Tema criado por Cory Watilo

Desculpas

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As desculpas são um dos mais poderosos instrumentos linguísticos e comportamentais que criamos para apaziguar o rumo e o ritmo irreversível da história humana.

Cosmogonicamente, fomos culpados pelo mundo que criamos, tal como o vemos. Não somos meramente criadores, mas também subversores do mundo natural. Assumida a culpa, resta saber o que fazer com ela: manter-se no conhecido padrão "punição-recompensa" ou experimentar (isto é, lembrar) do ancestral experimento da catársis e expiação, do abandono, da reconciliação possível (ou seja, da compreensão).

Desculpar-se é, antes de mais nada, desenraizar a culpa - tirá-la de seu território cômodo e profundo, lança-la à luz do ambiente superficial e vivenciar seus efeitos imediatos.
A desculpa, analogamente à palavra despedida, acontece quando se desfaz a culpa (por catarse, já que o curso da ação é irreversível mas também imprevisível).
Com a desculpa, tal como com a despedida, deixa-se de pedir (ou de culpar) o que se havia pedido (ou culpado). Não é porque nos esquecemos da culpa, mas simplesmente porque aquele acontecimento, ao qual atribuímos culpa, torna-se supérfluo, desnecessária, indesejado - como, aliás, antes o foi.
Uma despedida, como uma desculpa, no entanto, nos faz observar o acontecimento novamente. E assim, para que ocorra o perdão, precisa da lembrança.

Não se pode, infelizmente, fazer muito com a desculpa - embora o ato mesmo de desculpar-se seja poderoso.
Só se pode, quando muito, aceitar e acolher as desculpas. No limite, pode-se lembrar de agradecer pelo esforço necessário para que se ofereçam estas desculpas.

Sendo um gesto criador e, ao mesmo tempo, subversivo, as desculpas agem sempre "em mão dupla" (isto é, "com" e "contra"): só posso lançar para fora - desculpando-me "com" o outro - aquilo que já tenho dentro de mim - desculpando-me "contra" meu gesto.
Acredito que o maior e mais válido esforço deva ser concentrado em se pedir desculpas para si mesmo - porque a subversão exige um esforço adicional e complementar ao da criação.
Um pedido autêntico de desculpas - do tipo que tem uma energia interna que "aparece" para fora simplesmente porque existe - emerge como um esforço em oferecê-las. E, convenhamos, é mais fácil notar esforço do que intenção.

Para poder receber todo o benefício de um pedido de desculpas geralmente é necessário que as desculpas venham acompanhadas com "algo mais" do que simplesmente "desculpe-me".
(Lembre-se de que o esforço subversivo é complementar ao da criação; isto é, ele também cria e, portanto, deve poder apresentar essa sua "criação").
Em termos concretos, o que se espera é poder saber exatamente pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas.
Eu posso imaginar muitos motivos, mas não sei exatamente qual é o "seu" motivo.
Sem a explicitação da motivação interna, é difícil apreciar a criação - nota-se apenas a subversão. Nota-se o que foi alterado, o que é abandonado, o que é indesejado. Mas nem sempre revela-se a criação, o novo rumo e o outro ritmo que se está tentando co-criar.

Assim, sem indicar pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas, infelizmente, não se pode aproveitar completamente delas.

Mesmo assim, ainda é possível aceitá-las e acolhe-las, quando, talvez, um simples pedido e uma precária oferta de "desculpas" seja a única coisa viável no momento - em uma das vias dessa "mão dupla".
Além do mais, também é bem possível que, na outra via da "mão dupla", não se tenha forças e nem vontade de pedir e receber algo mais - que é quando a clarificação obscurece.

Falar em desculpas é falar do possível, ainda que subversivo; é falar do imprevisível, ainda que criador.

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

psiu. Resolvi fazer uma "atualização" no post, porque hoje, 10/02, estava escutando "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman, e somente agora percebi que a canção parece condensar bem o sentimento por detrás da necessidade de que as "desculpas" venham recheadas com "algo mais", para que a via de mão-dupla se torne concreta e perceptível. Nem sempre, no entanto, um pedido de "desculpas" precisa expressar-se por meio de palavras. Como Marshal Rosemberg diz, boa parte da Comunicação Não-Violenta pode ser feita sem palavras. Escute e sinta...

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