Tema criado por Cory Watilo

Aguardar

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Os etimólogos e filólogos que me perdoem, mas aguardar é, literalmente, "não-guardar".

A-guardar, portanto, não é guardar. Pelo contrário!

A-guardar é entregar - do verbo "entregar-se".
Quem aguarda entrega-se ao que vem, e não ao que está guardado.
(Sabemos bem: o que está guardado não está solto, não está disponível, não pode ir-e-vir. Se não me acredita, pergunte ao guarda que guarda o que está guardado!)

Só se guarda o que se tem - e o que não se quer dar.
(Da guarda surge o roubo. Do guarda, o ladrão.)
Só se rouba o que não se tem - e o que não se pode receber.

A-guardar é uma entrega esperançosa que impede que se prenda no peito, que se tranque na memória - para o esquecimento ou para o ressentimento - algo prometido, algo desejado.

A-guardar pode exigir a espera, mas aquela do verbo "esperançar" - isto é, aquela que se difere da mera espera, pois não senta e descansa, não vigia, não protege.

A-guardar é lançar-se em marcha, para alcançar o esperançado, atentando-se para o que fez dar o primeiro passo, para o motivo do movimento, para a intenção da busca.

A-guardar é, então, um exercício de lembrança, que pratica-se numa entrega persistente, com a esperança de quem não desistiu, com a paciência de quem não precisa insistir.

Guarda-se segredo; guarda-se dinheiro.
Deveríamos guardar também o rancor.

A-guarda-se um beijo; a-guarda-se um amor.
Não se deve guardá-los (alguém pode roubá-los)
Não se deve emoldurá-los (eles não irão mais crescer).
Não se deve colocá-los em um pedestal.
Uma hora vem alguém e esbarra; eles caem, se quebram...

Crédito da imagem: Orlando Pedroso

Aniversário

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Aniversário é quando se celebra a passagem de um ano - um ano pessoal e intransferível (que foi marcado pelo relógio do médico que fez seu parto, não se iluda...).
Aniversário é quando se co-memoram os acontecimentos dos últimos tempos, com as pessoas dos últimos tempos, geralmente nos últimos tempos do dia (sim, porque só sua mãe vai lhe mandar uma mensagem na hora em que você realmente nasceu, lhe dando os parabéns!).
Aniversário é um rito moderno, alavancado pela moderna exacerbação do papel do indivíduo e de sua trajetória pessoal, em que se marca o fim e o começo de um momento quase sempre privado. No entanto, é um rito coletivo, e não um retiro interior.
Como tal, lança o indivíduo diante da tarefa de lidar com o bom e o mau da vida compartida, do tempo social, do rito civilizatório.

Há algum tempo tenho deixado este rito de lado, abandonado a sua própria sorte.
A cada ano que se passava, eu viajava mais, recebia menos ligações, celebrava menos (este dia, em particular) e achava bom me retirar, por um dia pelo menos, do tempo social.

Este ano resolvi experimentar algo novo - na verdade, relembrar como era antigamente.
A experiência passa por superar antigas dificuldades em aceitar e receber: presentes, companhias, surpresas, novidades, homenagens; ausências, desconfortos, planejamentos, convites.
A experiência passa também por lidar com o problema do merecimento: merecer presentes, companhias, surpresas, um novo ano, um calendário próprio, um ritmo social, a partilha de regras coletivas.
Não é que eu não goste do reconhecimento - pelo contrário. Mas com o reconhecimento vem a exposição e, convenhamos, para um capricorniano acostumado com sua concha e seguro em sua caverna, a luz do reconhecimento pode ofuscar e dar medo. O reconhecimento não é como as palmas impessoais em um auditório, mas como um aperto de mão com olhos-nos-olhos, como um abraço apertado sem motivo aparente, como uma voz próxima lhe parabenizando por sabe-se-lá-o-quê.

De todo modo, a experiência está proposta. O desafio está lançado. E o aniversário vai chegar de qualquer modo...Quem sabe celebrando Saturno resolva me dar uma folga!

Para os "avisados", e para meu próprio registro, aí está o roteiro da experiência e o convite para a partilha dos eventos no dia 15/01, domingo:

A partir das 8h30 - Água Mineral
Pretendo iniciar o dia, ainda solitariamente (calma! é a transição!), com os pés na água corrente do Parque Nacional de Brasília. Se tudo convergir para a minha felicidade, o Sol finalmente vai dar as caras. Se não, será uma manhã fria e recolhida, mas igualmente com os pés na água - numa versão pagã do ritual de lava-pés.
Info:
Parque Nacional de Brasília – Água Mineral (preferencialmente na piscina "velha")
Rodovia BR - 040 - SMU - Via EPIA
(61) 3234-3680
Website no Guia Oficial de Brasília

A partir das 12h30 (até às 16h30) - Almoço familiar
Pra começar o dia com a benção dos santos e dos orixás, há que se fazer as devidas oferenda com cachaça e boa comida, né?
Assim, estarei confortavelmente sentado numa mesa lateral do agrabilíssimo restaurante-cachaçaria-bar-café chamado Fulô do Sertão para um almoço familiar: para resgatar laços familiares, nutrir, digerir; sem longas conversas, sem profundos pensamentos; um almoço em família, sem mais.
Amigos (que não se acanhem em partilhar do almoço "em família") são bem-vindos, ligações serão atendidas e até mesmo presentes serão bem-recebidos.
Infos:
Fulô do Sertão - Restaurante Cozinha Nordestina
SCLN 404 Bloco B. (esquina dos fundos)
(61) 3201-0129
www.fulodosertao.com.br

A partir das 17h30 (até às 21h30) - Café vegano
Porque, afinal de contas, a experiência de co-memoração também pode servir para reafirmar, no tempo presente, valores do passado.
Agora sim é a hora dos amigos, amigos dos amigos, conhecidos (e pelo menos 1 desconhecido, como no vertiginoso conto de Grégoire Bouillier, que me fez rever as comemorações de aniversário) chegarem junto.
Para celebrar os 30 verões, espero reencontrar 30 pessoas (e mais 1!) durante as boas horas em que devo ficar no Café Corbucci, tomando um cafezinho, curtindo um fim-de-tarde com seu lusco-fusco (cinza, nesses dias!) que só Brasília oferece. E, pra festejar, não precisaremos matar nenhum animal e nem deixar mães tristes sem seus queridos filhotes! Olha só que lindo... ;)
O Café fica na 203 norte e é tocado pela Marina Corbucci. É o único estabelecimento 100% vegano da cidade. Além dos cafés, cappuccinos, cervejas e vinhos, há sanduíches, pães-de-queijo-sem-queijo, tortas de chocolate, quiches e muito mais (dependendo do dia da semana) sem nenhum derivado animal que não seja a ralação de quem toca essse estabelecimento pra frente - como menciona o pessoal do "Distrito Vegetal" numa amistosa resenha aqui.
Infos:
Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53 (esquina dos fundos)
(61) 3201-1316
www.facebook.com/cafecorbucci

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

Desculpas

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As desculpas são um dos mais poderosos instrumentos linguísticos e comportamentais que criamos para apaziguar o rumo e o ritmo irreversível da história humana.

Cosmogonicamente, fomos culpados pelo mundo que criamos, tal como o vemos. Não somos meramente criadores, mas também subversores do mundo natural. Assumida a culpa, resta saber o que fazer com ela: manter-se no conhecido padrão "punição-recompensa" ou experimentar (isto é, lembrar) do ancestral experimento da catársis e expiação, do abandono, da reconciliação possível (ou seja, da compreensão).

Desculpar-se é, antes de mais nada, desenraizar a culpa - tirá-la de seu território cômodo e profundo, lança-la à luz do ambiente superficial e vivenciar seus efeitos imediatos.
A desculpa, analogamente à palavra despedida, acontece quando se desfaz a culpa (por catarse, já que o curso da ação é irreversível mas também imprevisível).
Com a desculpa, tal como com a despedida, deixa-se de pedir (ou de culpar) o que se havia pedido (ou culpado). Não é porque nos esquecemos da culpa, mas simplesmente porque aquele acontecimento, ao qual atribuímos culpa, torna-se supérfluo, desnecessária, indesejado - como, aliás, antes o foi.
Uma despedida, como uma desculpa, no entanto, nos faz observar o acontecimento novamente. E assim, para que ocorra o perdão, precisa da lembrança.

Não se pode, infelizmente, fazer muito com a desculpa - embora o ato mesmo de desculpar-se seja poderoso.
Só se pode, quando muito, aceitar e acolher as desculpas. No limite, pode-se lembrar de agradecer pelo esforço necessário para que se ofereçam estas desculpas.

Sendo um gesto criador e, ao mesmo tempo, subversivo, as desculpas agem sempre "em mão dupla" (isto é, "com" e "contra"): só posso lançar para fora - desculpando-me "com" o outro - aquilo que já tenho dentro de mim - desculpando-me "contra" meu gesto.
Acredito que o maior e mais válido esforço deva ser concentrado em se pedir desculpas para si mesmo - porque a subversão exige um esforço adicional e complementar ao da criação.
Um pedido autêntico de desculpas - do tipo que tem uma energia interna que "aparece" para fora simplesmente porque existe - emerge como um esforço em oferecê-las. E, convenhamos, é mais fácil notar esforço do que intenção.

Para poder receber todo o benefício de um pedido de desculpas geralmente é necessário que as desculpas venham acompanhadas com "algo mais" do que simplesmente "desculpe-me".
(Lembre-se de que o esforço subversivo é complementar ao da criação; isto é, ele também cria e, portanto, deve poder apresentar essa sua "criação").
Em termos concretos, o que se espera é poder saber exatamente pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas.
Eu posso imaginar muitos motivos, mas não sei exatamente qual é o "seu" motivo.
Sem a explicitação da motivação interna, é difícil apreciar a criação - nota-se apenas a subversão. Nota-se o que foi alterado, o que é abandonado, o que é indesejado. Mas nem sempre revela-se a criação, o novo rumo e o outro ritmo que se está tentando co-criar.

Assim, sem indicar pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas, infelizmente, não se pode aproveitar completamente delas.

Mesmo assim, ainda é possível aceitá-las e acolhe-las, quando, talvez, um simples pedido e uma precária oferta de "desculpas" seja a única coisa viável no momento - em uma das vias dessa "mão dupla".
Além do mais, também é bem possível que, na outra via da "mão dupla", não se tenha forças e nem vontade de pedir e receber algo mais - que é quando a clarificação obscurece.

Falar em desculpas é falar do possível, ainda que subversivo; é falar do imprevisível, ainda que criador.

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

psiu. Resolvi fazer uma "atualização" no post, porque hoje, 10/02, estava escutando "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman, e somente agora percebi que a canção parece condensar bem o sentimento por detrás da necessidade de que as "desculpas" venham recheadas com "algo mais", para que a via de mão-dupla se torne concreta e perceptível. Nem sempre, no entanto, um pedido de "desculpas" precisa expressar-se por meio de palavras. Como Marshal Rosemberg diz, boa parte da Comunicação Não-Violenta pode ser feita sem palavras. Escute e sinta...

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Arna

 

Arna Mer, mulher de família judia estabelecida em Israel na década de 1950, casa-se com o palestino árabe Saliba Khamis e muda-se para a Cisjordânia. Em Jenin abre uma escola infantil de teatro, cujo cotidiano é marcado pela ocupação israelense.

Assim é a sinopse do filme "As crianças de Arna" (Arna’s Children, 2004 – Ficção – Palestina, Israel – 85 min – Direção: Juliano Mer Khamis e Danniel Danniel – Idiomas: Árabe e Hebraico), que vi hoje no Cine Brasília, como parte da mostra audiovisual do 1º Festival Internacional de Artes de Brasília.

Assim é a descrição de Arna, uma das personagens do filme que seu filho, o diretor Juliano, fez. Além dela, ele filmou as crianças que participaram do teatro durante o período de 1989 a 1996. Alguns anos depois, ele volta para ver o que aconteceu com elas. Não é nenhuma surpresa (ou seja, isso não deveria ser considerado um spoiler) constatar que várias delas morreram na Segunda Intifada.

Alguns anos depois também (mais precisamente, em abril de 2011), Juliano (1958-2011) é assassinado na porta do teatro (chamado The Freedom Theatre) que co-fundara com sua mãe, Arna (1930-1995).

Sobre esse acontecimento - e como uma homenagem póstuma - o diretor brasileiro Sílvio Tendler fez um curto documentário (Matzeiva. Uma lápide para Juliano Mer-Khamis, 2011 – Documentário – Palestina – 5 min), que foi exibido (a meu ver, inapropriadamente) antes do filme de Arna.

Os filmes, em conjunto, formam um claustrofico ambiente que tira qualquer um com o mínimo de paixão pela humanidade da zona de uma confortável ignorância. Não chegou a me doer, mas causou desconforto, pelas pancadas repetidas - tal como apregoava o velho Marley ao cantar "Hit me with music".

É daquelas coisas que você nunca sabe que acontecem, embora possa (e realmente não queira, por motivos até razoáveis) imaginar que elas devam existir. Afinal, escolas de teatro, conflitos armados, pessoas com projetos para crianças - tudo isso são "coisas" que existem por todas as partes, indiscutivelmente. O "detalhe" é juntar tudo isso num mesmo ambiente: alquimia claustrofóbica, pra mim. E, no caso, paradoxalmente libertadora...

Como mencionou a Graziella, que me acompanhou na sessão, ao final tenta-se desesperadamente buscar o ar fresco de um pouco de possível, para não sufocar-se. Com a respiração acelerada, falta respiro no final. Falta o suspiro do "possível" diante de tantas impossibilidades juntas.

Parece impossível enxergar crianças no lugar que está temporariamente ocupado por militantes-mirins, hinos de guerra cantados como canções de ninar, ódios mútuos despertados por antigos traumas e geradores de novos traumas - enfim, nada que lembre a imagem que tenho de uma "infância possível".

Parece impossível atuar com o lúdico teatro quando a realidade bate à porta de forma tão violenta e massacrante, a golpes de fuzil. Assim, é de um "outro" teatro que estamos falando, embora não menos lúdico: um teatro do possível, um teatro do oprimido (na acepção mais simples e original do termo, e não só o TO de Boal), um teatro catárdico e chocante. É um teatro de resistência (pacífica? ou seria de desobediência?) que tem na violência seu molde, seu limite, sua cerca - e é por ver a cerca que ele pode saltá-la.

E, diante disso, leio numa entrevista de Juliano à Maryam Monalisa Gharavi, em The Electronic Intifada (Tradução do Coletivo Vila Vudu, publicada aqui):

MMG: Como você responderia aos pró-sionistas que assistem ao seu filme e dizem que, apesar de sua mãe ter “reabilitado a mente árabe”, alguns dos meninos atores que se veem no filme converteram-se em “terroristas” (o que o filme também mostra)?

JMK: Essa questão é doentia. Não a sua pergunta, mas a atitude dos sionistas que supõem que o problema é a violência que as crianças praticam, não a violência da ocupação. É como inverter a pirâmide. O que me interessa é desinverter a pirâmide, com propaganda, é claro.

Nós não trabalhamos para “curar” a violência das crianças em Jenin. As crianças em Jenin não estão doentes. Tentamos encontrar meios mais produtivos, para ajudá-las, E meios mais produtivos não implicam não resistir à violência.

O que o nosso teatro tenta fazer não é se por como substituto ou alternativa à resistência palestina que luta pela libertação. É exatamente o contrário. É importante que isso fique bem claro.

Sei que essa posição não nos ajuda a conseguir financiamento, mas não somos “bons judeus” querendo ajudar “árabes”. Tampouco somos palestinos caridosos, que trazem sopa para os pobres. Nós somos da resistência. Estamos alinhados, absoluta e completamente alinhados com a resistência, com o movimento de libertação dos palestinos. A luta pela libertação dos palestinos é a nossa luta de libertação. Todos os que têm qualquer ligação com o nosso projeto sentem-se pessoalmente sob ocupação, sentem que sua vida está sob ocupação pelo movimento sionista, pelo regime militar de Israel, pelas políticas de Israel. Não importa se moramos em Jenin, em Haifa ou Tel Aviv. Ninguém que trabalha conosco trabalha para “curar” alguém. Não somos “curadores”. Não somos bons judeus, nem somos bons árabes, nem somos bons cristãos. Nós somos combatentes da liberdade da Palestina.

E, mais adiante, Juliano conclui:

Por outro lado, a arte tem uma força terapêutica, e dizer “força terapêutica” não implica dizer “poder curativo”. Essa diferença é crucial – não vemos a violência que a ocupação “ensina” aos mais jovens como uma doença. A arte não ensina ninguém a ser bom, bom cidadão, bom judeu, bom cristão. A arte aponta um caminho pelo qual esses jovens têm uma chance de aprender a usar as próprias potências a favor deles. Não contra eles mesmos.

Sem mais palavras...só o suspiro...