Tomboy
Como usuário de Ubuntu/Linux, eu bem poderia falar do Tomboy, excelente software para tomar notas (como nos velhos post-it) que já vem instalado...
Mas o texto é sobre o delicado e poderoso filme de Céline Sciamma, diretora francesa nascida em 1978, chamado "Tomboy", cuja tradução literal seria "moleca". E Tomboy é, literalmente, um filme sobre uma "menina moleque" e também sobre uma "molecagem". Veja aqui o trailer.(E, se você não viu o filme e pretende vê-lo - o que recomendo entusiasticamente, não continue a ler os comentários, que estão cheios de spoilers. Além disso, vale mesmo a graça de ver o filme sem saber nada mais, sem ler sinopses, sem ver críticas. Teste seu gosto, teste seus limites, exponha-se ao que de mais belo a arte pode fazer por você: servir de outro-lado-do-espelho para você ver a si mesmo e às possibilidades do mundo).
Apesar de ser um filme sobre uma molecagem, no entanto, e ao contrário do que li em uma resenha, não consigo enxergar que seja um filme sobre uma mentira.
Diria que é um filme que trata explicitamente sobre uma verdade, daquelas que não podem ficar trancadas no armário, daquelas que são tão autênticas que se pode notá-la no brilho do olho, na sensibilidade de um sorriso maroto, no gesto mais doce que nos faz ser humanos.
(E, se fosse um filme sobre uma mentira, só poderia imaginá-lo como um filme sobre a "mentira" do binarismo de gênero. Laure é "female" do ponto de vista do sexo, pode ser "gender queer" ou "male" do ponto de vista do gênero, pode ser "bisexual" ou "male" do ponto de vista da orientação sexual, e pode ser tanto "androgynous" como "masculine" do ponto de vista da expressão de gênero. E, mesmo assim, há quem diga é que Laure é, simplesmente, uma menina. Localize-se na figura acima se não tem ideia sobre o que eu estou falando).
Mas, como surge essa "verdade"?
Na primeira vez em que Laure (Zoé Héran) encontra Lisa (Jeanne Disson) tudo é muito sutil - como são os primeiros encontros de crianças de 10 anos de idade.
Lisa vê em Laure um menino - e nosso primeiro olhar é balizado por preconceitos, que nada mais são dos imagens cristalizadas do pedaço do mundo ao qual tivemos acesso.
Lisa revela isso por meio da linguagem: se a linguagem cria o mundo, é Lisa quem cria as condições de possibilidade para a existência de Michaël.
Laure se permite entrar na "brincadeira" (que é sempre um jogo de possibilidades imaginadas e pactuadas) - e quem é que não faz concessões para ser aceito em um novo grupo?
E assim se cria uma "verdade": Laure passa a ser Michaël porque é visto como Michaël e porque se reconhece como Michaël.
Mas esse é só o primeiro passo para que, de uma "verdade" (por reconhecimento), se crie uma identidade e um mundo partilhado.
Laure/Michaël ainda precisa "provar" que é Michaël, precisa viver como Michaël, precisa parecer Michaël.
Laure sabe que precisa parecer um menino, não porque não seja (ela é!), mas porque acredita que pode ser um menino tanto quanto uma menina, e o faz para que os outros reconheçam.
E isso é estranhamente análogo ao que diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em seu inusitado texto ônto-antropológico:
No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é.
Nesse momento não é difícil fazer associações com o clássico "Boys Don't Cry", que em 1999 apresentava a história verídica de Brandon Teena, uma adolescente trangênero (transmasculino ou butch dyke, diriam algumas pessoas).
Mas as semelhanças deveriam parar por aí.
Tomboy não é um filme sobre (homos)sexualidade, nem sobre escolhas (ou orientação sexual), nem sobre crimes ou mentiras.
Como descreve Bruno Cursini na Revista Interlúdio:
Em Tomboy, a diretora Céline Sciamma conseguiu, ao menos, dois feitos: escapar da facilidade de encontrar quaisquer razões psicológicas ou sociológicas para tratar (e absolver) a homossexualidade e, ainda mais louvável, não cair na armadilha do choque.
Tomboy é um filme doce (porque crú) sobre crianças, sobre o universo infantil e sobre as imensas possibilidades que o circundam: imaginação, fantasia, amizade, amor, alegria, companheirismo, fraternidade, aceitação, ambiguidade, incerteza.
Apresenta a liberdade infantil como um jogo ambíguo, pois sempre está atrelada às regras impostas pelo mundo (adulto), embora ilimitada pelo tabuleiro configurado como o espaço do possível (infantil) e do (ingenuamente) imaginável.
O possível, nesse universo infantil, é o que se "pode fazer".
E, quase sempre, se pode fazer tudo o que se pode imaginar fazendo.
Se Laure imagina que "pode ser" Michaël, então ela é Michaël: lhe é concedido o direito de jogar futebol, de tirar a camisa, de cuspir, de brincar de luta e, inclusive, de vencê-las.
Lisa (Jeanne Disson) diz que Laure "não é como os outros meninos" (e é exatamente isso o que a encanta), embora saiba que Laure só possa ser Michaël na medida mesma em que é "como os outros".
O pai de Laure (Mathieu Demy) expõe essas ambíguas possibilidades desde o início do filme. Laure pode dirigir, Laure pode tomar cerveja, Laure pode andar de bermudas, embora Laure continue sendo, para ele, sua filha Laure.
Em complemento a essas possibilidades, a mãe de Laure (Sophie Cattani) não esboça nenhum estranhamento ao ver a filha, de bermudas, maquiada.
Tudo é singularmente possível e ambiguamente momentâneo - tanto quanto na cena em que uma massinha de modelar, feita no formato de pênis, é guardada por Laure numa caixinha junto aos dentes-de-leite que ela fora substituindo pelos definitivos.
Mas ninguém entende melhor essas questões do Jeanne (Malonn Lévana), a irmã menor de Laure.
Ela descreve Michaël (para seus pais), com uma beleza lírica e, ao mesmo tempo, extremamente cômica, como um amigo de Laure que a defende, a protege e a leva para passear - exatamente como faz a própria Laure, mas do "outro lado do espelho".
É triste, portanto, ver as palavras que Lisa utiliza quando percebe que beijava Laure, e não Michaël.
Diante da desilusão, ela só consegue concordar com os amigos: "- É nojento!".
O gosto, no entanto, sendo uma sensação imediata (não depende da mediação de outros sentidos nem da razão), só pode ser percebido como "bom gosto" ou como "repulsivo". Assim, pelo menos, era o que propunha Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790).
Lisa, em nenhum momento, sente repulsa por Laure - muito pelo contrário! O que causa "nojo" em Lisa não é o beijo (ou o gosto do beijo), mas a ideia de beijar uma menina (e, mais profundamente ainda, a consciência de que gostou de beijá-la e de que, possivelmente, gostaria de voltar a beijá-la)... Perde-se o beijo, fica-se com a ideia!
Novamente, como se trata de um filme sobre o universo infantil, trata-se de gosto - e não de opção/orientação sexual (sim, sim, eu sei que Freud escreveu sobre a sexualidade infantil. Mas veja lá: ele fala de "gozo" e "desejo", e não de "vontade" e "escolha").
No final, de forma tão dramática quanto singela e brusca, aberta mesmo, como se o jogo inicial tivesse acabado para dar início a um outro, Lisa torna a fazer a Laure a mesma pergunta: "- E como você se chama?".
E, dessa vez, o jogo recomeça a partir de outra possibilidade: "- Me chamo Laure.".
Alguns dirão: as regras limitam, o tabuleiro extrapola.
Outros, ainda: as regras educam, o tabuleiro ensina.
Laure aprendeu que pode ser Laure tanto quanto poder ser Michaël.
Mas Laure foi educada para ser Laure.
E, nesse choque, nem sempre indolor, se faz o mundo infantil, em sua constante e inadvertida passagem ao mundo adulto.
E, se mesmo com tudo isso, ainda lhe parecer que o filme é simples, "bobinho", superficial até...Tudo bem!
Sempre me lembro da força poética e sintética alcançada pela frase de Paul Valéry:
O mais profundo é a pele.
E não será justamente dessa profundidade superficial - no nível do tato e do olhar, no alcance dos gestos visíveis, na brevidade da infância, na rapidez das férias de verão, na pequena distância entre fantasia e realidade, entre razão e desejo - dessa superfície profunda que é a pele em que cada um de nós habita (e por meio da qual co-habita o mundo), de que fala Tomboy?

