidariedade que é gerado pelo amor promove a aproximação da liberdade - quando se é mais livre pela libertação vivida no encontro, quando as fantasias que impedem o encontro significativo são liberadas ou substituídas.

Um encontro acontece quando se partilham medos e fragilidades. Isso, que todos os humanos possuem, é também uma força agregadora; fortalece e humaniza a individualidade em um coletivo.

E da mesma forma ocorrem encontros quando se partilham sonhos e esperanças, bens recebidos ou surpresas inesperadas. Experimente promover um encontro a partir da revelação: o que o outro lhe fez, sem saber, que lhe causou um bem?

Afinal, toda vida e qualquer situação, quando narrada como uma história, se converte em uma vida possível, em um fluxo que retorna e ensina, em um espelho que reflete o passado para que vivamos melhor o futuro.

No entanto, não se pode buscar um encontro. Um encontro só pode ser "encontrado" - às vezes depois de muita espera, outras vezes quando menos se espera.

Um encontro é sempre um particípio, uma cristalização de um verbo, de uma expressão. É uma experiência passada, um acontecimento vivido; é um ponto de inflexão no contínuo da vida. E o risco de converter-se em nostalgia só pode ser evitado por novos encontros, ou pela afirmação da novidade irrepetível de todo encontro.

Depois de encontrar-se (consigo mesmo e com o outro) em um encontro significativo, fica mais clara a ideia do poeta:

Apesar de eu ainda ser sempre eu mesmo, acredito que fui mudado até a medula de meus ossos. (Goethe, em Viagem à Itália)

Para Louise e aos amigos encontrados no Encontro Nacional de Jovens Líderes 2011, em gratidão.

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Sat, 05 Nov 2011 11:16:00 -0700 Nostalgia http://mateusfernandes.posterous.com/nostalgia http://mateusfernandes.posterous.com/nostalgia

Card_era_uma_vez_400

A nostalgia é um sofrimento frágil e suave, essencialmente diverso, mais íntimo, mais humano do que as outras dores que havíamos suportado até então: frio, golpes, fome, terror, doença, privação. É uma dor límpida e clara, mas urgente: invade todos os minutos do dia, não concede outros pensamentos, e nos incita às evasões.

Assim Primo Levi descreve a nostalgia em A Trégua, belo livro em que ele fala dos tempos em que ficou preso em Auschwitz e, com o fim da guerra, perambulou "livre" pela Europa Central, sem destino certo, até poder voltar para Turim, na Itália, sua terra natal.

Tenho notado que 2011 parece ser, para diversas pessoas, um ano nostalgico; de balanços, revisitas, rememórias, recomeços. É, para bem dizer, o encerramento de uma década. E, falam as más e as boas línguas, está sendo a passagem para o fatídico ano de 2012, que tanto presume o fim do mundo quanto a entrada em uma nova Era.

Eu, que não sou dado às nostalgias, tenho me defrontado com algumas atividades que me fizeram revisitar tempos passados, seja para fechar ciclos, seja para me reconciliar com eles. Pude olhar recentemente para esta década e acompanhar partes da minha trajetória, como esforço para preparar uma cronologia de 10 anos da Rede Nacional de Jovens Líderes, que ajudei a começar no ano de 2001. E, para minha surpresa, foi sem nostalgia que pude perceber o difícil e o prazeroso que foi este tempo de boas e grandes realizações.

A nostalgia não parece ser uma saudade. E como poderia ser, se nos orgulhamos de haver "inventado" a palavra "saudade", para a qual insistimos que não há correlatos exatos em outras línguas?

A nostalgia não parece ser o desejo de retorno ao que passou, porque não raro vem acompanhada de sofrimento, mesmo que seja um humano e doce sofrimento, como diz Primo Levi. É um deslocamento, e sempre "para fora de casa".

A nostalgia não parece prestar-se à reconciliação com o que se passou, com o estranhamento que a mudança constante do mundo e dos outros indubitavelmente causa. Como disse Hannah Arendt,

toda pessoa necessita reconciliar-se com um mundo em que nasceu como estranho e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. (em A dignidade da política, 1993. p. 39)

Mas a nostalgia não se presta a essa reconciliação, pois não permite que os homens se sintam, no tempo presente, "em casa no mundo" (como menciona Arendt em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 52). E, se não vale por isso, tampouco poderia valer para ajudar-nos com atualização da compreensão do mundo, que

não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós [...]. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, 1989. p. 21)

Alegoricamente, como menciona Walter Benjamin em sua Tese 9, o passado é aquilo que, ao contrário do que sustenta o senso comum, está diante de nós porque por nós pode ser visto e lembrado, quase sempre como ruínas.
O futuro, por sua vez, seria aquilo que viria de trás, como uma tempestade que está sempre às nossas costas; impossível de prever, mas forte e instigante o suficiente para nos levar adiante.
Então, a nostalgia poderia ser descrita como um "tapa-olho" (aquela espécie de viseira que permite que se enxergue somente para frente); não impede o progresso, mas dificulta que se observe o caminho e impede que se veja os que tombaram a nosso lado.

A nostalgia surge do interesse humano em partilhar empaticamente de sua história que, no entanto, é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores: e quem não quer ser um vencedor em sua própria história? Mas, como alertou Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

De quê serve então este sentimento tão avassalador quanto inútil e evasivo, tão frágil quanto dominador, tão suave quanto pungente; que vem não se sabe de onde e ao qual não se pode humanamente resistir?

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Tue, 01 Nov 2011 17:04:00 -0700 Politicando http://mateusfernandes.posterous.com/politicando http://mateusfernandes.posterous.com/politicando

Cambiandoelmundo_pq

O que "política" se tornou hoje?

Quiçá pudera ter-se tornado um verbo, politicar, mais do que um substantivo, a política.
Assim, falaria mais da "expressão" de um acontecimento cujo sentido é partilhado entre muitos, do que de uma "substância" que existe, em algum lugar, e que é nomeada pelos poucos que a tocam.
E, se o verbo estivesse no gerúndio, traço de algo que ainda acontece no tempo, vindo do passado e cortando o presente, rumo a sua manutenção no futuro - embora tenha-se tentado abolir os excessos de seu (mal) uso - então falaríamos de um acontecimento que, em efeito, acontece. Porque o que é político segue "acontecendo".
Bem, então aqui eu quero tratar é do "politicando" mesmo...com as devidas licenças poéticas!

Vejo que, anteriormente, quando um(a) jovem queria se envolver na política, ele ou ela se filiava a um partido e pronto.
Estava ali a oportunidade para ver o mundo de uma outra perspectiva, que não era mais solipsista e nem somente contemplativa ou introspectiva.
Hoje, ao contrário, vejo que há pessoas querendo se envolver com a política e que, nessa aproximação, apresentam uma declaração do TSE provando a não-vinculação partidária - como se fosse um certificado de "idoneidade" ou de "antecedentes criminais". Um egresso das fileiras partidárias não é mais visto como outrora.
Será essa a tal de ? Espero não ter de sustentar minha dúvida por muito mais tempo...

De todo modo, num misto de prazer individual com dever cívico, numa mistura de alegria esperançosa com algum precavido ceticismo, num necessário olhar-e-ajustar as velas quando chega o vento que parece querer mudar a rota, resolvi fazer o que há muito tempo venho querendo exercitar: a escrita coletiva.
Partilhar o pensamento é até fácil (é?), mas difícil mesmo é traduzir em palavras aquilo que surge "entre" o pensamento e a expressão.
E, como disse muitas vezes Hannah Arent, é justamente desse intervalo entre eu-e-o-outro que surge a política - e é efetivamente nesse espaço que ela pode ser vista e praticada, no gerúndio e em coletivo.

Havia tido breve conversas com pessoas amigas - próximas o suficiente para partilharmos ideias sem medo, e distantes no tanto necessário para que as opiniões não fossem inadvertidamente as mesmas e, portanto, insuficientes - sobre as eleições para o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília.

A partir disso, montei um breve esquema, bem ao modo kantiano, que me desse condições de possibilidade para pensar sobre o que estava ocorrendo por aqui e, com isso, praticar o tipo de reflexão crítica que é uma síntese entre teoria e prática; que seja a própria práxis política do observador.

Convidei a Graziella, companheira de mestrado, para escrevermos um texto a quatro mãos e para pensarmos a partir de, pelo menos, dois espíritos.
Mas o que isso quer dizer?
Sem pretensões exageradas, vi isso ser muito bem feito por Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Mas, como fazer? Como repetir a experiência?
Só me pareceu que havia uma resposta possível: experimentando, no gerúndio e em coletivo.

A partir do esquema, escrevi um texto, pseudo-completo (ou seja, deveria ter começo-meio-fim), e logo pedi que a Graziella escrevesse o seu. Então, poderíamos fazer uma colagem.
E as decisões sobre o que entra e o que sai, sobre o que muda e para o quê muda, todas elas deveriam ser tomadas por consenso (e há vários tipos; veja um aqui).
Explico-me (ou então veja um vídeo e uma oficina pra uma outra explicação): partilhando dos mesmos princípios (o esquema) e querendo alcançar o mesmo objetivo (o texto), o modo como alcançaríamos o resultado não se preocupou com os detalhes de conteúdo (o "lado" de cada um), mas com o "processo" de alfabetização democrática.
Isto é, a menos que um de nós dois tivesse motivos suficientes (e, veja bem, isso não significa necessariamente motivos "razoáveis") para "bloquear" a proposta do outro, então tudo seria efetivamente aproveitado e colado.

No fundo, partilhamos da crença de que a política democrática não é uma questão de lado, mas de modo. E, para isso, a votação como "processo" nem sempre é a forma mais democrática de escolha.

Ao fim e ao cabo, não quero saber o que "política" se tornou hoje. Não quero dar uma resposta "filosófica" a esta questão.
Assim, como ensinou Deleuze, quero "sair da filosofia, mas quero sair como um filósofo", isto é, pela experiência (política) da reflexão crítica sobre o que acontece quando as pessoas fazem política.

Bem, o resultado da primeira parte (de 5 exercícios previstos) está no blog que a Graziella mantém aqui no posterous: http://politicando.posterous.com/

Boas leituras!

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Mon, 31 Oct 2011 15:15:00 -0700 Swaraj http://mateusfernandes.posterous.com/swaraj http://mateusfernandes.posterous.com/swaraj

Os últimos posts acabaram envolvendo a questão "indivíduo vs. coletivo" de algum modo. E me parece realmente uma questão intrigante.

E, como exercício de serendipidade, hoje me dei o prazer de transcrever e traduzir um vídeo que me chegou pelo link tuitado pelo Augusto.

O vídeo é a gravação de uma fala de 1 minuto e meio em que Manish Jain - um indiano co-fundador da Shikshantar em Udaipur, a cidade mais rica da Índia - apresenta sua visão sobre a noção de Gandhi para o "Swaraj" (autogoverno ou autonomia), que honra a relação entre individualidade e o coletivo. Bom pra seguir na reflexão...

Segue a transcrição do vídeo:

The idea of Swaraj grows out of the Indian freedom struggle. It's a term Gandhi had coined in his book "Hind Swaraj" (Hindi Swaraj or Indian Home Rule).
Swaraj means "swa" - it's two parts: "swa" and "raj" - so "swa" means "self" and it has a very beautiful acknowledgement of the duality our being. So, a individual, unique, beautiful self. As well as our interconnected self, our collective self. Our self which is embodied in the trees, and in the soil, and in the water, in each other, and in the butterflies, and in all the wonderful beings on the planet.
And "raj" means "rule over", also with connotations of "awareness", "self-awareness", of "self-mastery", and of a kind of a radiance of self, that exist.
When Gandhi talked about Swaraj he also talked about his vision of the dominant system we live in as a dying system, and the need to actually start to - as part of, very much part of the freedom struggle - is to start the movement to create new systems in the world.
And hands are quest for Swaraj.

 

O vídeo:

Manish Jain on Swaraj from Deborah Frieze on Vimeo.

E a tradução:

A idéia de Swaraj surge da luta pela liberdade na Índia. É um termo cunhado por Gandhi em seu livro "Hindi Swaraj" (Hind Swaraj: Autogoverno da Índia).
Swaraj significa "swa" - a palavra é dividida em duas partes: "swa" e "raj" - assim "swa" significa "eu" e dá um reconhecimento muito bonito à dualidade nosso ser: então, é o "self" individual, único e belo, bem como nosso "self" interligado, nosso ser coletivo. Nosso ser que está incorporado nas árvores e no solo e na água, no outro, e nas borboletas, e em todos os seres maravilhosos do planeta.
E "raj" significa "governar", também com conotações de "consciência", "auto-consciência", de "auto-domínio", e de uma espécie de brilho do "self", que existe.
Quando Gandhi falou sobre Swaraj ele também falou sobre sua visão do sistema dominante em que vivemos como um sistema moribundo, e a necessidade de realmente começar a - como parte da, como uma parte muito importante, da luta pela liberdade - iniciar o movimento para criar novos sistemas no mundo.
E as mãos são uma busca por Swaraj (ou "E as mão estão em busca de Swaraj").

E com o que mais isso se parece?
Quem mais fala sobre isso, assim?

Por vários motivos, me lembrou a abordagem de Heidegger sobre o "Dasein" (ser-aí) como um "ser-com" ou um "ser-no-mundo" e também a ideia de Foucault sobre o "cuidado de si". Mas isso é tema pra um outro post, talvez...

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Sat, 29 Oct 2011 21:52:00 -0700 Individualismo http://mateusfernandes.posterous.com/individualismo http://mateusfernandes.posterous.com/individualismo

O individualismo é uma doença.
E, se não for uma doença, é só uma ideologia ou uma religião. Degenerativo, pois dogmático, igualmente.

E quem diz isso é o próprio sufixo -ismo, apoiado pelos gramáticos e filólogos.

Todo individualismo é machista (e todo machismo é individualista): vive à sombra do patriarcado e naturaliza-se neste sistema.

Como lidar, então, com abordagens que enfocam o "poder do indivíduo" sem considerarem uma necessária reconciliação com o coletivo?

A constante afirmação do poder do indivíduo - e, em particular, de seu poder de alterar o mundo na mudança de si mesmo - tangencia pensamentos que vão desde Gandhi - "Seja a mudança que quer ver no mundo" - até os de um psicanalista junguiano como Hollis, que acredita que "a mudança suprema ocorra por meio do indivíduo" e que "a ação do grupo  não pode ser mais eficaz do que a soma das consciências individuais que chegam até ele".

Afinal, num mundo ainda tão masculinista, a grande "sombra de Saturno"(ou Cronos) - que é a mancha presente do patriarcado - mantém-se como um fardo que se deve carregar conscientemente, como indica Hollis.
E, ao que tudo indica, o valor de que se deve carrega-lo enquanto indivíduo parece ser absoluto, resoluto e inquestionável, mesmo que estejamos em grupo, mesmo que convivamos sempre com um coletivo, mesmo que sejamos, fundamentalmente, sociais e interdependentes.

O que muda, então?
Alteramos os sintomas visíveis, mas a doença ainda está instalada.

Um adendo: a individualidade, diferentemente do individualismo, é uma propriedade ou uma potência do indivíduo de, justamente, individuar-se ("tornar-se quem se é", como disse Clarice). E, sendo assim, é uma experiência e uma aprendizagem cuja finalidade é o seu próprio exercício, sempre intrinsecamente relacional (pois vive-se a individualidade "com" e experimenta-se "entre" outros). Mas isso é tema pra outro post...

*curiosidade: O tema de Saturno está relacionado, segundo Freud, com a melancolia e com a destruição, temas que já abordei aqui (por puro acaso?).

**serviço: O livro de James Hollis se chama "Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens" e pode ser encontrado aqui (en) e aqui (pt-br). Os trechos citados estão nas pp. 35-36 da edição em pt-br.

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Fri, 28 Oct 2011 12:56:00 -0700 Privilégio http://mateusfernandes.posterous.com/privilegio http://mateusfernandes.posterous.com/privilegio

Privilégio é aquela experiência a que temos acesso quando desmontamos a ordem impessoal que ordena cosmologicamente as coisas do mundo.
Assim, uma situação torna-se pessoal (por meio do "jeitinho", por exemplo) pois que favorece nossa condição particular em um determinado instante de caos (i. e., des-ordem).

Um privilégio é maléfico, socialmente falando, quando deixa de ser temporário e contingente, e pretende instalar-se novamente na ordem do cosmos.
De outro modo, o privilégio é apenas uma possível reorganização temporária do mundo, centrada no homem enquanto particular, e não em leis impessoais e gerais.
Ainda assim, desta forma é sempre um desafio que indivíduo apresenta ao coletivo - o que pode favorecer o reforço dos laços de reciprocidade.

O privilégio, portanto, deve ser vivido como uma sensação relacional ("sinto-me privilegiado") e não como a possessão de capacidades ("tenho privilégios").
Insere-se, então, na lógica da abundância, partihando de propriedades com a dádiva, quando mais se tem quanto mais se dá.

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Thu, 27 Oct 2011 09:16:00 -0700 Melancolia http://mateusfernandes.posterous.com/melancolia http://mateusfernandes.posterous.com/melancolia

Ontem fui assistir ao filme "Melancholia", de Lars von Trier.

Há algum tempo eu escrevi sobre a melancolia também. Pensava em outra coisa que não no fim do mundo. Mas, de algum modo, me parece agora curioso observar que cada evento melancolicamente relembrado pode ser mesmo um "dead point", um "ponto final". Nestes momentos, isto é, ao final de cada ato, que tipos de rituais iremos escolher para preenchermos nossa realidade?: podemos perdoar o que passou, como se disséssemos que aquilo era mesmo possível, mesmo que fosse antes inimaginável?; ou iremos até a fronteira da compreensão, tentando meramente uma reconciliação com o que sucedeu, mesmo desejando que nunca houvesse acontecido e que nunca torne a acontecer?

Melancolia é um filme sobre o fim do mundo (embora o diretor afirme ser um filme sobre "um estado de espírito"). Exige a paciência de aguardar pelo final esperado, como se esperássemos que, diante de um quadro emoldurado, a paisagem ali pintada pudesse mudar de cor, seus personagens pudessem mover-se um pouco; como se tudo pudesse passar a, simplesmente, acontecer. Exige a força de não ser derrotado. E há várias forças que me arrastavam para a derrota - e para a porta de saída: a indigna declaração do diretor; a esquiza, inquieta e nauseante câmera; a confusa edição (veja abaixo a possibilidade de ser um "sonho").

E isso tudo só fez mesmo sentido quando vi o que o diretor tinha a dizer sobre o filme:

it looks like shit. I’m shaken. [...] But what was it I wanted? With a state of mind as my starting point, I desired to dive headlong into the abyss of German romanticism. Wagner in spades. That much I know. But is that not just another way of expressing defeat?

(Isso está uma porcaria. Estou abalado. [...] Mas o que eu queria? Com um estado de espírito como o meu ponto de partida, quis mergulhar de cabeça no abismo do romantismo alemão. Wagner em espadas. É tudo que sei. Mas esta não é apenas uma outra maneira de expressar a derrota?)

O filme é divido em duas partes: "Justine" e "Claire" (e há quem divida também entre "Inconsciente" e "Consciente", entre "sonho" e "realidade" - o que me pareceu bem possível).
Não seria sem propósito acreditar que a "Justeza" está em "Justine", e aí (ou seja, nela) junta-se tudo: a inadequação, a impulsividade/impetuosidade (e qual é mesmo a diferença?), a hýbris, a certeza-não-científica-meio-místico-esotérica, o titanismo-fáustico (que ainda sim sucumbe momentanemente à depressão), a solidão de saber-se "assim", des-iludida; enfim, a melancolia.
Já em "Claire", para mim, assenta-se a "Clareza", mas daquela clareza que ofusca, que brilha como pirita, que é alva e branca e, por isso mesmo, sem cor e sem matiz; uma clareza-normótico-científica, que será destruída ao longo do filme. E, com a destruição desse tipo de clareza, destrói-se a segurança-insólida, a calma-passiva e também a desmesura (capitalista?); afinal, "a Terra é má".
Em "Claire" há um libelo contra as verdades-científicas, há uma ode à gaia-ciência sustentada por Justine, um apelo ao conhecimento sutil que faz Justine permanecer impavidamente tranquila e segura de si, dentro de sua caverna secreta, quando Melancholia está prestes a se chocar com a Terra.

Qual seria o seu ritual se o mundo fosse acabar amanhã?
Tomar uma taça de vinho no terraço, escutando música e pretendendo-se feliz?
Sentar-se em uma despojada caverna invisível, feita de gravetos, de frente para o perigo, livre no espaço, de mãos dadas e com o semblante melancolicamente tranquilo?

Com quem você estaria quando chegasse o fim?
Com aquela pessoa que você ama agora?
Com aquela pessoa que você sempre amou?
Sozinho, consigo? Com medo ou seguro de si?
(Veja aqui o que já comentaram sobre isso)

Inevitavelmente me surgiram duas lembranças assim que filme terminou. O recém-feito discurso de Slavoj Žižek no Occupy Wall Street, em que ele curiosamente diz:

It is easy for us to imagine the end of the world—see numerous apocalyptic films -, but not end of capitalism.

(É fácil para nós imaginarmos o fim do mundo - veja os vários filmes apocalípticos -, mas não o fim do capitalismo.)

E a velha música do Paulinho Moska (que agora, sei-lá-porque, se chama Moska), intitulada "O Último dia".

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria

Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...

Andariam de mãos dadas von Trier, Moska e Justine?

E enquanto o fim não chega, o que você faz com os "pontos finais"?

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Tue, 25 Oct 2011 16:55:00 -0700 Impulsivo http://mateusfernandes.posterous.com/impulsivo http://mateusfernandes.posterous.com/impulsivo

1150307880_f
Nunca fui fã de Clarice. Bem ao contrário, aliás...

Das noites obrigatoriamente passadas com G.H., das horas tentando desatar os Laços de Família, dos desgastes com A Hora da Estrela... no fim, nunca estive mesmo Perto do Coração Selvagem de Clarice.

Até que me surgiu a oportunidade de revisitar Clarice. E como uma visita despropositada é sempre mais benéfica - ao menos para quem visita, deixei-me levar pelas letras tortas e frases inacabadas de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".

É claro, vão pregar os críticos, que no dizer do título já está a escolha pelo tema. Ou se lê (e se vive) que é um livro sobre a aprendizagem, ou então se percebe uma estória sobre os prazeres. Ou se toma o lugar de Ulisses, ou mais bem se está com Lóri.

E não é que Lóri vai dizer-se "eu"? Será uma intimação (ou seria, antes, uma intimidação)?

Identificado - por motívos óbvios de "lugar de fala" e de "deformacão profissional" - com Ulisses, a leitura foi uma vertigem - no melhor estilo Hitchcock - para dentro do que poderia ser "o ponto de vista do Outro". Oras querendo ser Lóri, oras só dando conta de ser Ulisses, oras sendo, simplesmente sendo, "eu".

E me deparei novamente com Clarice. E entendi (ou nem bem comecei a entender?) que as coisas têm hora. Hora como Kairós. E então me chega esse fragmento intitulado "Temperamento impulsivo" - em parte autobiográfico, em parte um trecho de uma crônica - que me revela como e porquê essa aproximação (só) no tempo do agora se deu:

"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei".

Assim que terminei o tal do livro, comecei logo outro (pra não dar tempo de "lembrar" do anterior?), que se chama "Sob a Sombra de Saturno: a Ferida e a Cura dos Homens". Ganhei quando fazia exatamente 29 anos e 9 meses. Ou seja, a 3 meses dos 30 anos. Simbólico? Bem, é um livro junguiano...me pareceu adequado.

O caso é que essa impulsividade, posivelmente equivalente a um comportamento infantil (ou pouco maduro), é a temática da vez. E de um outro post talvez...

Crédito da imagem: Orlando Pedroso.

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