Tema criado por Cory Watilo

Tomboy

Como usuário de Ubuntu/Linux, eu bem poderia falar do Tomboy, excelente software para tomar notas (como nos velhos post-it) que já vem instalado...

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Mas o texto é sobre o delicado e poderoso filme de Céline Sciamma, diretora francesa nascida em 1978, chamado "Tomboy", cuja tradução literal seria "moleca". E Tomboy é, literalmente, um filme sobre uma "menina moleque" e também sobre uma "molecagem". Veja aqui o trailer.

(E, se você não viu o filme e pretende vê-lo - o que recomendo entusiasticamente, não continue a ler os comentários, que estão cheios de spoilers. Além disso, vale mesmo a graça de ver o filme sem saber nada mais, sem ler sinopses, sem ver críticas. Teste seu gosto, teste seus limites, exponha-se ao que de mais belo a arte pode fazer por você: servir de outro-lado-do-espelho para você ver a si mesmo e às possibilidades do mundo).

Apesar de ser um filme sobre uma molecagem, no entanto, e ao contrário do que li em uma resenha, não consigo enxergar que seja um filme sobre uma mentira.
Diria que é um filme que trata explicitamente sobre uma verdade, daquelas que não podem ficar trancadas no armário, daquelas que são tão autênticas que se pode notá-la no brilho do olho, na sensibilidade de um sorriso maroto, no gesto mais doce que nos faz ser humanos.

(E, se fosse um filme sobre uma mentira, só poderia imaginá-lo como um filme sobre a "mentira" do binarismo de gênero. Laure é "female" do ponto de vista do sexo, pode ser "gender queer" ou "male" do ponto de vista do gênero, pode ser "bisexual" ou "male" do ponto de vista da orientação sexual, e pode ser tanto "androgynous" como "masculine" do ponto de vista da expressão de gênero. E, mesmo assim, há quem diga é que Laure é, simplesmente, uma menina. Localize-se na figura acima se não tem ideia sobre o que eu estou falando).

Mas, como surge essa "verdade"?
Na primeira vez em que Laure (Zoé Héran) encontra Lisa (Jeanne Disson) tudo é muito sutil - como são os primeiros encontros de crianças de 10 anos de idade.
Lisa vê em Laure um menino - e nosso primeiro olhar é balizado por preconceitos, que nada mais são dos imagens cristalizadas do pedaço do mundo ao qual tivemos acesso.
Lisa revela isso por meio da linguagem: se a linguagem cria o mundo, é Lisa quem cria as condições de possibilidade para a existência de Michaël.
Laure se permite entrar na "brincadeira" (que é sempre um jogo de possibilidades imaginadas e pactuadas) - e quem é que não faz concessões para ser aceito em um novo grupo?
E assim se cria uma "verdade": Laure passa a ser Michaël porque é visto como Michaël e porque se reconhece como Michaël.
Mas esse é só o primeiro passo para que, de uma "verdade" (por reconhecimento), se crie uma identidade e um mundo partilhado.
Laure/Michaël ainda precisa "provar" que é Michaël, precisa viver como Michaël, precisa parecer Michaël.
Laure sabe que precisa parecer um menino, não porque não seja (ela é!), mas porque acredita que pode ser um menino tanto quanto uma menina, e o faz para que os outros reconheçam.
E isso é estranhamente análogo ao que diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em seu inusitado texto ônto-antropológico:

No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é.

Nesse momento não é difícil fazer associações com o clássico "Boys Don't Cry", que em 1999 apresentava a história verídica de Brandon Teena, uma adolescente trangênero (transmasculino ou butch dyke, diriam algumas pessoas).
Mas as semelhanças deveriam parar por aí.
Tomboy não é um filme sobre (homos)sexualidade, nem sobre escolhas (ou orientação sexual), nem sobre crimes ou mentiras.

Como descreve Bruno Cursini na Revista Interlúdio:

Em Tomboy, a diretora Céline Sciamma conseguiu, ao menos, dois feitos: escapar da facilidade de encontrar quaisquer razões psicológicas ou sociológicas para tratar (e absolver) a homossexualidade e, ainda mais louvável, não cair na armadilha do choque.

Tomboy é um filme doce (porque crú) sobre crianças, sobre o universo infantil e sobre as imensas possibilidades que o circundam: imaginação, fantasia, amizade, amor, alegria, companheirismo, fraternidade, aceitação, ambiguidade, incerteza.
Apresenta a liberdade infantil como um jogo ambíguo, pois sempre está atrelada às regras impostas pelo mundo (adulto), embora ilimitada pelo tabuleiro configurado como o espaço do possível (infantil) e do (ingenuamente) imaginável.
O possível, nesse universo infantil, é o que se "pode fazer".
E, quase sempre, se pode fazer tudo o que se pode imaginar fazendo.
Se Laure imagina que "pode ser" Michaël, então ela é Michaël: lhe é concedido o direito de jogar futebol, de tirar a camisa, de cuspir, de brincar de luta e, inclusive, de vencê-las.

Lisa (Jeanne Disson) diz que Laure "não é como os outros meninos" (e é exatamente isso o que a encanta), embora saiba que Laure só possa ser Michaël na medida mesma em que é "como os outros".

O pai de Laure (Mathieu Demy) expõe essas ambíguas possibilidades desde o início do filme. Laure pode dirigir, Laure pode tomar cerveja, Laure pode andar de bermudas, embora Laure continue sendo, para ele, sua filha Laure.
Em complemento a essas possibilidades, a mãe de Laure (Sophie Cattani) não esboça nenhum estranhamento ao ver a filha, de bermudas, maquiada.
Tudo é singularmente possível e ambiguamente momentâneo - tanto quanto na cena em que uma massinha de modelar, feita no formato de pênis, é guardada por Laure numa caixinha junto aos dentes-de-leite que ela fora substituindo pelos definitivos.

Mas ninguém entende melhor essas questões do Jeanne (Malonn Lévana), a irmã menor de Laure.
Ela descreve Michaël (para seus pais), com uma beleza lírica e, ao mesmo tempo, extremamente cômica, como um amigo de Laure que a defende, a protege e a leva para passear - exatamente como faz a própria Laure, mas do "outro lado do espelho".

É triste, portanto, ver as palavras que Lisa utiliza quando percebe que beijava Laure, e não Michaël.
Diante da desilusão, ela só consegue concordar com os amigos: "- É nojento!".

O gosto, no entanto, sendo uma sensação imediata (não depende da mediação de outros sentidos nem da razão), só pode ser percebido como "bom gosto" ou como "repulsivo". Assim, pelo menos, era o que propunha Kant em sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790).
Lisa, em nenhum momento, sente repulsa por Laure - muito pelo contrário! O que causa "nojo" em Lisa não é o beijo (ou o gosto do beijo), mas a ideia de beijar uma menina (e, mais profundamente ainda, a consciência de que gostou de beijá-la e de que, possivelmente, gostaria de voltar a beijá-la)... Perde-se o beijo, fica-se com a ideia!
Novamente, como se trata de um filme sobre o universo infantil, trata-se de gosto - e não de opção/orientação sexual (sim, sim, eu sei que Freud escreveu sobre a sexualidade infantil. Mas veja lá: ele fala de "gozo" e "desejo", e não de "vontade" e "escolha").

No final, de forma tão dramática quanto singela e brusca, aberta mesmo, como se o jogo inicial tivesse acabado para dar início a um outro, Lisa torna a fazer a Laure a mesma pergunta: "- E como você se chama?".
E, dessa vez, o jogo recomeça a partir de outra possibilidade: "- Me chamo Laure.".

Alguns dirão: as regras limitam, o tabuleiro extrapola.
Outros, ainda: as regras educam, o tabuleiro ensina.
Laure aprendeu que pode ser Laure tanto quanto poder ser Michaël.
Mas Laure foi educada para ser Laure.
E, nesse choque, nem sempre indolor, se faz o mundo infantil, em sua constante e inadvertida passagem ao mundo adulto.

E, se mesmo com tudo isso, ainda lhe parecer que o filme é simples, "bobinho", superficial até...Tudo bem!
Sempre me lembro da força poética e sintética alcançada pela frase de Paul Valéry:

O mais profundo é a pele.

E não será justamente dessa profundidade superficial - no nível do tato e do olhar, no alcance dos gestos visíveis, na brevidade da infância, na rapidez das férias de verão, na pequena distância entre fantasia e realidade, entre razão e desejo - dessa superfície profunda que é a pele em que cada um de nós habita (e por meio da qual co-habita o mundo), de que fala Tomboy?

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Forgács

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O CCBB de Brasília está apresentando entre os dias 07 e 19/02/2012 a mostra (gratuita) de filmes de Péter Forgács, intitulada "Arquitetura da Memória".

Não conhecia o cineasta húngaro, e tive gratas surpresas ao ver alguns de seus filmes.

Péter é reconhecido internacionalmente pela criativa utilização de imagens de arquivo, de filmes de família (home movies) e de registros caseiros de meados do século 20. Assim, sua obra é um resgate de imagens - não pelo valor objetivo das imagens, mas pela narrativa que se pode construir a partir delas.

Na vinheta de abertura da mostra, Péter deixa claro a que veio (as frases são de seu filme "Tractatus de Wittgeinstein - 7 parágrafos em vídeo", veja aqui o trailer):

What the picture represents is its sense.
(O que a figuração representa é o seu sentido.)
It cannot be descovered, from the picture alone, wheter it's true or false.
(Não é possível reconhecer a partir da foto fora de seu contexto se ela é verdadeira ou falsa.)
Only a very unhappy man has the right to pity someone else.
(Somente um homem muito infeliz tem o direito de sentir pena de outra pessoa.)
The objetcts is simple.
(O objeto é simples.)

No entanto, se a história é sempre contada a partir da perspectiva dos vencedores, não me parece que Péter esteja sempre ciente do alerta deixado de forma enigmática por Walter Benjamin, em sua Tese 7:

a empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. (em Teses sobre o conceito da história, 1940.)

Ao utilizar imagens do cotidiano, banais até, Péter parece almejar contar outras versões paralelas à "história oficial".
Mas nem sempre este é o caso, como pode-se notar em "El Perro Negro - Histórias da Guerra Civil Espanhola" (veja aqui o trailer), no épico musical "Hunky Blues - O Sonho Americano" (que, aliás, tem excelente trilha sonora! Veja aqui o trailer) e, em menor medida, no chocante "Enquanto isso em algum lugar…1940-1943" (veja aqui o trailer).

Apesar de se fundamentarem em vídeos amadores e em histórias do dia-a-dia, por vezes simples e cômicas, como uma tentativa de contraste com cenas trágicas e bárbaras do período entre-guerras, as imagens dos dominadores, os relatos dos vencedores e dos bem-sucedidos (ao final) estão sempre lá, à espreita, vigiando e guiando os acontecimentos, alheios inclusive ao próprio cineasta, que parece ter as mãos (e a inventividade) amarradas na tentativa de tecer outra narrativa (im)possível.

Já no filme "Um Leitor de Bibó" (veja aqui o trailer) o espectador é duplamente presenteado: fragmentos de textos primorosos do pensador político húngaro István Bibó são complementados por imagens desoladoras do panorama da Europa Central durante os anos próximos à Revolução Húngara de 1956.

The greatest threat to the rule of law is not people outside it, but those uncertain and distorted situations in whiches the law becomes bad, contradictory, and hypocritical. (István Bibó).

Neste período, Bibó foi Ministro de Estado e também preso e sentenciado à morte. Anistiado, deu continuidade a suas reflexões sociais e históricas, profundamente arraigadas no conceito de "medo":

Being a democrat means, primarily, not to be afraid; not to be afraid of those who have differing opinions, speak different languages, or belong to other races; not to be afraid of revolutions, conpiracies, the unknown malicious intent of enemies, hostile propaganda, being demeaned, or any of those imaginary dangers that become truly dangerous because we are afraid of them. (István Bibó, em The Distress of Eastern European Small States, 1946.).

Por fim, fica a ideia de que a democracia não tem proteções contra si mesma - ou seja, contra o uso anti-democrático de procedimentos democráticos ou contra a demagogia - e nem deve ter.
(E a imagem da bandeira nazi sendo hasteada em frente ao Partenon grego torna isso assustadoramente evidente).

Limites

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Diante da experiência de

- Você ultrapassou todos os limites! Parece estar me testando, testando meus limites!

o que fazer, o que pensar, como reagir?

Talvez não esteja claro que limites são coisas que criamos - para nos proteger ou para proteger as relações (isto é, para que fique claro, a imagem cristalizada que temos de uma relação em particular).
Limites aparecem evidenciados em momentos de fragilidade, de "aislamento", de ruptura.
O outro nos impõe um limite quando nossa conexão está sendo perdida.
Ou, eu me imponho limites quando estou perdendo minha conexão interna comigo mesmo: quando me pego em contradição (com o que penso e sinto), quando quero crescer (para além do que sou), quando preciso expandir meu ponto de vista (para dar conta do mundo novo que se alargou).
Assim, como criações temporárias, os limites, no melhor sentido da ideia, estão aí porque devem ser superados. Não para que deixem de existir, mas para que se reajustem, pois são "limitados".

Ou, como ensina a velha sabedoria do mar:

Caranguejo que não troca de casca também não cresce.

E é nesse mesmo rumo que a filosofia também se manifesta.
(E, se não está afim de devaneios filosóficos agora, pode saltar alguns parágrafos, sem prejuízo).

Lembro-me de algumas ideias do filósofo francês Gilles Deleuze, em que aparece um alerta para que sejam saltadas as “cercas”, para que sejam ultrapassados os limites e para que sejam reintegradas as partes, antes distribuídas ou dispersadas - para ele, esse é o modo de agir dos bebês (sim! dos bebês!).
Cercas, para ele, são impedimentos que se impõem a nós, ou seja, que “vêm de fora”.
Limites, assim, são determinações ou fronteiras que impomos a nós mesmos, ou que assumimos para nós mesmos, às vezes por medo, outras vezes por ignorar que não são necessárias ou, sequer, existentes.
Estes limites assumem tantas e tão diversas formas que vale enunciar algumas delas:
i) podem apresentar-se como diferenças que criam meras “individualidades sem singularidades”, na expressão de Muniz Sodré. Ou seja, se quero impor um limite para manter-me como indivíduo, mesmo quando não há nada de singular nesse limite - dele não me aproprio, já que é mera repetição. Singular, por exemplo, é o sorriso ou o choro de um bebê, que são claros limites, embora não façam, per si, de um bebê um indivíduo, único, separado dos outros bebês. Pelo contrário. Assim, este sorriso é a expressão de uma "singularidade pré-individual", como indica Deleuze. Limites não individuam, porque só têm sentido na relação, no "ser-com"; e os limites singularizam precisamente no momento em que se tornam "próprios", como autêntica expressão desse "ser-com" (e uso aqui expressões de Heidegger).
ii) podem aparecer como mero “narcisismo das pequenas diferenças”, na clássica expressão cunhada por Freud, que é “a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”;
iii) e podem, ainda, aparecer sob a necessidade de universalização ou sob imperativos morais.

Não seria estranho se nos lembrássemos então do velho Freud, quando ele diz (no cap. V de "O Mal-Estar na Civilização") que:

Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização.

Para Deleuze, os julgamentos que fazemos funcionam como testes destes limites, precisam dos limites para ocorrerem: julgo o que acontece com base nos meus limites ou na estreiteza dos limites do outro. Acredito, nesse sentido, que só posso julgar o que consigo perceber, dentro dos meus limites. Me atenho - não ao poder de perceber, compreender ou julgar - mas ao próprios limites que condicionam meu juízo.

Nesse sentido estrito, contrariamente ao que indica a corrente de pensamento da complexidade, a "soma das partes" ainda seria sempre menor do que "o todo".
De nada adianta distribuir partes, separar, se não se nota que em cada divisão geram-se novos e menores limites. E, com a imposição de novos limites, diminui-se a potência do todo e dificulta-se a capacidade de compreensão.

Mas se tudo isso ainda parece muito abstrato, seria bom se compreendêssemos os limites mais ou menos como pontes - estreitas, balançando sobre o abismo ou sobre um rio, pendulares, feitas de cordas finas e puídas; uma ponte pênsil.

Bertolt Brecht apresentava o paradoxo pela mesma imagem:

Fala-se da violência das águas do rio, que tudo arrasta. Mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem.

Quando o rio se alarga pela violência de suas águas, ajustamos a ponte - alargamos os limites.
E, quando o rio se estreita, os pontos a serem interligados, as "ilhas", ficam mais próximas, ainda que não seja necessário mudar os limites-pontes.
Porque daí os limites deixam de ser barreiras (intransponíveis).

Limites poderiam ser entendidos como etimologicamente conectados à palavra Lei, do latim Lex, que significava para os romanos "uma relação formal entre as pessoas".
Assim, os limites passam a ser uma conexão entre pontos de vista particulares. (E lembre-se do que diz Leonardo Boff sobre pontos de vista: é sempre e somente a vista de um ponto).

A pergunta sobre os limites, então, pode ser expressa como a evidenciação do ponto de vista. Mas não se trata de saber o que é o ponto de vista de cada um - o meu e o do outro - para que se clarifiquem os limites.
Trata-se, antes, de saber "qual é" a vista desse ponto, "como é" que se vê o mundo com este limite.
Não basta ver os dois lados do rio. Há que se atravessar a ponte para se chegar do outro lado e olhar de volta.
Ou, como indica o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

Não se trata de perguntar qual é o ponto de vista dos [outros] sobre o mundo, porque essa pergunta já contém sua própria resposta. Ela supõe que o ponto de vista é uma coisa, o mundo uma outra, exterior ao ponto de vista.

Para voltar ao problema inicial, ainda falta entender o que tem de comum entre limites e testes.
Bem, talvez os limites - a mera declaração deles ou mesmo quando se ultrapassa o limite do outro - sejam encarados como testes.
Os limites criam a sensação de testes quando poderiam ser percebidos como meros "estímulos-respostas" diante da experiência partilhada.

Um limite pode ser criado - e vivenciado - como um teste de esforço: testa-se o limite do outro para saber até que ponto a outra pessoa suporta. Isto é, até que ponto ela realmente está disposta a manter tal ou qual limite.

No entanto, se nos comunicássemos mais abertamente sobre os limites - e, ainda, se estivéssemos mais dispostos a saltar as "cercas" e a cruzar as pontes - então poderíamos simplesmente perguntar: este limite é ainda necessário?
(Como indica a Comunicação Não-Violenta, um limite pode ser a expressão de uma necessidade, que ambos partilhamos e que precisa ser compreendida e satisfeita).

Experimentar, ao contrário do "teste", é um exercício de vida e de autonomia.
O teste objetifica, a experimentação liberta.
O teste cria um vínculo de tipo "eu-objeto", em que sou manipulador e, por isso, único responsável pelo que acontece ao outro.
A experimentação pode fortalecer a relação ao basear-se na fragilidade mesma da relação, ao considerar que ambos são responsáveis pela forma da vida que experimentam, ainda que não saibam ou que não queiram assumir.
Se eu testo, é para saber "do outro" e observar suas reações.
Se eu experimento, é para saber que "eu" estou vivo, e compreender como escolho viver com o outro.

Experimento o limite porque tenho medo da monotonia mais do que da morte.
Salto as "cercas" porque tenho medo do cotidiano, que aprisiona na repetição.
Integro as partes porque tenho medo da rotina, que subdivide a vida em territórios apertados.
E não faço isso porque sou contrário à tranquilidade que a rotina dá em troca, mas pelo custo de sua manutenção.

Como lembra volta-e-meia o tranquilo e contraditório Roberto Crema:

Se me contradigo [e ultrapasso os limites de sua compreensão, neste caso] é porque sou vasto; só os estreitos não se contradizem.

Assim, só posso pedir desculpas por ter ultrapassado seu limite.
Agora que o compreendo e que o aceito como possível, já posso perguntar: este limite ainda é necessário?
E então a-guardo para poder atravessar a ponte que nos liga e que me leva de volta até você.

Troca

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Volta e meia o tema aparece.
Um leit-motif da minha vida, talvez: trocas, intercâmbios, escambos, empréstimos, dádivas, presentes, mimos, entregas, perdas, perdões, doações...

Tudo muito semelhante.
Mas, se existe uma palavra para cada ato, é possível que sejam sempre coisas semelhantemente diferentes, né?

(Quando a semelhança está na referência, e a diferença no sentido, sabe?)

Daí que recebi um livro emprestado.
E lá estava o texto, fruto da necessidade de explicar ao leitor o título da coleção: Mimo

Um mimo é um dom. Uma dádiva. Um agrado. Uma graça. Um mimo não é nada. Mas pode ser muito. Não tem cálculo. Nem intento. Não é pensado. E, contudo: escolhido a dedo. Um mimo é generoso, gentil, delicado. Uma jóia rara. (Mas não cara). Pra alguém que faz anos. Ou sofreu desenganos. Mas também a pretexto de nada. Simplesmente porque você gostou. E lembrou de alguém que gostaria. Porque você botou o olho e pensou: é isso! Um mimo não é um objeto de desejo. Porque não é pra si. É pra outrem. E não é pra ostentar. É pra dar. Discretamente. Na cumplicidade de uma amizade. Ou na clandestinidade de um amor. Não é pra guardar como um tesouro. Porque não é pra dentro, mas pra fora. E não é da ordem da usura, mas da generosidade. É gratuito. Não espera nada em troca. Mas sem que você saiba, acaba depositado. No fundo perdido do dom universal. Até que um dia, do nada, quando menos esperava, você recebe um. E o circuito se completa, mas também recomeça. E a lei do mimo se cumpriu. Quem mima mimado será.

Por Tomaz Tadeu

E minha boca esboçou um sorriso maroto: será que estava o mundo tentando me mimar, me ensinar sobre a troca, me fazer receber o agrado?

Mas outro evento me consternou.
Conexões íntimas - quase promíscuas - fazem saltar aos olhos aquilo que sempre esteve lá (como um acontecimento), mas que só agora aparece, desvelado, quase nu.
Não é como se o Rei estivesse, de repente, despido, louco. É como se tivessem aberto a porta da casa de swing...

Num restaurante homônimo em São Paulo me sento e vejo no despretensioso papel-toalha que cobre a mesa - e que será rasgado em seguida, para guardar a recordação daquele encontro, daquela troca, daquele Escambo:

Que não seja apenas transferência mútua, barganha ou permuta
Que seja vivência, experiência,
Brilho no olhar, risada solta, aconchego, cheiro de chuva, lembrança muda
Conversa e aperto de mão, suspiro e diversão
Que seja escambo, que ultrapasse a troca
Que seja intercâmbio que não pare de girar
Que voe com o vento aonde tiver de chegar.

por Bruno Corrêa

E destaco o texto, porque foi o decalque que apareceu pra mim. Não um recalque, diga-se!

Assim, se a vida é texto, resolvo passar um marcador nos acontecimentos importantes: pra não me esquecer (Quem sabe não leio depois?); pra usar como referência (De onde tiramos nossas palavras-repetidas?); pra enviar para outras pessoas (Na vida-texto as palavras são conexões?).

Crédito da imagem: Orlando Pedroso

Aguardar

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Os etimólogos e filólogos que me perdoem, mas aguardar é, literalmente, "não-guardar".

A-guardar, portanto, não é guardar. Pelo contrário!

A-guardar é entregar - do verbo "entregar-se".
Quem aguarda entrega-se ao que vem, e não ao que está guardado.
(Sabemos bem: o que está guardado não está solto, não está disponível, não pode ir-e-vir. Se não me acredita, pergunte ao guarda que guarda o que está guardado!)

Só se guarda o que se tem - e o que não se quer dar.
(Da guarda surge o roubo. Do guarda, o ladrão.)
Só se rouba o que não se tem - e o que não se pode receber.

A-guardar é uma entrega esperançosa que impede que se prenda no peito, que se tranque na memória - para o esquecimento ou para o ressentimento - algo prometido, algo desejado.

A-guardar pode exigir a espera, mas aquela do verbo "esperançar" - isto é, aquela que se difere da mera espera, pois não senta e descansa, não vigia, não protege.

A-guardar é lançar-se em marcha, para alcançar o esperançado, atentando-se para o que fez dar o primeiro passo, para o motivo do movimento, para a intenção da busca.

A-guardar é, então, um exercício de lembrança, que pratica-se numa entrega persistente, com a esperança de quem não desistiu, com a paciência de quem não precisa insistir.

Guarda-se segredo; guarda-se dinheiro.
Deveríamos guardar também o rancor.

A-guarda-se um beijo; a-guarda-se um amor.
Não se deve guardá-los (alguém pode roubá-los)
Não se deve emoldurá-los (eles não irão mais crescer).
Não se deve colocá-los em um pedestal.
Uma hora vem alguém e esbarra; eles caem, se quebram...

Crédito da imagem: Orlando Pedroso

Aniversário

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Aniversário é quando se celebra a passagem de um ano - um ano pessoal e intransferível (que foi marcado pelo relógio do médico que fez seu parto, não se iluda...).
Aniversário é quando se co-memoram os acontecimentos dos últimos tempos, com as pessoas dos últimos tempos, geralmente nos últimos tempos do dia (sim, porque só sua mãe vai lhe mandar uma mensagem na hora em que você realmente nasceu, lhe dando os parabéns!).
Aniversário é um rito moderno, alavancado pela moderna exacerbação do papel do indivíduo e de sua trajetória pessoal, em que se marca o fim e o começo de um momento quase sempre privado. No entanto, é um rito coletivo, e não um retiro interior.
Como tal, lança o indivíduo diante da tarefa de lidar com o bom e o mau da vida compartida, do tempo social, do rito civilizatório.

Há algum tempo tenho deixado este rito de lado, abandonado a sua própria sorte.
A cada ano que se passava, eu viajava mais, recebia menos ligações, celebrava menos (este dia, em particular) e achava bom me retirar, por um dia pelo menos, do tempo social.

Este ano resolvi experimentar algo novo - na verdade, relembrar como era antigamente.
A experiência passa por superar antigas dificuldades em aceitar e receber: presentes, companhias, surpresas, novidades, homenagens; ausências, desconfortos, planejamentos, convites.
A experiência passa também por lidar com o problema do merecimento: merecer presentes, companhias, surpresas, um novo ano, um calendário próprio, um ritmo social, a partilha de regras coletivas.
Não é que eu não goste do reconhecimento - pelo contrário. Mas com o reconhecimento vem a exposição e, convenhamos, para um capricorniano acostumado com sua concha e seguro em sua caverna, a luz do reconhecimento pode ofuscar e dar medo. O reconhecimento não é como as palmas impessoais em um auditório, mas como um aperto de mão com olhos-nos-olhos, como um abraço apertado sem motivo aparente, como uma voz próxima lhe parabenizando por sabe-se-lá-o-quê.

De todo modo, a experiência está proposta. O desafio está lançado. E o aniversário vai chegar de qualquer modo...Quem sabe celebrando Saturno resolva me dar uma folga!

Para os "avisados", e para meu próprio registro, aí está o roteiro da experiência e o convite para a partilha dos eventos no dia 15/01, domingo:

A partir das 8h30 - Água Mineral
Pretendo iniciar o dia, ainda solitariamente (calma! é a transição!), com os pés na água corrente do Parque Nacional de Brasília. Se tudo convergir para a minha felicidade, o Sol finalmente vai dar as caras. Se não, será uma manhã fria e recolhida, mas igualmente com os pés na água - numa versão pagã do ritual de lava-pés.
Info:
Parque Nacional de Brasília – Água Mineral (preferencialmente na piscina "velha")
Rodovia BR - 040 - SMU - Via EPIA
(61) 3234-3680
Website no Guia Oficial de Brasília

A partir das 12h30 (até às 16h30) - Almoço familiar
Pra começar o dia com a benção dos santos e dos orixás, há que se fazer as devidas oferenda com cachaça e boa comida, né?
Assim, estarei confortavelmente sentado numa mesa lateral do agrabilíssimo restaurante-cachaçaria-bar-café chamado Fulô do Sertão para um almoço familiar: para resgatar laços familiares, nutrir, digerir; sem longas conversas, sem profundos pensamentos; um almoço em família, sem mais.
Amigos (que não se acanhem em partilhar do almoço "em família") são bem-vindos, ligações serão atendidas e até mesmo presentes serão bem-recebidos.
Infos:
Fulô do Sertão - Restaurante Cozinha Nordestina
SCLN 404 Bloco B. (esquina dos fundos)
(61) 3201-0129
www.fulodosertao.com.br

A partir das 17h30 (até às 21h30) - Café vegano
Porque, afinal de contas, a experiência de co-memoração também pode servir para reafirmar, no tempo presente, valores do passado.
Agora sim é a hora dos amigos, amigos dos amigos, conhecidos (e pelo menos 1 desconhecido, como no vertiginoso conto de Grégoire Bouillier, que me fez rever as comemorações de aniversário) chegarem junto.
Para celebrar os 30 verões, espero reencontrar 30 pessoas (e mais 1!) durante as boas horas em que devo ficar no Café Corbucci, tomando um cafezinho, curtindo um fim-de-tarde com seu lusco-fusco (cinza, nesses dias!) que só Brasília oferece. E, pra festejar, não precisaremos matar nenhum animal e nem deixar mães tristes sem seus queridos filhotes! Olha só que lindo... ;)
O Café fica na 203 norte e é tocado pela Marina Corbucci. É o único estabelecimento 100% vegano da cidade. Além dos cafés, cappuccinos, cervejas e vinhos, há sanduíches, pães-de-queijo-sem-queijo, tortas de chocolate, quiches e muito mais (dependendo do dia da semana) sem nenhum derivado animal que não seja a ralação de quem toca essse estabelecimento pra frente - como menciona o pessoal do "Distrito Vegetal" numa amistosa resenha aqui.
Infos:
Café Corbucci
203 norte, bloco D, loja 53 (esquina dos fundos)
(61) 3201-1316
www.facebook.com/cafecorbucci

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

Desculpas

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As desculpas são um dos mais poderosos instrumentos linguísticos e comportamentais que criamos para apaziguar o rumo e o ritmo irreversível da história humana.

Cosmogonicamente, fomos culpados pelo mundo que criamos, tal como o vemos. Não somos meramente criadores, mas também subversores do mundo natural. Assumida a culpa, resta saber o que fazer com ela: manter-se no conhecido padrão "punição-recompensa" ou experimentar (isto é, lembrar) do ancestral experimento da catársis e expiação, do abandono, da reconciliação possível (ou seja, da compreensão).

Desculpar-se é, antes de mais nada, desenraizar a culpa - tirá-la de seu território cômodo e profundo, lança-la à luz do ambiente superficial e vivenciar seus efeitos imediatos.
A desculpa, analogamente à palavra despedida, acontece quando se desfaz a culpa (por catarse, já que o curso da ação é irreversível mas também imprevisível).
Com a desculpa, tal como com a despedida, deixa-se de pedir (ou de culpar) o que se havia pedido (ou culpado). Não é porque nos esquecemos da culpa, mas simplesmente porque aquele acontecimento, ao qual atribuímos culpa, torna-se supérfluo, desnecessária, indesejado - como, aliás, antes o foi.
Uma despedida, como uma desculpa, no entanto, nos faz observar o acontecimento novamente. E assim, para que ocorra o perdão, precisa da lembrança.

Não se pode, infelizmente, fazer muito com a desculpa - embora o ato mesmo de desculpar-se seja poderoso.
Só se pode, quando muito, aceitar e acolher as desculpas. No limite, pode-se lembrar de agradecer pelo esforço necessário para que se ofereçam estas desculpas.

Sendo um gesto criador e, ao mesmo tempo, subversivo, as desculpas agem sempre "em mão dupla" (isto é, "com" e "contra"): só posso lançar para fora - desculpando-me "com" o outro - aquilo que já tenho dentro de mim - desculpando-me "contra" meu gesto.
Acredito que o maior e mais válido esforço deva ser concentrado em se pedir desculpas para si mesmo - porque a subversão exige um esforço adicional e complementar ao da criação.
Um pedido autêntico de desculpas - do tipo que tem uma energia interna que "aparece" para fora simplesmente porque existe - emerge como um esforço em oferecê-las. E, convenhamos, é mais fácil notar esforço do que intenção.

Para poder receber todo o benefício de um pedido de desculpas geralmente é necessário que as desculpas venham acompanhadas com "algo mais" do que simplesmente "desculpe-me".
(Lembre-se de que o esforço subversivo é complementar ao da criação; isto é, ele também cria e, portanto, deve poder apresentar essa sua "criação").
Em termos concretos, o que se espera é poder saber exatamente pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas.
Eu posso imaginar muitos motivos, mas não sei exatamente qual é o "seu" motivo.
Sem a explicitação da motivação interna, é difícil apreciar a criação - nota-se apenas a subversão. Nota-se o que foi alterado, o que é abandonado, o que é indesejado. Mas nem sempre revela-se a criação, o novo rumo e o outro ritmo que se está tentando co-criar.

Assim, sem indicar pelo quê se está pedindo e oferecendo desculpas, infelizmente, não se pode aproveitar completamente delas.

Mesmo assim, ainda é possível aceitá-las e acolhe-las, quando, talvez, um simples pedido e uma precária oferta de "desculpas" seja a única coisa viável no momento - em uma das vias dessa "mão dupla".
Além do mais, também é bem possível que, na outra via da "mão dupla", não se tenha forças e nem vontade de pedir e receber algo mais - que é quando a clarificação obscurece.

Falar em desculpas é falar do possível, ainda que subversivo; é falar do imprevisível, ainda que criador.

Crédito da foto: Orlando Pedroso.

psiu. Resolvi fazer uma "atualização" no post, porque hoje, 10/02, estava escutando "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman, e somente agora percebi que a canção parece condensar bem o sentimento por detrás da necessidade de que as "desculpas" venham recheadas com "algo mais", para que a via de mão-dupla se torne concreta e perceptível. Nem sempre, no entanto, um pedido de "desculpas" precisa expressar-se por meio de palavras. Como Marshal Rosemberg diz, boa parte da Comunicação Não-Violenta pode ser feita sem palavras. Escute e sinta...

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Arna

 

Arna Mer, mulher de família judia estabelecida em Israel na década de 1950, casa-se com o palestino árabe Saliba Khamis e muda-se para a Cisjordânia. Em Jenin abre uma escola infantil de teatro, cujo cotidiano é marcado pela ocupação israelense.

Assim é a sinopse do filme "As crianças de Arna" (Arna’s Children, 2004 – Ficção – Palestina, Israel – 85 min – Direção: Juliano Mer Khamis e Danniel Danniel – Idiomas: Árabe e Hebraico), que vi hoje no Cine Brasília, como parte da mostra audiovisual do 1º Festival Internacional de Artes de Brasília.

Assim é a descrição de Arna, uma das personagens do filme que seu filho, o diretor Juliano, fez. Além dela, ele filmou as crianças que participaram do teatro durante o período de 1989 a 1996. Alguns anos depois, ele volta para ver o que aconteceu com elas. Não é nenhuma surpresa (ou seja, isso não deveria ser considerado um spoiler) constatar que várias delas morreram na Segunda Intifada.

Alguns anos depois também (mais precisamente, em abril de 2011), Juliano (1958-2011) é assassinado na porta do teatro (chamado The Freedom Theatre) que co-fundara com sua mãe, Arna (1930-1995).

Sobre esse acontecimento - e como uma homenagem póstuma - o diretor brasileiro Sílvio Tendler fez um curto documentário (Matzeiva. Uma lápide para Juliano Mer-Khamis, 2011 – Documentário – Palestina – 5 min), que foi exibido (a meu ver, inapropriadamente) antes do filme de Arna.

Os filmes, em conjunto, formam um claustrofico ambiente que tira qualquer um com o mínimo de paixão pela humanidade da zona de uma confortável ignorância. Não chegou a me doer, mas causou desconforto, pelas pancadas repetidas - tal como apregoava o velho Marley ao cantar "Hit me with music".

É daquelas coisas que você nunca sabe que acontecem, embora possa (e realmente não queira, por motivos até razoáveis) imaginar que elas devam existir. Afinal, escolas de teatro, conflitos armados, pessoas com projetos para crianças - tudo isso são "coisas" que existem por todas as partes, indiscutivelmente. O "detalhe" é juntar tudo isso num mesmo ambiente: alquimia claustrofóbica, pra mim. E, no caso, paradoxalmente libertadora...

Como mencionou a Graziella, que me acompanhou na sessão, ao final tenta-se desesperadamente buscar o ar fresco de um pouco de possível, para não sufocar-se. Com a respiração acelerada, falta respiro no final. Falta o suspiro do "possível" diante de tantas impossibilidades juntas.

Parece impossível enxergar crianças no lugar que está temporariamente ocupado por militantes-mirins, hinos de guerra cantados como canções de ninar, ódios mútuos despertados por antigos traumas e geradores de novos traumas - enfim, nada que lembre a imagem que tenho de uma "infância possível".

Parece impossível atuar com o lúdico teatro quando a realidade bate à porta de forma tão violenta e massacrante, a golpes de fuzil. Assim, é de um "outro" teatro que estamos falando, embora não menos lúdico: um teatro do possível, um teatro do oprimido (na acepção mais simples e original do termo, e não só o TO de Boal), um teatro catárdico e chocante. É um teatro de resistência (pacífica? ou seria de desobediência?) que tem na violência seu molde, seu limite, sua cerca - e é por ver a cerca que ele pode saltá-la.

E, diante disso, leio numa entrevista de Juliano à Maryam Monalisa Gharavi, em The Electronic Intifada (Tradução do Coletivo Vila Vudu, publicada aqui):

MMG: Como você responderia aos pró-sionistas que assistem ao seu filme e dizem que, apesar de sua mãe ter “reabilitado a mente árabe”, alguns dos meninos atores que se veem no filme converteram-se em “terroristas” (o que o filme também mostra)?

JMK: Essa questão é doentia. Não a sua pergunta, mas a atitude dos sionistas que supõem que o problema é a violência que as crianças praticam, não a violência da ocupação. É como inverter a pirâmide. O que me interessa é desinverter a pirâmide, com propaganda, é claro.

Nós não trabalhamos para “curar” a violência das crianças em Jenin. As crianças em Jenin não estão doentes. Tentamos encontrar meios mais produtivos, para ajudá-las, E meios mais produtivos não implicam não resistir à violência.

O que o nosso teatro tenta fazer não é se por como substituto ou alternativa à resistência palestina que luta pela libertação. É exatamente o contrário. É importante que isso fique bem claro.

Sei que essa posição não nos ajuda a conseguir financiamento, mas não somos “bons judeus” querendo ajudar “árabes”. Tampouco somos palestinos caridosos, que trazem sopa para os pobres. Nós somos da resistência. Estamos alinhados, absoluta e completamente alinhados com a resistência, com o movimento de libertação dos palestinos. A luta pela libertação dos palestinos é a nossa luta de libertação. Todos os que têm qualquer ligação com o nosso projeto sentem-se pessoalmente sob ocupação, sentem que sua vida está sob ocupação pelo movimento sionista, pelo regime militar de Israel, pelas políticas de Israel. Não importa se moramos em Jenin, em Haifa ou Tel Aviv. Ninguém que trabalha conosco trabalha para “curar” alguém. Não somos “curadores”. Não somos bons judeus, nem somos bons árabes, nem somos bons cristãos. Nós somos combatentes da liberdade da Palestina.

E, mais adiante, Juliano conclui:

Por outro lado, a arte tem uma força terapêutica, e dizer “força terapêutica” não implica dizer “poder curativo”. Essa diferença é crucial – não vemos a violência que a ocupação “ensina” aos mais jovens como uma doença. A arte não ensina ninguém a ser bom, bom cidadão, bom judeu, bom cristão. A arte aponta um caminho pelo qual esses jovens têm uma chance de aprender a usar as próprias potências a favor deles. Não contra eles mesmos.

Sem mais palavras...só o suspiro...

Dúvida

Duvidas
Quando surge uma dúvida cruel, a resposta, fruto da ardilosa curiosidade*, nem sempre espanta ou redime a crueldade.

A crueldade pode estar na essência do próprio duvidar...

Para acabar com a crueldade (da dúvida, ou de quem duvida), a potência pode não estar em resistir (à crueldade), mas em desistir (de duvidar).

A desistência (como ativismo) pode ser uma saída.

Pode-se minar essa crueldade saindo-se do ciclo crueldade-resistência-crueldade. A crueldade só tende a crescer com a resistência. É quando resistência é cumplicidade, como re-existência, como o sobrevivencialismo niilista do último dos homens de Nietzsche.

Parêntesis: a desobediência civil seria uma forma de desistência? E como lidar com a denúncia de Žižek (explicada em detalhes aqui)? Ela pode ser resumida assim:

O pensamento de Foucault, Deleuze e Guattari, filósofos de ponta da resistência, que tiveram posições marginais atravessadas pelas redes de poder hegemônicas, acaba representando a ideologia das novas classes dominantes.
(Slavoj Žižek, no capítulo final do livroOrgãos sem corpos: sobre Deleuze e suas consequências”, com sublinhado meu) (Veja aqui outros trechos do livro).

A desistência (como modo de vida) pode ser uma entrada.

Entra-se em um mundo de possibilidades para o desejo, para a criação, para a novidade, efim, para a liberdade de não se ter mais nada a perder, sem dúvidas, sem medos.

Outro parêntesis: quando V encontra-se pela última vez com Evey, ainda na cela (no minuto 80 do filme), eles dialogam. E, em seguida, vem a cena "Deus está na chuva":

- Chegou a hora.
- Estou preparada.
- Escute: eles só querem alguma informação. Passe algo a eles, qualquer coisa.
- Obrigada, mas prefiro morrer atrás do setor químico.
- Então você não tem mais medo de nada. Está completamente livre.

Ao fim e ao cabo, quando já se perdeu o medo de perder, então pode-se finalmente encontrar a felicidade de achar.

E só se pode achar (e doar) aquilo que não se tem medo de perder.


* A curiosidade, para Heidegger, é uma manifestação essencial da existência anônima (isto é, imprópria) cotidiana. A curiosidade (como o falatório) não se apropria do que vê (ou do que fala). Uma vez "satisfeita" a curiosidade, acaba-se a novidade - descarta-a. A curiosidade não leva à produção (como póiesis) ou ao uso, mas ao consumo-descarte-alienação. A curiosidade é

a impermanência junto ao que está mais próximo.
(Martin Heidegger, em Ser e tempo, 3a. ed., 1989. p. 233.).

Veja aqui um textinho bacana sobre o assunto.

Chá

Ritualizar os acontecimentos é uma forma de celebrar a vida.

Celebrar a vida é uma forma de manter-se aberto para o que vem, honrando o caminho percorrido e a contingência da caminhada.

Honrar o que passou é uma forma de conexão com o muito que há, firmando o passo nas pegadas de todos os que já passaram por aqui.

E há muitas formas de se fazer isso tudo. E, embora haja atalhos, não há um caminho fácil e curto.

Ou o caminho é fácil - e será longo; e se for longo, será entrecortado de momentos difíceis.

Ou o caminho é curto - e será duro; e se for fácil, restará a sensação de não ter chegado até o fim.

Como ouvi uma vez, no longo caminho duro de um Sesshin:

A dor não é necessária. Mas ensina.

Ontem aprendi muito. Menos do que preciso, o quanto eu consigo, e ainda talvez mais do que eu posso.

E ontem também celebrei muito.

Celebrei os batuques que dão ritmo ao meu corpo e ao meu pensamento. E aprendi que quando a mente está nas nuvens é preciso conseguir manter o ritmo, é preciso ter pés firmes pra pousar, é preciso ter terra firme para me receber e descansar.

Celebrei as cores que não vejo e que podem colorir minhas noites. Porque, ao não vê-las, torno-me mais cinza, mais soturno, menos vivo. Então, ontem aprendi que a noite também é colorida quando celebramos a noite; que o fogo é colorido quando celebramos o fogo; que a vida nem sempre é cinza e soturna, porque é viva.

Celebrei a Lua que sempre me acompanha e me guia. Lembrei-me de que, para os astrólogos, é a Lua o astro que guia o amor em minha vida: tenho um amor lunar; sou feito em fase. E aprendi, mesmo sem entender, que esta é minha parcela feminina que ainda precisa se harmonizar com o mundo feminino da qual ela parece ter sido banida. Se um amor lunar fere ciclicamente por abandono, talvez ele também possa curar reincidentemente. Preciso me lembrar que a Lua, cheia ou nova, sempre está lá no céu, mesmo durante o dia.

Celebrei o medo, e também a força que sempre lhe acompanha. A aprendi que, se não posso controlar - o medo e a força - posso tentar guiá-los nos labirintos do lá-de-dentro. Aprendi que não preciso agir sempre pelo estômago, que expele violência ao menor sinal de medo. Caminhar pode ser um bom exercício para afastar o medo; não correr (dele), mas caminhar (nele).

Celebrei o acolhimento que um lugar quente e protegido pode proporcionar. E fiz de um cobertor minha morada, provisória. E aprendi que, sendo provisória, é ainda mais importante. Quando tive medo, caminhei; quando tive frio, me cobri; quando tive calor, me abri; quando tive sono, sentei e sonhei; quando acordei, celebrei.

Celebrei o vivido, quando o vivido estava ocorrendo. Porque, ao passar, ao deixar de ser uma paisagem do pensamento, percebi que do muito que eu acabara de viver restara quase nada na memória. E celebrei a calma e a prudência com que a memória escolhe os caminhos e as paisagens que permanecem. A memória ensina a impermanência.

Mas o aprendizado de que falo aqui não é cognitivo. É só perceptivo, como uma impressão quase borrada na folha fina da memória imaginativa.
Afinal, tanto quanto um sonho, um chá é só um atalho. E tanto quanto qualquer atalho, o chá é só um expansor de caminhos - resta escolher entre os curtos caminhos duros ou os longos caminhos fáceis.

A vida começa quando a gente acorda e pode olhar para si e para o mundo, para tentar fazer do longo caminho um caminho um pouco mais fácil, e certamente mais vivo.


Deixo duas "dicas", pra quem quiser entrar no clima do chá.

Oxalá, música do grupo português Madredeus.

Cap. 24 do livro "Uma Vida Inventada", da Maitê Proença.

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