Aguardar
A-guardar, portanto, não é guardar. Pelo contrário!
A-guardar é entregar - do verbo "entregar-se".
Quem aguarda entrega-se ao que vem, e não ao que está guardado.
(Sabemos bem: o que está guardado não está solto, não está disponível, não pode ir-e-vir. Se não me acredita, pergunte ao guarda que guarda o que está guardado!)
Só se guarda o que se tem - e o que não se quer dar.
(Da guarda surge o roubo. Do guarda, o ladrão.)
Só se rouba o que não se tem - e o que não se pode receber.
A-guardar é uma entrega esperançosa que impede que se prenda no peito, que se tranque na memória - para o esquecimento ou para o ressentimento - algo prometido, algo desejado.
A-guardar pode exigir a espera, mas aquela do verbo "esperançar" - isto é, aquela que se difere da mera espera, pois não senta e descansa, não vigia, não protege.
A-guardar é lançar-se em marcha, para alcançar o esperançado, atentando-se para o que fez dar o primeiro passo, para o motivo do movimento, para a intenção da busca.
A-guardar é, então, um exercício de lembrança, que pratica-se numa entrega persistente, com a esperança de quem não desistiu, com a paciência de quem não precisa insistir.
Guarda-se segredo; guarda-se dinheiro.
Deveríamos guardar também o rancor.
A-guarda-se um beijo; a-guarda-se um amor.
Não se deve guardá-los (alguém pode roubá-los)
Não se deve emoldurá-los (eles não irão mais crescer).
Não se deve colocá-los em um pedestal.
Uma hora vem alguém e esbarra; eles caem, se quebram...
Crédito da imagem: Orlando Pedroso